segunda-feira, 30 de outubro de 2017

E AGORA, COM VOCÊS, O ATRASO



            Chega de orange, o atraso é o novo black,  assim, sem papas na lírica, sem calos nas cordas vocais, sem falso pudor de trazer para a frente do picadeiro essa compulsão recente pelo retrógrado, quadrado e tacanho. A TV mostrou, o congresso aprovou, o STF bateu o martelo, não vai poder mais ter peito, piadas e ironias, necas de checas e pintos, só bandas sertanejas, sexo é coisa de canibais. Não se olhe no espelho e tome banho de cinto de castidade, veja na tv do bispo os documentários bíblicos, catástrofes, tsunamis, mortes por bala perdida também valem  pra baixar a libido. Achava que tínhamos evoluído depois dos hippies, yuppies e hipsters,  que todo mundo ia dar de pau na federal e cheirar talco em Miami e Las Vegas? Não tem plano B, C ou H, chega de conversa mole, vamos direto ao atraso.
            Como vão nascer os bebês? Em sacos tipo preto lixo ou amarelo padaria ou dentro do saco amniótico, frágil e translúcido? Bota pra tocar aquela banda debochada dos anos 80, que pregava as virtudes do naturalismo, pois pelado é o estado natural em que viemos ao mundo, pai, mãe, avô e tia, antes que seja censurada pelo Kalil e o Trivella, atacada com tomates por membros do MBL revoltados, alguns com camisas verde-amarelas e outros com caras de idiotas. É a força irresistível do atraso.
            Como seria a Virgem Maria do século XXI - única mulher a procriar sem ter experimentado aquilo naquilo, mas por obra do espírito santo, que tudo pode, como a Metro Goldwin-Meyer e o King Kong? As jovens pagãs fornicavam com faunos, ogres, deuses e príapos, às vezes, humanos, foi um alívio para os exegetas a resistência obstinada da virgem, diríamos um progresso, mas  estamos aqui para falar do atraso.
            Para se vingar da concupiscência que lastra do lado de lá da banda podre desse mundo, de seus pensamentos inconfessáveis e de seus fantasmas, os puritanos resolveram dar a volta no parafuso com uma chave de braço.  Um psicólogo custa caro, dar porrada sai bem mais em conta. Estão mortos de preocupação para com seus nigucinhos: rifar almas a dois por cents no altar da cobiça e manipular a massa ignara e musculosa, pronta a testar a força dos seus punhos na cara dos mais fracos. Ah, mas não vão nos enfiar em uma camisinha de força ao menor sinal de sangue de menstruação, 50 chibatadas na bunda como um negro no pelourinho, ao coro de “heil Hitler!”, não vão conseguir resgatar as pernas peludas e os púbis idem, as cuecas marchinha-canção, as anáguas e as bombachas femininas, viva a lycra, a lingerie e o elastano, tava mesmo quieto demais pro meu gosto, cuidado com a turma do atraso!
            Se a arte não cheira nem fede aos narizes poucos instruídos, como explicar que são justamente eles que agora descem o pau, no melhor estilo vanguarda do atraso?  Um convite aos desregrados para rirem dos idólatras, anarquizar os bem-pensantes, fazer gato e sapato dos certinhos, desprezar a retórica, trair os moralistas, punir os estúpidos, incendiar os tímidos e cavalgar na crista da onda do apocalipse civilizatório.
            Mas para começar isso certo, seria preciso banir dos livros de história, onde se refugiaram nos últimos cem anos, os tupiniquins, tapajós, guaranis, goitacazes e outros nomes de ruas de Belo Horizonte, e seus hábitos de andar pela selva com as vergonhas à mostra, onde já se viu! Nem que controlem a bolsa e a bola, o senado e o senai, os bares e o Facebook, os banguelas e os desbocados, nem que votem no Bolsonaro, nem que elejam o diabo a quatro,  nos botem num Uber pra Bratislava, não vão conseguir nos fazer baixar o novo aplicativo tapa vergonha lançado pela Atraso S. A.
            No ano de 5016, quando fizerem buscas arqueológicas no supercomputador da nave mãe, descobrirão que no ano de 2036 o Brasil se fundiu com a China e o Paraguay para formar Brachipa, com exceção do sul, que preferiu juntar-se ao Uruguay e à Argentina para formar o Gausil. Depois de proclamarem um retorno às velhas formas coloniais através de uma nova constituição, financiada pelo agronegócio, foi dada a autorização para que todo cidadão Brachipense maior de 18 anos tivesse em casa dez pés de maconha para consumo próprio, medicinal, recreacional ou cerimonial, pois as autoridades do vizinho Gausil vinham boicotando as vendas pela fronteira. Foi algo parecido,  os Brachipenses não se lembram de muita coisa e os Gausilianos estão até hoje tentando lembrar a senha.

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Abrão Brito Lacerda

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

DE LISIANES & EUNICES


(Imagem: Mundo do Marketing)

            O tempo é um dos deuses mais lindos, segundo a expressão cunhada por Caetano Veloso na canção “Oração ao tempo”. Sendo assim, ele tem a prerrogativa de construir e destruir na mesma medida, dependendo da perspectiva de cada um. Quem valoriza o próprio patrimônio, tem vida ativa e feliz, quem se entrega às circunstâncias, pode sofrer acidente fatal na curva do futuro. Enquanto adepto das formas perfeitas e das boas colocações pronominais e físicas, deixo aqui o meu protesto contra o desleixo de algumas mulheres que conheço.
            A começar pela Lisiane. Quem te viu, quem te vê. Até outro dia, era um verdadeiro regalo para los ojos, combinação perfeita de tornozelos, pernas, quadris, torso e nariz apontando orgulhosamente para o céu; triunfava sem esforço sobre o trabalho modesto de vendedora; dava-lhe caráter e distinção; sonhava e fazia sonhar entre computadores, teclados e mouses...
            Mas eis que desleixou pra valer, e isso no auge dos vinte e poucos anos, a ponto de ter ficado redonda como uma berinjela. Se não se cuidar, ganhará em breve a forma de uma batata.  Por isso, vai aí meu conselho ao vento: não deverias ter dado ouvido aos que dizem que o que conta é a beleza interior e que tudo o mais vá pro inferno; não deverias ter declarado guerra ao espelho e à balança; valorize a porção de beleza universal que há em ti, pois os deuses do Olimpo e os humanos te agradecerão, assim seja.
            Outra que se arruinou por nada foi a Pocahonta (nome fictício). Ela nasceu bonita, como se diz, uma beleza pura do interior. Fez estudos de desenho, Artes Plásticas, dedicou-se ao balé, à zumba e à dança do ventre,  para quê? Acabou se casando precocemente, e o marido, que já não primava pela boa forma quando solteiro, foi engordando sem parar depois do casamento; e a Pocahonta seguiu no mesmo ritmo. Nem uma cirurgia bariátrica (para ele) e os regimes da lua e da tampinha de arroz (para ela)  adiantaram, pois os dois são realmente do tipo glutões.
            Quinze anos depois, a Pocahonta está tão inflada quanto o marido e começam até mesmo a por em perigo os sistemas de transporte! Assentar lado a lado no ônibus, por exemplo, significa ficar um de cada lado do corredor, já que ocupam duas cadeiras cada! 
            Nem mesmo quando o marido ficou entalado em uma cadeira de avião sobre o Atlântico - porque precisou ir ao lavatory, depois de comer cinco sanduíches de atum com maionese antes do pouso - ela declinou do juramento de manter-se fiel na saúde e na doença, na magreza e na obesidade. Depois da forma da batata, o que vem é a do maracujá. Te cuida, Pocahonta...


"Quanto mais velho você fica, mais difícil é perder peso, porque seu
corpo e sua gordura se tornam grandes amigos."

            E agora vejam o caso da Eunice. Esta era torta nos lugares certos, de frente, de lado, de costas, vírgula, parábola, ponto de exclamação. Isso nos bons tempos da universidade, que já vão longe, assim como a discothèque e os cabelos pigmaleão.
            Tantos anos se passaram e a Eunice, que era para estar um bagaço, faz troça da associação dos obesos anônimos, está se lixando para o carteado de sábado à tarde no clube dos aposentados. Nem as dores na coluna a fazem perder o prumo.  
            Ser vovó não combina com ser esbelta, verdade? Os netinhos querem lasanha à bolonhesa e bolo de chocolate com cobertura de caramelo todo fim de semana, não é mesmo? Vovós devem usar vestidos de bolinhas, sandálias vintage e óculos pince nez, blá, blá, blá...
            Não diga nada disso à Eunice. Ela não quer ser chamada de “senhora”, porque isso a faz sentir-se vinte anos mais velha, foge da fila dos idosos, recusa-se a usar os caixas especiais - “Não pago mais barato, então para que servem?” Só não descartou o rico dinheirinho da aposentadoria, a pensão de viúva e a meia passagem em voos domésticos. Afinal, foi por causa disso ela conheceu o atual namorado, um tanguista argentino, lá em Foz do Iguaçu.
            Quem te viu, quem te vê. A Eunice agora está aprendendo a bailar o tango, estuda espanhol e tem planos para voos mais altos. Com cabeça de vinte e o corpo de uma mandioquinha enxuta, que bons deuses a levem.
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Abrão Brito Lacerda
16  09 17
           


domingo, 20 de agosto de 2017

MORRER!


BR 381, trecho Timóteo - Belo Horizonte.

            A espécie humana evolui, a cada dia são incorporadas novas conquistas científicas e tecnológicas. Mas não abandona de todo os instintos dos tempos das cavernas ou dos gladiadores. Inteligência e estupidez não são incompatíveis, elas atuam lado a lado, e, quando a segunda predomina, é bomba!, costuma acontecer acidentes e mortes nas estradas. Na Grécia Antiga, morria-se aos 25 anos, pois (quase) todos os homens válidos tinham que defender sua cidade e conquistar outras, através da guerra. Hoje a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos, portanto, a morte demora a chegar. Uma vida assim pode ser longa demais para alguns, é natural que eles queiram encurtá-la.
            Uma das formas mais eficientes para se morrer subitamente é ao volante de um automóvel.  Existem aqueles que acham que devem andar mais rápido do que o trânsito, mesmo indo ao mesmo lugar que os demais.  Outros se consideram os ases, os velozes e furiosos, mesmo quando a velocidade média não ultrapassa os 40 quilômetros. Então, tome buzinaços, fechadas, ultrapassagens pela direita, arrancadas cantando pneus antes do sinal abrir, avanço de sinal vermelho...
            Se estiverem em cima de uma moto, sua ousadia e periculosidade aumenta dez vezes: passam no meio da fila de carros, a menos de vinte centímetros de cada lado, espremem-se na frente do sinal, arrancam em ritmo de competição, fecham os carros. Até parece que está escrito no código de trânsito: “ao parar no sinal, as motos devem ir para a frente e os outros veículos devem aguardar.” Direita ou esquerda, o problema é seu, moto vai para qualquer lado, aparece de surpresa nos cruzamentos, atravessa na toda, desvia-se de obstáculos como pedestres e buracos, passando de raspão, sem reduzir a velocidade, voa sobre os quebra-molas... Virou um must, até as mulheres, geralmente mais prudentes, estão pegando geral.
            Na estrada, os riscos sobem mais dez vezes, mas não a prudência desses nossos concidadãos. E o resultado estampa as manchetes, infla as estatísticas, inferniza a vida de quem viaja. Um tresloucado atravessa a pista e atinge de frente um caminhão que trafegava no sentido contrário. Quem foi o culpado? Salvo em caso de fatalidade (pneu estourado, falha mecânica), ele foi imprudente, estava trafegando em velocidade incompatível com o local ou tentou uma ultrapassagem precipitada e proibida. Em outro trecho de muitas curvas, o cara derrapa e vai parar no barranco de pneus para o ar. Se ele não era noviço ao volante e nem tinha bebido, então estava andando mais rápido do que devia. E, como explicar que alguém vá terminar debaixo da traseira de um caminhão que trafegava pelo acostamento? Foi porque ele bancou o esperto e tentou efetuar uma ultrapassagem pela direita. Prêmio de estúpido do ano para ele, tomara que sobreviva para aprender. Os outros não tiveram a mesma sorte. Ao atravessar uma cidade (pacata por sinal), encontramos o trânsito bloqueado. O que foi? O que foi? A explicação corre de boca em boca: um motoqueiro foi atropelado por um caminhão e morreu. Ora, como caminhão é bicho grande, lento e bronco, o único jeito de uma moto se chocar com um deles é andando tão rápido que não consiga brecar ou brincando de cabra-cega no trânsito.
            Ninguém deveria morrer no trânsito, porque o automóvel é uma bela invenção, um meio de locomoção muito prático, o melhor jeito de viajar entre nós. O problema vem da sua combinação explosiva com a estupidez de que tratamos acima. É quando ele se converte em um predador voraz, um monstro da modernidade.
            Mas para a dama da foice e da caveira, dá igual. O direito de alguém encurtar sua viagem até os 80 anos ou mais, é coisa que se deve discutir, tal qual a eutanásia. Antes de ficar senil e pré-túmulo, que mal há em assinar uma declaração, tal qual um inventário, autorizando os médicos, a família a desligar os tubos quando chegar a hora? O mal está em provocar a morte alheia. Vida e morte são coisas muito particulares, cada um deveria se ocupar da sua. Não podemos deixar os estúpidos resolverem essa questão à sua maneira.
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Abrão Brito Lacerda
20 08 17