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O BOTÃO


(Foto: carrodebolso.com.br)

            As estatísticas mostram que as mulheres dirigem melhor do que os homens. O problema é que, enquanto o homem considera o carro um membro da família, com suas peculiaridades (lonas de freio, óleo do cárter), a mulher só se importa em virar a chave e pegar a rua. Até que, um dia, alguma coisa acontece e então ela é obrigada a descobrir que a tal da rebimboca da parafuseta realmente existe.
            Assim como a junta homocinética, uma peça do carro que fica entre a roda e o eixo, transmitindo o giro do motor (cinética) para as rodas. Quando ela se desgasta, de duas uma: ou é por exaustão ou então é porque a suspensão está comprometida. O jeito é verificar tudo, o que é fácil: o mecânico suspende o carro com o uso do elevador e testa as buchas, pivôs, amortecedores e rolamentos. O que sacudir ou fizer barulho, fired!, está despedido. 
            Marília não sabia nada disso. Ficou surpresa quando o mecânico disse que era preciso revisar a suspensão - achou que ele estava se referindo ao macaco. Seus problemas aumentaram gradativamente, assim como a conta: duas buchas não custaram tanto, os rolamentos sairam pelo preço de dois meses de salão de beleza e os amortecedores tiveram que ser parcelados em cinco vezes no cartão. E ainda assim o carro treme nas subidas, como se estivesse acometido do mal de Parkinson. 
             Desesperada, ela me perguntou o que fazer: um mecânico de confiança é a única solução, respondi. 
            Infelizmente, há casos que precisam de algo mais do que um bom mecânico para serem resolvidos. Vejam o aconteceu com a Amina:
              Depois da ceia de Natal, chegou a hora de ir embora. Mas o carro da Amina não pegou, apesar de toda a insistência. A conclusão óbvia foi de que se  tratava da bateria e que seria preciso fazer pegar no tranco. O carro pegou realmente, mas não andou mais do que cinquenta metros e desmaiou novamente. “Acelera pra injetar gasolina”, gritaram os assistentes, um comitê (masculino) que se organizou prontamente para discutir o problema. Não teve jeito.
            - A bateria arriou de vez.
            - Mas, se o carro pegou, o problema deve ser o alternador.
            - Acho que tem a ver com combustível. Você pôs gasolina no tanque?
            Amina garantiu que sim, que não era pane seca.
            - Então, temos que usar uma “chupeta”, não dá para empurrar o carro ladeira acima, propôs o decano Daniel.
            “Chupeta” não é o que vocês estão pensando. Trata-se de uma conexão elétrica que permite ligar a bateria de dois carros: um que está funcionando perfeitamente e outro que está “arriado”. Depois de virado o motor, o carro socorrido deve continuar funcionando por conta própria, isto é, se a energia de sua bateria for renovada pelo alternador.
            - Alguém tem uma “chupeta”?
            Procurando, sempre se encontra alguém que, providencialmente, carrega um “cabo auxiliar de partida” - nome técnico da popular chupeta. No final das contas, é como ter um desfibrilador para salvar alguém que acaba de sofrer uma parada cardíaca.
            Um dos vizinhos tinha o cabo. Estacionou-se outro carro ao lado do de Amina, deu-se a partida, mas nada do carro de Amina pegar. Retiraram-se as velas, assopraram-nas, testaram as fagulhas – tudo certo. O caso era mesmo complicado
            - Não tá injetando gasolina, sentenciou a sabedoria masculina. Você tem certeza que pôs gasolina no tanque?
            Mas uma vez Amina garantiu que sim.
            - Nesse caso, só pode ser a bomba de combustível.
            - Então, vamos chamar um mecânico.



            Uma onda de desânimo percorreu o comitê de socorro. Empurraram o carrinho para o meio fio, pois o socorro só viria no dia seguinte. Foi quando alguém teve a brilhante ideia de perguntar:
            - Amina, por acaso você tem algum sistema de segurança no carro?
            - Ah, o botão!, exclamou Amina, levando a mão à têmpora.
            - O BOTÃO???
            Amina correu até o carro, fechou a porta, passou a mão por baixo do painel, procurando um segredo que só ela conhecia, deu no arranque e – vrummm! - o carro pegou.
            Houve uma explosão de alegria. Os barbados comemoraram feito meninos, soltaram gargalhadas presunçosas, se abraçaram, quase rolaram ao chão.
            O botão? Ora, o botão!...
©
Abrão Brito Lacerda
15 01 17




           

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