sexta-feira, 17 de outubro de 2014

PAISAGEM DA JANELA


(Imagem: www.lucianogallagher.blogspot.com)

             É uma janela de correr, em esquadria de ferro, com caixilho enferrujado e basculante torpe. Sem enfeites, apenas uma cortina de tule; a luz e a sombra que se projetam sobre o vidro transmitem a atmosfera exterior para o quarto – quente, claro, frio, escuro. Dá de frente para um robusto pé de acerola que lança galhos e frutos a esmo quando a estação é propícia.  É porto de passagem para muitos passarinhos, dentre os quais os indefectíveis pardais, as elegantes rolinhas, os frágeis colibris e algumas intrépidas cambacitas. Ao fundo, o muro descascado sobre o qual apóia-se a aceroleira, uma árvore de tronco enrugado, altiva e orgulhosa, que sustenta-se solitária em meio ao cimento áspero do quintal.
            Quando a Sra. Mieko chegou, os passarinhos já tinham se recolhido em meio à densa folhagem de uma árvore mais alta. Ainda restavam migalhas sob o pé de acerola, nacos de pão e grãos de milho que costumo lançar para saciá-los no repasto da tarde.
            - Olá, sou Mieko.
            - Sente-se, por favor. Minha filha já vai chegar.
            - Quantos anos ela tem?
            - Doze, eu acho.
            - O Senhor não sabe a idade da própria filha?
            - Às vezes, esqueço, parece que já tem quatorze anos. Tem ares de moça...
            - Meu cartão.
            - Obrigado. “Senhora Mieko, musicista”.
            Durante a de canto, recolhe-me como os passarinhos. Através da janela aberta descortinam-se as luzes noturnas que, pouco a pouco, vão se misturando ao silêncio. A música lírica virá espantar os últimos visitantes indesejados.

            De manhã, é a brisa fresca que passa pelo vão central e vem esfregar-me o rosto. Ouço a algazarra dos passarinhos – mais pontuais do que o meu despertador. Os penosos espalham-se pelo chão e refestelam-se com ticos de nada, crosta dura de pão, banana passada e restos de milho que não foram devorados pelo coelho. Tudo convertido no mais nobre banquete que se pode comer neste mundo, com os mais bisonhos dos modos, bicadas aleatórias, ciscadas de patas espalmadas, chacoalhar de penas e agitar de caudas.  De repente, um clamor coletivo: os vigias que estão sobre o muro dão o sinal e eles partem em busca de outra paragem.
Eu também devo partir na direção do dia.



            Quando a lua é cheia, minguante ou meia, corta rente ao telhado do vizinho e lança raios fugidios sobre a vidraça. Devo afastar o tule, deixar-me seduzir. Leitoso e cálido, lá está o pedaço de queijo pendurado no céu. Miro, admiro feito um lunático... Vou à cozinha buscar uma taça de vinho que cai tão bem com essa imagem de filme noir. Tomo de uma cadeira e assento-me. As pegadas do dia, fortemente impregnadas na memória remanescente do trabalho, vão ficando para trás. Caminho por uma trilha de estrelas, visito astros nunca dantes explorados. Não seriam aquelas as Três Marias? Ah, sim, por certo. Piscando como isqueirinhos bics no meio da imensidão. O gosto ligeiramente acre do vinho e seu buquê tânico transportam-me tanto quanto a dolência que vem chegando de leve... de leve... 
            - Pai!
            - O quê?
            - A professora de canto não pode mais vir. Está partindo de volta ao Japão.
            - Há de haver outra, não? A senhora Mieko tem de fato um sotaque...
            - Não faz nenhuma diferença. Técnica vocal não tem nada a ver com o idioma!
            - Por que você não experimenta cantar em tupi-guarani?
            As manhãs estão quentes, as tardes idem, as noites um torpor. Parece que outubro se esqueceu que é o mês das chuvas que matam a sede do campo e fazem florir a primavera. Quanta falta sinto da sinfonia da natureza, das rajadas de vento sacudindo a janela e assoviando no corredor! São os dias mais felizes do ano, exatamente quando no céu as trovoadas anunciam as tempestades e os passarinhos fogem para a copa da árvore alta em busca de proteção. Densos pingos, tão grossos quanto cordas, atingem as paredes, o piso encimentado, as telhas e o vidro por trás do tule. O spray de água açoita a gentil morada, a enxurrada corre até o ralo, raios descem tortuosos e precipitam-se entre os picos das montanhas em frente.



No entanto, o ar está seco como um deserto.
          Devo recitar Nam myoho renge kyo. Todos devemos recitar mantras, ave-marias, bater tambores, dançar a dança da chuva. Esquecer nossa vã civilidade. Até que as nuvens se convertam ao habitual negro carregado, até que a água jorre com intensidade, banhe a casa, a cidade, o país, até que a janela de esquadria de ferro, caixilho enferrujado e basculante torpe veja-se fechada para que o quarto não se molhe.
 Esperando a chuva, não arredarei pé daqui.

©
Abrão Brito Lacerda

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3 comentários:

  1. ah;;num acredito..1/2 hora a digitar umas palavras e não salvou uma...

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  2. Achei o texto muito romântico agora que o li no blog. Mas a descrição e o enquadramento estão bons.

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  3. Uma melancolia acridoce, se é possível definir assim sua combinação perfeita de palavras e sentimentos.
    Gosto de textos assim. Transportam para o primeiro livre que li no colegial: Clarissa, de Érico Veríssimo.

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