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BAIXO PROFUNDO



            Ultimamente ando metido, entre outras coisas, com um grupo de canto que muitos insistem em chamar de coral, só que coral não é, deveria ser coro, pois “coro é uma formação vocal de pequeno porte, também chamada conjunto ou grupo”, diz o pai dos burros, mas a professora disse que coro é o mesmo que coral, que nós somos um grupo e ponto final. A professora, a propósito, deveria ser chamada regente, o que a honraria mais do que ser tratada como uma mestra de jardim de infância, porque essa coisa de soltar a voz é como aprender a comer com garfo, a gente acaba se lambuzando.
            E o grande desafio de cantar é , rererê, novidade, não desafinar, o que significa não descer a escala quando os demais estão subindo ou disparar um “ré” quando todos estão “lá”. Coisas que se aprende com treino, concentração e muito chá de maçã, excelente remédio para as cordas vocais, limpa e calibra, aconselha quem pode.
            O mais engraçado dos grupos corais são as fotos, mostram como a diversidade humana se manifesta na voz, parece até mesmo que as cordas vocais se desenvolvem como querem e adoram pregar peças. Nossas contraltos são do contra, as mais baixas da turma, os dois baixos vivem aos encontrões: um é alto, e sua cabeça se destaca na hora da foto, o outro, baixo profundo, é mais coerente, não chega a um metro e setenta. Nada a declarar do tenor, porque ainda não temos um, começo a desconfiar que nenhum dos meus companheiros quer ser tenor, acham que vão te chamar de Pavarotti, pedir pra sustentar a nota enquanto os outros descansam ou tiram meleca do nariz.  Melhor é ser barítono, mas voz não é coisa que se escolhe.  

O que as crianças fazem enquanto os pais se divertem?

            De qualquer modo, independentemente da voz, todos podem cantar, bem ou mal é uma questão de prática. Por isso a escolha do repertório é tão importante, não adianta pretender o impossível, sonhar com a Glória, se ela está resfriada, sua voz de soprano soa mais como um bumbo frouxo. Nos olhos dos cantantes de primeira viagem faíscam coisas como “Alleluja” de Haendel ou “Ode an die Freude” de Beethoven, entre chuvas de pétalas, do alto de um coreto imaginário, só que nossa maestra tem os pés no palco: “Vocês vão cantar “Cabeça Inchada” de Luiz Gonzaga.” Fazer o quê? O Rei do Baião merece tanto respeito quanto o gênio tedesco, não vale a pena esquentar - atenção, vai começar o aquecimento!
©
Abrão Brito Lacerda
28 06 15



            

Comentários

  1. Ficaram bem demais na foto.
    Vou aparecer qualquer hora dessas. Quem sabe não aumente a desafinação?
    Abraços a todos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Zé. Você sabe que tem lugar para você. Agende: próximo ensaio dia 2 de Agosto, domingo, sempre às 16 horas. Um grande abraço.

      Excluir

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