quinta-feira, 25 de maio de 2017

RUÍNAS



         Na canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso diz que, no Brasil, "tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Considero esta definição perfeita e a incorporei a minha própria visão de nosso país. Agora, vejo que outros compartilham a mesma ideia, que o Brasil é uma máquina trituradora de coisas e conceitos, que parece estar em constante movimento, embora não saia do lugar. 
            Há um afã em recuperar o atraso, então faz-se tábua rasa de tudo, a natureza (exuberante só em alguns lugares), os monumentos, os costumes, a culinária, a língua, tudo sofre uma crescente invasão alienígena e se desfaz. Uma palavra do inglês deve ter mais valor do que seu equivalente em português, pois já não nos damos mais ao trabalho de traduzir. Adoramos colocar nossa identidade em cheque, é um debate nacional sem fim, imitamos descaradamente o que outros criam, somos os reis da gentileza e da paródia. Temos complexos aos montes, somos macunaimas, antropófagos e capitalista selvagens, tudo ao mesmo tempo. Até a escala malévola do cada vez pior ganhou foros permanentes por aqui e a expressão “fundo do poço’ virou uma ruína semântica.
            O lixo, assim como o luxo, nos pertence; o luxo que é lixo só,  a luxúria do lixo e o lixo futuro andando de mão em mão, no aguardo do gesto viciado: o presente cuidadosamente embrulhado é o papelão que alimentará o monturo. Como se não bastasse, queimamos etapas, por exemplo, o canteiro de obras que constrói o prédio ultramoderno lança seus rejeitos no terreno baldio ao lado, unindo destarte, sem nenhum lapso temporal, o futuro e o passado.  
            Essas observações encontram ressonância no livro Dictionnaire Amoureux du Brésil (“Dicionário Amoroso do Brasil”), do jornalista francês Gilles Lapouge*. Trata-se de uma obra  que aborda a sociedade e a história brasileiras sob a forma de verbetes, como um verdadeiro dicionário, e nos oferece uma análise interessante, honesta e com perfeito conhecimento de causa. Gilles Lapouge demonstra amar de verdade o Brasil, país que conhece muito melhor do que qualquer um de nós, pois já esteve de norte a sul, leste a oeste, viajando a trabalho ou lazer. 
          O que não o impede, antes o autoriza, a lançar em filigrana sua ironia de observador externo sobre nossas mazelas e nossos absurdos. Através de seu texto eloquente e poético, fica ainda mais evidente o contraste que cultivamos em relação ao mundo “civilizado”. Se o Brasil é bonito enquanto exótico (ou uma gigantesca ruína, como ele diz), nossa bagunça e nosso improviso são demais para o seu pensamento cartesiano. E aqui cabe um “mas”: décadas de convívio com a gente tupiniquim, mais anos de pesquisa para a confecção do livro, não o ajudaram muito a compreender nossa malícia perversa.
            O “dictionnaire” tem vários verbetes excelentes; para o momento, atenho-me àquele denominado “Ruínes”, no qual ele declara: “O Brasil é uma vasta ruína. Esta é a razão de ele ser tão bonito, tão emocionante. Ele tem em seus estoques as ruínas mais variadas, e pode te oferecer várias outras amostras, conforme seu gosto, como se você estivesse escolhendo um produto no catálogo de uma loja: ruína nobre ou trivial, terrível ou comovente, antiga ou fresca, ruínas magníficas e suntuosas.” (p. 573)
           O autor leva tão a sério nosso gosto pela decadência que chega a afirmar que existe um propósito invisível nessa mania nacional, sobretudo naquilo em que nós nos esmeramos, a saber, o que ele denomina de “fabricação de ruínas ordinárias”: a utilização de materiais de baixa qualidade e rapidamente degradáveis que provoca a deterioração precoce de nossas torres de vidro, concreto e aço. Enquanto em Lascaux ou mesmo em Atenas, observa, foram necessários milhares de anos para transformar em ruínas construções feitas com materiais muito mais frágeis, por aqui a decadência se faz sentir numa questão de décadas.
            Ele se abisma com o fato de que alguns bairros centrais da cidade de São Paulo, onde foi morar em 1957, tenham passado da condição de prestigiosos a abandonados no curto período de 50 anos. Com humor negro, constata que os imóveis envelheceram na mesma escala que ele, e se alegra em perceber que sobreviveu a muitas outras coisas por aqui!
            Em contrapartida, faz questão de frisar e refrisar, no Velho Continente, não apenas monumentos isolados, mas cidades inteiras são renovadas de modo a perdurarem através dos séculos como símbolos da história, identidade e cultura de seus povos, razão pela qual apresentam hoje um aspecto mais novo do que quando foram construídas! Lá o antigo é novo, aqui o novo já é ruína.
            E logo chegamos á conclusão que tudo não passou de somenos e voltaremos ao costumeiro barulho das máquinas – de construção e demolição.

             (* Gilles Lapouge, Dictionnarie Amoureux du Brésil, Plon, 2011)
©
Abrão Brito Lacerda

24 05 17


terça-feira, 2 de maio de 2017

CLUBE DOS AMIGOS DO JOHN


(Imagem da Web)

            O John é um cara popular. Pense em alguém com quatro mil, duzentos e trinta e um amigos no Facebook, que recebe visitas de segunda a domingo, topa farrinhas fora de hora, releva faltas e falsidades - esse é o John. Em contrapartida, os amigos se preocupam com sua vida sexual (ele está visitando a Catarina semanalmente?), com sua vida financeira (só não lhe emprestam dinheiro), com sua saúde (o John espirra e os amigos têm um resfriado).  Acontece que, ultimamente, tem pairado no ar a notícia de que o John pretende se mudar. De novo, mas desta vez para bem longe.
            Convocou-se uma festa para debater a grave situação e tomar as medidas cabíveis. Logo agora que ele pretendia fixar-se no interior, ganhar o pão honestamente e economizar para a idade...
            “O assunto também me diz respeito”, disse John, “apesar de vocês pensarem o contrário. Na verdade, tenho duas alternativas: a primeira é me mudar para o centro e abrir minha própria sala, a segunda é dar aulas em uma faculdade no interior de Goiás.”
            Os amigos propuseram:
            “Podemos procurar uma quitinete no edifício Maleta...  ou, quem sabe, em local mais nobre, como o bairro de Lourdes... um apezinho tipo single, com ônibus em frente?”
            “Ainda prefiro o interior de Goiás”, disse John com firmeza. “Posso assinar contrato na semana que vem.”

            Os amigos decidiram passar aquela história a limpo. Compreendiam a decisão, embora desconfiassem do motivo. Qual foi a surpresa quando descobriram que o álibi tinha nome, profissão e apelido: tratava-se de Louise, poetisa do interior de Goiás, também conhecida como Psycho Killer. O affaire entre os dois durava mais de ano, através de postagens tipo poèmes d’amour fou e contos eróticos em text.
            Marcaram mais uma festa para desmascarar o que lhes parecia falta de lealdade do amigo. Só que, dessa vez, o John tinha mudado de ideia, mais uma vez...
             “Um ap. no Maleta ou, quem sabe, no bairro de Lurdes, tem seu preço”, disse John. “E, sem a faculdade, não tenho como me bancar. Acho que seria justo ratear o valor do aluguel entre meus amigos queridos, em parcelas módicas, para não pesar no bolso de cada um. Prometo restituir com juros e correções assim que puder.”
            Diante da surpresa, acrescentou:
            “Do contrário, terei que me mudar para o interior de Goiás.”
            Os amigos continuaram em silêncio, se perguntando “aonde o John quer chegar?
            “Pensei em tudo”, prosseguiu John. “Vamos sortear por ordem alfabética a contribuição de cada um de vocês. Basta dar um passo à frente, pegar uma ficha nesta caixa” – John aponta para a caixa, estrategicamente colocada sobre uma mesa – e segurá-la para a foto...”
            Só uma mão se levantou. Foi o Vicente, que alegou não ter entendido bem.
            Será o fim do Clube dos Amigos do John?
©
Abrão Brito Lacerda
26/04/17
           


quinta-feira, 20 de abril de 2017

PEQUENO GLOSSÁRIO DE PALAVRAS DEFUNTAS OU ESQUECIDAS

 
(Imagem da Web)
                         
            As palavras têm cor, peso e sabor. Têm também suas histórias, mas em um universo de milhares de palavrinhas ou palavrões, das preposições aos substantivos, passando pelos advérbios e os verbos pretéritos, não nos damos conta da vida que pulsa por trás de cada uma. Elas surgem e desaparecem, alimentam os livros e as ilusões e dão estofo aos dicionários. Ainda que tivéssemos uma memória organizada como uma planilha excel, un hard disk ou um app, um glossário de impressões afetivas, não bastaria;  é preciso ainda inventar e reinventar, como o substantivo “idioteza” que invento agora para designar a mistura de idiotice com esperteza. 
            Que as palavras vivam como testemunhos de uma época, respirem o ar da atualidade e não se transformem em ruínas ou alimento para traças em alguma biblioteca. Assim, antes de lançar a última pá de cal e liberar espaço no driver, apresento este pequeno glossário de palavras ou acepções que antes se limitavam ao espaço da memória.  

GALINHOTA: ou carrinho de mão. Na fazenda onde me criei, tinha uma galinhota de metal com uma marca estampada na caçamba que muito intrigava a nós, meninos. Lia-se: “Formiga Minas”. Qual era a relação entre formiga e galinhota? Para nós, deveria ser galinha, o carrinho se parecia com uma, tinha dois pés e tinha o nome.  Só depois fomos entender que Formiga era uma cidade de Minas.

ALMOFARIZ: fiz questão de procurar no pai dos burros, ou seja, no Google.  “É um utensílio que serve para moer pequenas quantidades de produtos, por vezes misturando vários ingredientes, também chamado pilão ou modedor.” Ou seja, o nosso socador de alho. Miha mãe perguntava: onde está o almofariz? A palavra não teria sido guardada não fosse pelo som. E pensar que foi trocada por uma perífrase!

MÁQUINA DE ESCREVER: objeto pré-cambriano que permitia a seu usuário – um datilógrafo – produzir textos, tabelas, etc – através de um teclado. Deu origem ao verbo datilografar. Hoje pode ser encontrada em museus e em algum brechó do edifício maleta em Belo Horizonte.

DATILOGRAFAR: do grego "dáktylos", "dedo" + "graphein", "escrever", é o ato de escrever à máquina. Era, porque as maquinas foram substituídas pelos computadores e o verbo passou a ser “digitar”. Curiosamente, digitar vem de “digitus”, que é dedo em latim. Enquanto outras línguas, como o inglês (type), francês (frapper) e espanhol (teclear) mantiveram o mesmo verbo, nós nos “modernizamos. É o nosso desapego às tradições somado ao afã de transformar tudo em ruínas o mais rapidamente possível.

TEXTO: uma palavra rara desta seleção. Um texto era uma tampa de panela, geralmente fina, como as de alumínio ou esmalte, comuns antigamente. 

PIREX: um pires. O nome vem da marca de utensílios de vidro ultra-resistentes, que incluía pratos, xícaras, bandejas, formas e tigelas.   Pires tinha que ser pirex e pronto.

PUBA: é a massa da mandioca fermentada, utilizada na confecção de bolos, biscoitos e beijus. É feita com mandioca descascada e posta em um cocho de madeira com água para “pubar”. Enquanto a goma pode ser seca e guardada durante muito tempo, a puba deve ser usada ainda fresca, no que resultada o melhor bolo de “aipim” que existe.

TANGER: por para correr um animal, expulsá-lo. Tanger as galinhas quando estão dentro de casa, tanger os porcos do quintal. Significa também fustigar o animal ou golpeá-lo: tanger os jegues para que andem mais rápido.

RODA, RELHO, BOLINETE: três partes que compõem o conjunto da roda de ralar mandioca para fazer farinha. A roda possui uma ranhura por onde passa o relho, feito de couro, que transmite o movimento ao bolinete, uma casinha onde a mandioca é ralada. É operada por dois homens, cada um fazendo girar uma manivela.

PSÁ-PSÁ: um dia os meninos passam a se interessar por aquilo e começam a aprender um monte de nomes associados, verbos, adjetivos e interjeições. Psá-psá era uma forma codificada de falar de sexo sem se deixar notar. Geralmente, fazia-se acompanhar de um risinho irônico.

LANCE: “dar um lance” é uma expressão que nasceu com a minissaia. Quando a garota se inclinava um pouco demais, sentava-se sem a devida precaução, subia uma escada ou simplesmente levantava os braços, podia "dar um lance". Nessas ocasiões, a galera exclamava: "Brahma na jogada!"

BRAHMA NA JOGADA!: teve como origem um conhecido narrador de futebol dos anos 70. Para apresentar um convidado, comentar um lance ou anunciar os comerciais, ele repetia o bordão: “Brahma na jogada!”. Caída no gosto popular, a frase passou a designar qualquer coisa interessante que estivesse acontecendo, por exemplo, um "lance".

CAÇUÁ: esta existe nos dicionários. Trata-se de um cesto grande, comprido e com alças resistentes, geralmente feito de cipó, que é amarrado de cada lado de uma cangalha e serve para transportar gêneros. Com cara de caçuá é como você fica depois de dar uma grande mancada.

BUTE: a coisa mais amarga que existe, uma raiz que trata todos os males em uma só dose, pois quem experimenta não tem vontade de repetir.

AZEITE DOCE: o mesmo que azeite de oliva. Antigamente, era também usado como remédio caseiro, na composição de unguentos e garrafadas.

SEBO DE CARNEIRO: usado para untar os laços de couro e dar-lhes maior maciez e resistência. Os melhores paus de sebo também levavam sebo de carneiro. Ele é mais grudento que o Justin Bieber e não se solta nem com reza braba.

RURAL: Um carro utilitário antigo, fabricado pela Willys. Nas estradas de terra, com buracos e atoleiros à foison, só passavam mesmo jeep e rural. Ou carro de boi, que era o socorro da época. Quando a rural ou o jipe atolavam, chamavam o carro de boi para puxar.

JUMBAR: um verbo que nasceu de um insuspeito substantivo concreto e arquitetônico. Nos fundos da Moradia Borges da Costa em Belo Horizonte, havia o supermercado Jumbo, o maior da cidade, fonte dos desejos de todos os estudantes. Na falta de dinheiro, o jeito era "jumbar" alguns produtos, trocando as etiquetas. Alguns jumbavam até mesmo sem etiquetas. Acho que foi por isso que inventaram o código de barras.

DUNGAR, DUNGUISMO: Depois das decepções de 1982 e 1986, o futebol brasileiro retrocedeu para o estágio das retrancas tipo europeias e um jogador se tornou símbolo daquela estratégia pobre e de resultados medíocres. O dunguismo caracterizou o Brasil da transição para o governo civil, com seus correlatos, o peleguismo e a caretice.

FOCAR: declaro desde já a defuntez do verbo focar, que copiamos descaradamente do inglês e que hoje serve para designar quase tudo em português. Focar o texto, focar a atenção, focar no foco, ser focado e fazer coisas focadas, como esmagar sorvete na testa. Não demora a sair de foco, ser trocado por outro neologismo.
©
Abrão Brito Lacerda
19 04 17