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É DE MORTE

Se viver está difícil, imaginem morrer. Nossa história começa com um homem sentado a cavalo sobre uma janela do décimo-quinto andar do edifício Acaiaca. Sem camisa, e com o peito reluzente ao sol da tarde, ele grita frases obtusas, imprecações, clamores, promete se lançar no vazio, ou, pelo menos, é isso que chega aos ouvidos dos passantes lá embaixo. Uma pequena multidão acaba se formando nas calçadas de uma das esquinas mais movimentadas do centro de Belo Horizonte. Há quem finja conhecê-lo: “Desça daí, Alfredo, sua mãe vai morrer do coração!” Há quem apele para seus sentimentos cristãos: “Arrependa-se, e confie no perdão divino!” Alfredo, ou seja qual for o seu nome, responde apoiando-se no peitoril da janela com ambas as mãos, como quem está prestes a saltar. Isso provoca uma reviravolta dos curiosos, muitos se afastam com medo de serem esmagados, ouvem-se gritos histéricos, chega a polícia militar, o trânsito é interrompido por uma faixa de isolamento, buzinaços, xingaços, sirene…
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O NOVO CICLO DO ATRASO

Qualquer tentativa de dissociar o governo Temer do governo Dilma é mera ilusão e não resiste aos fatos. Não apenas porque os dois foram eleitos juntos por duas vezes, mas também porque, ao quebrar o verniz ideológico que cobre o antigo partidão, o PMDB, e o novo partidão, o PT, damos com o mesmo caroço. Não foi por isso que fizeram uma aliança que sobreviveu por três governos e meio, na qual atuavam juntos como carne e unha? Que discordâncias havia no congresso entre os dois grandes aliados nos tempos das vacas livres? Apenas pequenas brigas de egos e disputas por cargos. Se houve algum cisma relevante, que alguém dê um passo adiante e se pronuncie. O casal que hoje parece improvável não trocava antes juras de amor eterno? Não loteara o congresso nacional: controle do senado para você e controle da câmera para mim? Os cargos comissionados, os controles dos órgãos e empresas públicas não eram rateados equitativamente, assim como a propina? A cada dia torna-se mais claro que a aliança PT…

CELEBRE-TE

Vivemos num mundo obcecado pela fama, pela celebrity. Até mesmo quem não leva jeito para a ribalta faz trejeitos de famoso e diz que mora no Soho. O argumento é de que é no alto e na moleza que muito se ganha fazendo nada ou muito pouco, conforme o velho ditado: os de cima bebem água limpa e os de baixo chafurdam na lama. Na era da comunicação instantânea, ficou muito fácil ser uma celebrity. Bastam cinco mil likes, dez mil votos em uma petição para salvar as baleias mink, uma participação no reality show Big Butt Brazil ou, em último caso, uma ponta de comediante-ministro no governo Michel Temer. Já tem gente vendendo o pouco que lhes resta, como a virgindade ou a alma, para amealhar um lugarzinho no topo da página do que antes chamaríamos de pasquim online, mas que agora deve ser denominado fake celebrities. Uma vez conquistado o rótulo de celebrity, poderá participar de comerciais da JBS e do Banco do Brasil, assinar livros de receita e autoajuda, tipo Como Tornar-se uma Celebridad…

KEEP WALKING

Então você descobre que aquele hábito antigo pode ser retomado depois de mais de vinte anos e que os joelhos, assim como as demais articulações, além dos músculos, coração e pulmão, enfraquecem-se muito mais com o sedentarismo do que com a marcha dolorida. A dor, afinal, tem também seu lado abstrato, depende da importância que se dá a ela. Se nascemos em um ato de dor e assim também encerramos nossas vidas, qual é o problema de senti-la durante o percurso?             A bem da verdade, antes eu corria, agora eu caminho. Idade oblige, mas, com uma pitada de humor, essa mudança pode ser encarada como uma vantagem: foi caminhando e não correndo que o gênero humano fortaleceu-se e colonizou o planeta, das florestas tropicais aos polos gelados. Só muito tempo depois, tomado da nostalgia do seu lugar de origem, foi que ele começou a navegar. E possivelmente safou-se de muitas situações a nado, mas isso foi para curtíssimas distâncias.              E, depois, o filho cresce, fica do seu taman…

PEQUENO GLOSSÁRIO DA PRÉ-ADOLESCÊNCIA

Os púberes estão aí, achando que são gente. Como pintos saindo do poleiro doméstico para arriscar os primeiros passos independentes pelo quintal em torno, eles se expressam através de uma linguagem matizada que combina a imaginação da infância com a percepção lógica nascente para emitir proto-opiniões. Eles não querem mais apenas comer, dormir, brincar e fazer tarefas escolares, querem ter posicionamentos.Hoje seu vocabulário é determinado fortemente pelos conteúdos online, pelos jogos favoritos e pelos youtubers que seguem, eventualmente algum blog. A partir daí eles buscam fazer a ponte com suas experiências de debutantes na interpretação do mundo.
BAGULHO: É qualquer coisa, troço ou trem. APELÃO: Ser apelão é ser um pé no saco, chato, difícil de suportar. Quando o adversário é apelão, você tem que fazer de tudo para detoná-lo. SKIN: Um recurso de alguns jogos online, baseado na customização da roupa do personagem (a skin). Tem skin de armamento, de proteção térmica (para encarar as d…

ADIÓS A LOS VEINTE AÑOS - Um manifesto pós-utópico

Os acontecimentos dramáticos dos últimos dias demonstram de forma inequívoca que as rodas da história puseram-se mais uma vez em movimento.No entanto, a prisão do ex-presidente Lula não foi um raio caído de um céu claro de verão, mas sim um capítulo de uma novela ou, melhor, um episódio de um reality show recheado de intrigas, diz que diz e mentiras. O gosto nacional pela baixaria, aperfeiçoado ao longo dos anos com a dieta compulsória de violência e corrupção, atingiu o ápice. Muito lodo ainda há de passar por debaixo dessa ponte e de nada adiantará dobrar os sinos pelas ilusões perdidas da juventude, melhor será ficar atento e forte, como dizem os versos da velha canção. Mais importante ainda será não aderir às manifestações de ódio e preservar a mente como um território de liberdade e criação. Para quem pensa fora da caixa e pode se dar ao luxo de percorrer as pegadas do tempo em busca do sentido das coisas, trata-se também de uma ótima oportunidade para fazer um balanço de suas co…

LAMPIÃO E LAMPARINA

Lampião foi o rei do cangaço e também um equipamento de iluminação muito comum no passado. Assim como a lamparina, sua prima pobre, companhia imprescindível em todas as casas rurais do Brasil até bem pouco tempo. Quando o lampião a gás chegou, foi um assombro: ele iluminava o equivalente a dez candeeiros ou vinte velas! Ou seja, um lampião mantinha uma casa inteira longe das trevas da noite. Sem fantasmas e assombrações, coisas muito comuns na infância. As histórias de cemitérios, lobisomens e esqueletos atrás da porta que os adultos usavam para assombrar as crianças. O lampião a gás tinha várias vantagens, sobretudo aquela de fazer desaparecer num passe de mágica a fumaça tóxica que emanava dos candeeiros. E a chama não ficava dançando a dança do ventre a noite inteira, como a chama da lamparina. Mas para quem vivia naqueles tempos ermos, já era uma evolução. As latas de Querosene Jacaré – o melhor eram galvanizadas e muito boas. Serviam para tudo depois de consumido todo o seu conteú…

GINA LOLLOBRIGIDA E O ORGASMO ONÍRICO

Os gatos, tão discretos e reservados, tornam-se indecentes na hora do sexo. Culpa do cio, que os iguala aos humanos apenas algumas vezes ao ano. Nos outros dias, é seca pura; então os felinos abusam quando podem. Uma mosca voando, o repicar de um sino a dois quilômetros de distância, a brisa do verão, aquele leve sussurro no ouvido, só a Gina para compreender a razão dessas coisas. Meia luz ou escuridão, passos na água ou no carpete, pé, pés, pele tocando pele, saliências, curvas, transparências - a respiração. Leve, levemente solta sobre o colchão, cabeça para trás e cabelos tocando o piso. Um breve murmúrio de satisfação e pudor, como se acabasse de vir ao mundo. Um orgasmo inaudível, melhor senti-lo, penetrando na Gina até desaparecer dentro do seu suspiro. E, lá dentro, reina a mais perfeita tranquilidade. Nada de células se debatendo, espermetazóides em frenética corrida, neurônios em frêmito, tudo é paz e preguiça. Seu córtex enrugado demora a despertar e só o faz quando acarici…

MENTIRAS, MENTIRAS, MENTIRAS

Este mundo está cheio de mentirosos. Onde vamos parar? Conto aqui apenas alguns casos plausíveis e menos risíveis, pois as mentiras cabeludas estão nos jornais e nos noticiários de TV e são consumidas avidamente por milhões de cínicos. E por falar em cínicos, o que seria do mentiroso sem o justo apoio da parcela da humanidade que adora enfiar o pé alheio na lama? O mundo certamente andaria para trás e sem nenhuma contribuição dos menos avisados. Antes, os pais do Joãozinho queriam que ele saísse da frente da TV, agora se enervam porque ele só desgruda do computador para logar no smart e vice-versa. E não há nada que irrite mais os pais do que filho que não desgruda da telinha – isso é um direito exclusivo dos adultos, pensam. Passar o dia inteiro de olho no whatsapp para conversar abobrinhas com os amigos distantes enquanto despacha no escritório é coisa perfeitamente normal. Depois, é a mãe quem deve fazer as vezes de viva voz para o Joãozinho: - Vá escovar os dentes e depois tomar banh…

1959

Entre os números cabalísticos não consta o 59. Seria ele um número qualquer, como 1016 e 21, desses que se habilitam a saltar de bungee jump, andar de monociclo na corda bamba e outras aventuras radicais só para sair do ostracismo? Muitas evidências indicam que não, 59 é um coroa robusto e com muitas histórias para contar. Por exemplo: meu pai tinha fixação pelo ano de 1959. Tudo de grave e impressionante para ele tinha acontecido nesse ano. Falava da grande enchente de 59, do fim da guerra (não sei a que guerra ele se referia), da copa de 59 (meu pai era torcedor do Bahia, e, para ele, a conquista da Taça Brasil daquele ano correspondia a uma copa do mundo). Mais tarde eu tentei corrigi-lo, afirmando que a copa tinha sido no ano anterior. Foi como tentar convencer um camelo a passar pelo buraco de uma agulha.             A calça comprida e a bermuda já tinham se tornado itens comuns no guarda-roupa feminino e atraíam olhares nas capas das revistas e nas ruas. O pintor Cândido Portina…