quarta-feira, 18 de maio de 2016

VAI FUNDO!

           
(Imagem: lounge.obviousmag.com)
               Tínhamos que nos perfilar no pátio da escola e cantar “eu te amo, meu Brasil, eu te amo; ninguém segura a juventude do Brasil”, depois do hino nacional. O lugarejo não tinha calçamento, mas ser professor ainda era alguma coisa, a gente dizia “sou aluno da Dona Antônia”, com uma ponta de orgulho.
            Para as crianças, aquelas frases exaltadas evocavam alguma coisa a que eles pertenceriam, um lugar chamado Brasil; muito diferente, uma espécie de sonho.
            Jogar bola na hora do recreio era bom demais. Difícil era ter a bola, as de plástico se desgastavam rapidamente sobre o piso de argila batida. E todos eram pobres, quase ninguém podia ter uma. Então, valia bola de meia e algumas unhas do dedão arrancadas. Alguns usavam congas, outros chinelos de dedo, mas na hora de futebol valia a igualmente, todos de pés no chão.
            Dona Antônia usava régua para mostrar os apontamentos no quadro e também para dar bolos, meia dúzia para faltas leves e uma dúzia para as mais graves. Casos excepcionais eram julgados, conforme a necessidade.
            - Puxou o cabelo da colega!
            - Estende a mão!
Pá! Pá! Pá!
            Os colegas contavam “um... dois... três...”
            - Escondeu a régua da fessora!
            Duas dúzias de bolo, mais castigo.
             O desfile de 7 de Setembro era a principal atração do calendário escolar.  só superada pelo circo, que passava de vez em quando. A vida se dividia entre escola, banhos de rio e brincadeiras de “salve-ronda” à noite.
E passava muito rápido também, embalada pela boa música e aquele sentimento místico-hippie que pulsava com pleno vigor nos meados dos anos 70, uma coisa que cresceu em tamanho e conteúdo até virar um movimento chamado poesia marginal:

a palavra na ponta da língua
o sonho de penélope
numa piscada safada
mato a pulga atrás da orelha *

escreveu Ledusha, uma poetisa, salvo engano, de São Paulo.
E esta maravilha de Antônio Risério, poeta da Bahia:

Risos estalam sisos
Rios mudam a plumagem
Quando renasce das cinzas
O kamikaze da linguagem*

Era fome demais, sob o manto da Ditatura era preciso literalmente devorar os espaços de expressão, como no poema de Jenesis Genúncio, poeta do Rio de Janeiro:

em um ato me envolvo
em dois atos me apavoro
em quatro eu toco fogo
em oito ti devoro*
            E esta transgressão erótico-poética de Cristina Ohana, outro poeta marginal carioca:

Basta de cristandade
de santidade
de moralidade
obscuridade

Desejo a obscenidade
a oleosidade
a realidade

Desde essa idade
curto Marquês de Sade
me arde antes que seja tarde*

            Tropicalismo, Clube da Esquina, cinema underground. Nuvem Cigana nos palcos e, nos letreiros luminosos, cintilando o slogan de toda uma geração: Vai Fundo!
Não foi difícil chegar no pique ao final daquela década besta, a censura, a caretice e os militares no poder estavam com os dias contados. O máximo da vanguarda passou a ser escrever jornaizinhos de mimeógrafo, conclamando os milicos a voltarem a seus quartéis o quanto antes. A abertura “lenta e gradual” foi escancarada pela irreverência juvenil, preparando a libertinagem que estava por vir.
(* Todos os poemas foram retirados do livro Poesia Jovem Anos 70, Editora Abril, 1982)

©
Abrão Brito Lacerda
17 05 16


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