segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

UM POEMA DE FRANCE GRIPP



            France Gripp é uma professora e poeta natural de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. Seu primeiro livro foi a coletânea Eu Que me Destilo, lançada em 1994, na qual o gosto da autora pelo verso apaixonado e “côncavo”, quase barroco não fosse pós-moderno, se evidencia.  Depois de uma incursão pela literatura infanto-juvenil que lhe rendeu dois livros, eis que Francirene (seu nome de batismo) retorna à sua praia natural, a poesia, com outra coletânea, Coração Incendiário, edição de 2014.
            Fazer o strip-tease da alma, arriscando-se nos meandros mais obscuros da linguagem para afirmar sua individualidade em um mundo polivalente e triturador de ilusões, é a tônica das gerações que sucederam a Ferreira Gullar e a poesia marginal. As palavras são muitas vezes condutoras de alta voltagem, não raro o sujeito é vítima de choques, baques, cortes que ele mesmo se inflige. É assim fazer poesia nesses tempos implacáveis: em cada palavra, um golpe. Em sua versão feminina, essa corrente revela um erotismo apenas contido, uma paixão que se detém nos limites da linguagem aceitável, balões de desejo prontos para explodirem no ar da imaginação – tal qual neste poema de France Gripp:

A FOGO

Posso menos

por isso vou e venho
e peço e busco

e mansa e brusca
vou e venho

eu procuro
o fôlego miúdo

e derreada e turva
as ancas fora do lugar

tal poder menos
reconheço

garimpando
obscuro

as ranhaduras crédulas
minúsculas

o corpo
a fogo livre e rouco

a saia ao derredor da blusa
a fogo

até os intestinos se alastrando
onde poder
menos ainda

o poço
um giro na nascente
e esse afago em ondas curtas

poder menos, poder tudo
os peitos pulam

matar a fome
para que me engula.


            O poema nasce da impressão do sujeito de “poder menos” diante da dimensão da procura que o consome, sem contudo chegar às raias da frustração. Ao contrário, ele sabe que é essa procura que lhe dá sentido. E o que busca o poeta? A poesia, naturalmente, a chama que salta por indução quando determinados vocábulos se encontram. Ressalte-se a busca de equilíbrio entre a paixão poética e as limitações do campo verbal no qual esta se materializa. As fronteiras das palavras são sondadas através de aliterações (“os peitos pulam”), neologismos (“a saia ao derredor da blusa”, “as ranhaduras / crédulas”) e ambiguidade do campo semântico (“as ancas fora do lugar”, “matar a fome / para que me engula”).
            Trata-se de uma autora que veio para atear fogo ao circo,  liberar seus fantasmas ao mesmo tempo em que realiza o exercício de construção de impressões ou imagens através de palavras. Essas imagens levam não a um sentido, mas a tantos sentidos quantos lhes queiram dar os leitores. A emoção do poeta é apenas o ponto de partida, a cada leitura é a emoção do leitor que conta.
            Assim como quem brinca com o poema pode se queimar, quem deseja sondar o indizível não pode hesitar; em caso de abismo, salte!

©
Abrão Brito Lacerda
30 12 16


2 comentários:

  1. Muito bom Abrão Brito Lacerda. Parabéns pelo texto. Você traçou um perfil France é uma ótima poeta e escritora.

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  2. Obrigado, Iara. Frande disse que foi a primeira leitura crítica dos seus textos. Não há porque ficar repetindo essa coisa mainstream de promover quem ganhou esse ou aquele prêmio, quem vendeu tantas cópias. O amor à arte é a recompensa. Passe sempre.

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