segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A IDADE DO HOMEM


(Imagem: www.ruralencontro.uol.com.br)

            - Que idade você tem, Pedro?
            - Não sei, só olhando no Registro.
            - Onde está seu Registro?
            - Perdi quando estava na fazenda do Seu Olavo.
            - Isso faz tempo, não?
            - Seis meses.
            - Que seis meses que nada: faz seis meses que você se mudou para cá!
            Pedro Dandá deve estar caducando, mas não é o que parece. Foi aberto um inquérito para descobrir sua verdadeira idade, que oscila entre os 80 e os 84 anos. Desde que foi perdido o Registro e o registro do Registro, há toda sorte de especulação. A última data certa a seu respeito é que se aposentou aos 65 anos, como todos os brasileiros natos e naturalizados que carregam essa lerdeza tropical nas costas. E lá se vão vinte anos ou quase que Seu Pedro, melhor seria chamá-lo assim, vive da modesta bolsa do governo. Ele é a prova de que aperto não faz mal a ninguém; morre muito mais gente frustrada por não ficar rica do que gente humilde que aceita sua parca existência e desafia as leis da economia para sobreviver a cada dia.
            Há uma lei, a grande Lei, aliás, a mais importante de todas as que regem a existência, que diz que a condição da vida é levantar-se como o sol, cuidar dos afazeres do dia e repousar-se para recomeçar no dia seguinte. Quando não consegue fazer mais isso, pimba!, o sol mergulhou na grande noite, você não mais verá a linha do horizonte nem sentirá o vento e o orvalho. O breu da morte, o mistério, encarrega-se de encobrir tudo e sua história passa agora a ser contada pelos que estão vivos.
            De nada vale congelar o corpo na tentativa de ressuscitá-lo dentro de duzentos ou mil anos. Que espírito vai querer habitar uma carcaça velha e rota ao invés de um feto novinho em folha com bilhões de células multiplicando-se à velocidade da luz? Só a CTI poderá prolongar por algum tempo seu suspiro falho, para grande alegria dos médicos e enorme tristeza dos herdeiros que têm que pagar a conta.
Ver o Pedrinho Dandá, com sua estatura diminuta e seu corpo de faquir, pisar no estribo e saltar sobre a sela da montaria com a galhardia de um rapaz de vinte anos, é coisa que enche os olhos. Ele dá conta de toda a lida da roça, tange e aparta o gado, tira leite, acordando às cinco da manhã, e dispensa transporte para ir à cidade, localizada a quinze quilômetros da fazenda. Sobre o cavalo, é a mais perfeita definição do Centauro que alimentava a imaginação delirante dos gregos pagãos.
A única coisa que lhe cansa é a rotina:
- Por que não quis ficar mais com o Dr. Valentim, Pedro? Ele te trata tão bem.
- Tava com saudade da beira do Rio Água Fria. O clima daqui não tem igual.
- O Dr. Valentim está fazendo de tudo para você voltar.
- Vou voltar. Mas antes vou passar uns tempos com Seu Tião; a Dona Leopoldina diz que não quer morrer sem me ver. E vou ficando por aqui até quando vocês quiserem.
- Pode fica quanto tempo quiser, Pedro. Como das outras vezes, você sabe.

Fazenda Coqueiros è beira do rio Água Fria, o universo de Pedro Dandá.

Se de aperto não morre o pobre, a mesada oficial quase custou a vida a Seu Pedro. De tanto ouvir falar que deveria descansar da labuta no campo, Pedro Dandá empregou os rendimentos da aposentadoria para assentar casa na cidade. Foi a perdição do homem. Na falta do que fazer, passou a perambular pelos bares da feira e a encher o coco de pinga, o que lhe valeu a primeira consulta médica de sua vida. Tinha o fígado comprometido, segundo o atestado médico, e já estaria na lista negra da senhora da caveira e foice. Foi quando trocou a casa por um par de montarias de primeira, arreios reluzentes e botas de couro de zebu. Voltou a viver nas fazendas, sem exigir salário fixo, apenas na condição de que ali possa pastar tão livre quanto ele sua montaria. E assim passou dos oitenta anos, sem dar ar de esmorecimento.
- Quantos anos você tem, Pedro?
A idade só faz o homem para os que estão acostumados a contabilizar. Quando chegar sua hora, Pedrinho não tremerá como uma vara verde: está destinado a tombar sobre a terra que o acolheu, de cima da montaria que há de lhe servir de pedestal, após emitir da garganta o último aboio.
©
Abrão Brito Lacerda
16 02 15



            

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