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O ROTO, O ESFARRAPADO E O MALTRAPILHO

(Charge eleitoral da antiga revista O Malho)

            Com o início de mais uma campanha eleitoral, deu-se a habitual revoada de candidatos, abutres, andorinhas e pardais confundidos na mesma nuvem. Nos espaços públicos e privados, podem-se ouvir os pregões daqueles que se apresentam como a solução para os nossos problemas, os homens (e também uma minoria de mulheres) honestos (não há um único ladrão entre eles), competentes (todos venceram na vida com seus próprios esforços, sem apadrinhamentos ou falcatruas), trabalhadores (nenhum aproveitador que se esconde atrás de um mandato para legislar em interesse próprio), tementes a Deus (é possível ver mais de um deles ajoelhados em algum banco de igreja, mirando o cesto de coleta com o mais pio dos olhares), enfim, nenhum ricaço com sede de poder (todos têm ganhos modestos, conforme se comprova em suas limpas declarações de renda), nenhum mentiroso, contrabandista ou assassino.
             Mesmo os tipos mais medonhos são convertidos, graças às feitiçarias  dos marqueteiros (seriam os marqueteiros os verdadeiros psicólogos da era da informática?) em poços de bondade, gente em quem se pode depositar total confiança, tal qual um velho amigo da família. E, já que estamos no assunto e perguntar não ofende, não seria possível ver no perfil desses hipócritas e gananciosos características mais generalizadas, compartilhadas pelos próprios eleitores, que são, afinal, os que votam e lhes dão os cobiçados empregos?
            Como admitir que a gente se deixe levar por qualquer música e vá, a cada dois anos, apertar um botão-voto em nome de um tipo que vai depois desprezá-lo ou defender o contrário do que prometia, por simples influência da propaganda eleitoral? Trata-se de amnésia recorrente, incapacidade crônica ou conivência disfarçada?
            Com as honrosas exceções de sempre, os políticos de todas as matizes apostam na incapacidade do povo de conectar os fatos e entender claramente que a causa e a solução dos seus problemas – pelo menos dos que dependem diretamente da ação política - estão em suas mãos.
            Ninguém discute que o atual sistema é viciado e precisa ser  reformulado para atender à sociedade e não aos detentores do poder.  Que seus beneficiários, os do poder, não vão reformá-lo por iniciativa própria. Que a democratização do país gerou esse efeito colateral que é a necessidade de fazer funcionar uma máquina voraz, para cujo controle lutam hoje mais de trinta partidos, com programas retirados da Wikipédia. 
            O ponto fraco dessa máquina de malversação do dinheiro do contribuinte é que ela depende da chancela do cidadão-eleitor para continuar funcionando. Mas, quais são as razões que movem os eleitores? O que os fazem eleger sistematicamente candidatos de perfis duvidosos, quando não reconhecidamente desonestos? 
      O voto é o espelho de quem vota? Os representantes são o espelho dos representados? Como seria se os eleitores usassem esse poder de forma independente – à altura da indignação que escutamos em toda parte – e o resultado fosse este: “Ninguém foi eleito. Não temos representantes. O que vamos fazer agora?”
            Há males que só se podem cortar pela raiz.
©
Abrão Brito Lacerda
13 09 16





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