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ESTAMOS NO SAL


 
(Imagem: www.flormel.com.br)


            “Como dizia minha avó...”. Quem não conhece um complemento para esta frase? O universo das expressões figuradas é o jardim da língua, tradicional e ao mesmo tempo vicejante, de onde extraem poetas, cronistas, músicos matéria farta e altamente expressiva. É, sobretudo, peculiar à linguagem, costumes, história de cada povo, embora o  sentido seja universal e tenha equivalente em outras línguas.
            Dizer “A vaca foi pro brejo” é muito mais significativo do que explicar que deu tudo errado e a situação está difícil – tão difícil quanto retirar uma vaca louca de um pântano.  “Macaco velho não põe a mão em cumbuca” é um chamado à experiência. Vem da armadilha besta para pegar macacos: uma banana colocada dentro de uma botija ou cabaça; o primata enfiava a mão, agarrava a fruta e não conseguia mais retirá-la, pois faltava-lhe a compreensão de que só a mão aberta consegue passar pelo gargalo.
Em sã consciência, ninguém quer “bater” ou “juntar as botas”, não é mesmo? Em contrapartida, todos querem “acertar na mosca” e “enfiar o pé na jaca”. Alguns “matam o tempo” enquanto o jogo não começa, mas os brasileiros “entraram numa fria” na última copa do mundo. O time “pisou na bola” e a torcida ficou “com o coração na mão”. Depois do jogo, todos foram “tirar o cavalinho da chuva” e agora estão “verdes de fome”, pois com esse time “quebra-galho” é mais fácil “dar murro em ponta de faca” do que “tirar a barriga da miséria”.

(Imagem: www.pe.uai.com.br)

Difícil é verter toda essa riqueza expressiva para outra língua.
No caso das expressões clássicas, de origem muito antiga, todas as línguas têm um equivalente. O contador de histórias grego, Esopo, autor das mais célebres fábulas conhecidas, deixou várias expressões figuradas que podem ser encontradas em vários idiomas. Por exemplo, “O hábito não faz o monge”, que soa medieval, mas é na verdade mais antiga. Vem da fábula O Asno em Pele de Leão: um asno, tendo encontrado uma pele de leão, cobriu-se com a mesma e saiu pelo campo fingindo ser o rei dos animais. Uma raposa, sempre muito esperta, desmascarou-o, dizendo “Quando ouço um leão rugir, fico com medo. Mas quando ele zurra, sei que se trata de um jumento.” A moral da história então é: a pele não faz o animal. Adotada na Idade Média, a frase saiu do latim e entrou para o francês, “L’habit ne fait pas le moine” e para o português. No inglês, manteve-se mais próxima ao original: “Clothes do not make the man” (as roupas não fazem o homem). E, no espanhol, ficou pomposa: “El uniforme no hace al héroe”, “A farda não faz o herói.”
Se alguma coisa é nova, dizemos que está “novinha em folha”, expressão que vem dos livros recém impressos, com todas as folhas branquinhas, limpinhas e sem amassados. Em inglês fica “brand new” (novo com a marca de fábrica), em francês, “neuf en boÎte (novo na caixa) e em espanhol perde a graça: é “totalmente nuevo”.
No universo rural de Minas Gerais, há uma profusão de dizeres interessantes, alguns locais e pouco conhecidos, outros já incorporados à língua brasileira. Há sobretudo um humor admirável, típico do falar “comendo as sílabas” do interior do estado. Se alguém disser que alguma coisa “tácustanuzóidacara”, não pense que o capiau está falando sânscrito; ele simplesmente quer dizer que “está custando os olhos da cara”. Se ele disser “tire o pé da minha janta!”, entenda que você está sobrando na conversa. E se ouvir que “minha irmã acabou no caritó”, não pense mal da moça, ainda que caritó seja um lugar fechado, pequeno e escuro. “Acabar no caritó” é ficar pra titia. E, que tal: “Os dois emendaram o bigode e acabaram dando cabo a machado”? Traduzindo: conversaram demais e acabaram criando problemas sem necessidade.

(Imagem: www.blog.maisestudo.com.br)
É como dizia a mãe de um amigo... Esta é do Alto Paranaíba, no oeste do estado de Minas. Ficará como registro da sabedoria das mães, tão necessária nesses dias de intensa dúvida. Ao assistir na TV às turbulências pré-eleitorais, crimes, corrupção a quatro, proclama a sábia senhora, extraindo do fundo da memória as palavras precisas que o cronista não deixará desaparecer: “Estamos no sal!”
©
Abrão Brito Lacerda

03 10 14

Comentários

  1. Abrão, que texto maravilhoso!
    Dá vontade que não acabe. Leve, sem formalismos, instrutivo e ao mesmo tempo divertido.
    Grande abraço!

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    Respostas
    1. Muito obrigado, Zé. Sinto-me honrado com sua leitura fiel. O blog tem sido uma escola para mim, no sentido de ensinar-me como produzir textos adequados aos dias de hoje. Se a erudição é rebuscada, a sabedoria é simples, não é mesmo?

      Excluir
  2. mas ficou fiiiiino. cada dia mais você se esmera com os seus modos de dizer com uma escrita cada vez clara, educada, refinada e como sempre bem humorada... nesse ritmo, em breve teremos um belo livro de crônicas... avante,,,

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Une ivresse belle m’engage Sans craindre même le tangage De porter de