sexta-feira, 10 de outubro de 2014

QUATRO CENAS TIMOTENSES


NO PONTO DE TÁXI

            Oito e trinta da noite, esperando no ponto de táxi. Sentado em um cepo à guisa de tamborete, não sou o único a gozar da mansidão da noite do interior, onde os gatos são pardos e a gente distraída. Há dois carros no ponto, mas onde estão os choferes?
            - Você sabe onde estão os choferes?
            - Os “chof...”?!
            - Os taxistas, quero dizer.
            - Devem estar fazendo compras no supermercado.
            A moça parece nervosa. Por que será que passageiros de táxi estão sempre apressados?
            - Estou aqui há um tempão. Meu celular tá sem bateria, não posso chamar os táxis da rodoviária.
            - Boa ideia. A rodoviária não é longe daqui. Vou ligar.
            Ligo pra rodoviária.
            - Alô. Estamos no ponto do Bretas, precisamos de táxi. Somos dois passageiros.
            - Neste momento, o José Paulo e o Monteiro estão na praça – responde a voz preguiçosa do outro lado da linha.
            - E onde estão eles?
            - Estão no supermercado, aguardem alguns minutos.
            Enfim, chegam os dois fujões, empurrando um carrinho de compras. São cinco minutos para colocarem tudo no bagageiro e postarem-se ao volante, aptos à corrida. Pressa para quê? Todos os motoristas de táxi da cidade são aposentados e já perderam a ansiedade há muito tempo. Depois, tomarão o caminho mais lento até sua casa e aproveitarão para trocar uns dedinhos de prosa com você.



RESSACA ELEITORAL

            Não entendo a lei da ficha limpa. Vai-se a votação e as ruas da cidade ficam cobertas de santinhos, desses que já não salvam mais. Como se sabe, antes da eleição, todos os milagres são possíveis. Depois, salve-se quem puder. Vão precisar de um exército de garis para pôr tudo em ordem novamente. Por que pessoas são pagas para distribuir essa porcaria toda e não para recolhê-la?
            Um silêncio de dúvida paira sobre o centro da cidade, normalmente agitado, com buzinas, caminhões com descargas descalibradas e motos voando como mariposas. Ultimamente tinha também alto-falantes da propaganda eleitoral, a única coisa alta nesta campanha. A julgar pela melancolia desta segunda-feira, ninguém foi eleito.        



ABAIXO AS BOTAS, ACIMA AS SAIAS

             O inverno se despediu, quase sem cumprimentar-nos. Dizem que é o aquecimento global, cada ano mais quente que o anterior, até as calotas polares começam a derreter para o planeta refrescar-se. Quando forem-se as calotas, fugiremos para Vênus, lá é gelado o ano todo. Trabalharemos menos (o ano venusiano tem apenas 244 dias) e, com sorte, seremos resgatados por alguma nave errática em direção à galáxia de Andrômeda.
            Por enquanto, aqui está bom, graças às mulheres. Por mais que o inverno seja ameno, não deixam de aparecer botas de todos os canos pelas ruas: longas, de salto e bico afilados, baixinhas com bordas dobradas, tipo caminhada, botas cowboy com falsa-esporinha, de lacinhos, de cadarços, com velcro, de plataforma. Agora que a temperatura já não é mais compatível com esta extravagância, saem as botas e entram as saias. Mas as pernas permanecem, e merecem um parágrafo à parte.
            Esqueçam os tempos em que as pernas das mulheres mostravam pontinhos pretos de raízes de pêlos. Depilação agora é ultramoderna. A frio, a quente, e também com muita academia, as pernas ficam da forma que as conhecemos. Um pouco de sol, ou a falta dele, dá a cada uma sua textura particular. Um vestido ou saia completa o conjunto. A primavera mal começando e ainda teremos um verão inteiro pela frente.



UM BURACO SEM SAÍDA

            - Alô! É da Copasa*?
            - É sim, senhor. Um momento, por favor...
            - ...
            - Alô, Copasa. Um momento, por favor...
            - ???
            - Alô, Copasa. Em que posso ajudar?
            - Aqui é da Rua Noventa e Um no Novo Horizonte. O buraco que vocês abriram há dois meses ainda não foi tapado.
            - Onde fica o buraco?
            - Na frente da minha garagem, número 72.
            - Teve a eleição, o senhor sabe como é... Muitos buracos para serem tapados.
            - Quando é que vocês vão fechar o buraco?
            - Um momento, por favor...
            - ...
            - Alô! Aqui consta que já executaram o serviço.
            - Como, se o buraco continua aberto?
            - Um momento, por favor...
            - ...
            - Uma equipe irá amanhã executar o serviço.
            - O senhor já me disse isso sete vezes! Que falta de respeito! Se fosse no centro da cidade, já teriam consertado!
            - Bip! Bip! Bip! A Copasa agradece sua ligação.

(*Copasa: Companhia de Águas e Saneamento de Minas Gerais)

©
Abrão Brito Lacerda
07 10 14
           













3 comentários:

  1. 4 pelo preço de 1? nada mal.... a meu ver os dois narrativos superam em muito os outros pela orquestração de vozes entre personagens. È de "taiar" o sangue a realidade de quem conta com o estado ou com estes taxistas...melhor mesmo é pensar nas pernas do verão...

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    1. Obrigado pelo gentil comentário John, desta vez você entendeu-se bem com o blog! (rsrsrs!). Vamos indo, experimentando com as palavras, procurando produzir algum prazer, quem sabe alguma cultura.

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  2. Gosto bastante dessas suas crônicas curtas, Abrão. E como são flashs de um lugar que eu também convivo, ficam com um apelo ainda mais especial.
    Grande abraço!

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