segunda-feira, 3 de agosto de 2015

TIRADENTES E ALEIJADINHO

Com projeto de Aleijadinho, a Igreja de São Francisco é uma obra-prima do barroco mineiro.

            Aproveitando o recesso de julho, demos uma esticada até Tiradentes, que não visitávamos há cerca de vinte anos. Esperávamos uma cidade mudada, depois que virou locação para novela, cenário de festival gastronômico, de cinema e ganhou projeção internacional. Não nos surpreenderia um ambiente mais culto e refinado, que é o que se pode esperar de lugares assim.
            Antigamente a cidadezinha não diferia muito de outros lugares do interior de Minas Gerais, era mais conhecida dos livros de história do que das fotos dos turistas, mas mantinha um patrimônio arquitetônico harmônico e relativamente bem preservado. A pracinha, situada na entrada e no ponto mais baixo, de onde partem as ruas principais, era ocupada por hippies de diferentes plumagens, incluindo os argentinos, sempre dispostos a enrolar o freguês com seu portunhol malandro:
            - Se lleva tres pulseras, se paga duas!!
            Uma doce melancolia brotava das ruas de pedra, evocando a vida singela do Brasil de tempos passados. A vida corria devagar.
            As igrejas, o casario em rosário, as ruas calçadas em estilo pé-de-moleque estão hoje melhor preservados do que no passado, sobretudo porque grande parte das casas históricas, assim como outras menos antigas, além de muitas modernas, foram transformadas em pontos comerciais, lojas, restaurantes, ateliers, muito parecido, aliás – levando-se em conta as óbvias diferenças -, com o que ocorreu com as cidades do litoral da Bahia, Porto Seguro, por exemplo.
Projeto original de Aleijadinho.

            É a marcha inevitável do progresso, que rima com turismo e com comércio. E seu contraponto é a transformação do monumento histórico em uma selfie, capturada a passos de campanha por uma multidão que o pisoteia sem piedade em um círculo contínuo: sobem até a Igreja de Santo Antônio, ponto mais destacado da cidade, fazem suas selfies, percorrem as ruas adjacentes e retornam à parte baixa, às compras!
            Percorrer as ruas comerciais é uma tentação permanente: nos carros de família, normalmente já abarrotados, sempre se consegue espaço para mais um objeto de decoração, uma bijuteria, uma manta para mostrar aos amigos, dizendo:
            - Comprei em Tiradentes.
            Ainda que, para aqueles que se dão ao trabalho de ler etiquetas, esteja escrito em bom e claro português: “Fabricado na China.”
            O rústico é chique e vice-versa, sobretudo para aqueles oriundos do Rio ou de São Paulo, que buscam, et pour cause, um pouco de autenticidade no interior de Minas Gerais! As estradas que ligam a cidade ao interior foram transformadas em movimentadas vias comerciais, com uma infinidade de lojas de móveis, decoração, arte, artesanato, depois mais uma infinidade de lojas de móveis, decoração, arte e artesanato. Parece mesmo um negócio da China. A localidade de Bichinho, há cerca de dez quilômetros de Tiradentes, virou um disputado shopping center de... móveis, decoração, arte e artesanato!, com três quilômetros de extensão e continua crescendo.
            E o que era para ser nossa entrada, virou nosso prato principal: em São João Del Rei tem a igreja de São Francisco, e não é pouca coisa.  Está localizada em um dos pontos mais bem preservados da cidade, o (lindo) largo que leva o nome do santo. Na parte alta do largo vemos um atro de pedra e uma elegante balaustrada, em seguida a fachada curva e grandiosa, encimada por duas torres gêmeas que lembram muito as “tours de guet” dos castelos medievais. Ao nos aproximarmos da entrada, identificamos o estilo do mestre Aleijadinho no relevo do frontispício, executado com grande maestria, cartão de visitas para o que vem depois. A talha refinada está presente em todos os detalhes: altares, púlpitos, nichos, teto, janelas, estatuária, testemunho vivo da grandeza dos mestres e artesãos do passado. Como a nave é curva, característica do rococó, o conjunto possui um movimento suave e, paradoxalmente, sensual, sobretudo quando observado de fora, percorrendo os jardins laterais.
            Se hoje os turistas a ignoram em favor do Bichinho, tant mieux. Isso nos permite percorrer sem pressa seu interior e seus arredores, incluindo o interessante cemitério localizado ao fundo, e nos misturarmos aos locais em suas celebrações, como se estivéssemos numa cápsula do tempo.

Vista a partir do cemitério, ao fundo da igreja.

           
©
Abrão Brito Lacerda
31 07 15


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