sábado, 24 de maio de 2014

PÁSSAROS ENGAIOLADOS


Imagem: ipreferparis.net

            Desci na Estação Châtelet, na Rive Droite, margem direita do Sena, com destino ao mercado de pássaros que tradicionalmente se abre aos domingos no centro de Paris. Eu havia decidido por uma abordagem mais prudente desde que, na véspera, levara uma carreira de umas putas do lado do Boulevard Saint-Martin. Tudo por que eu, turista afoito, bati uma foto um tanto à la legère, sem pensar. Eu Explico:
            Na Rive Droite, bem pertinho do centro, tem uns bairros populares muito interessantes. Por ali se cruza com estudantes, operários, turistas e imigrantes de variada plumagem. À medida que eu subia a Rua Montorgueil, a paisagem mudava subitamente: ora uma profusão de restaurantes (é difícil sentir fome em Paris, há tantos restaurantes que até se perde a vontade de comer), ora um mercado popular, ora umas mulheres exóticas, clic, clic, clic. Inocentemente virei uma esquina e entrei numa rua onde se praticava a venda do corpo, ofício antigo. Havia mais tipos femininos à escolha do que verduras em uma feira: africanas que brilhavam como ébano, loiras eslavas de traços finos e alongados, cossacas, tailandesas, filipinas, possivelmente algumas brasileiras, coisa que não tive tempo de conferir. Pareciam vestidas para uma festa de carnaval ou halloween, de forma voluptuosa e colorida. Algumas posavam, estáticas, sobre motos estacionadas no passeio, outras davam psius! em diferentes línguas, outras se limitavam a esfregar os dedos polegar e indicador no gesto característico para significar “money”, dólar, euro, ou seja lá que moeda for. De repente, percebi que elas vinham em minha direção, ávidas por dinheiro, suponho. Com medo de ser depenado, fiz o que já havia aprendido na cidade: corri para uma estação do metrô. Consegui escapar são e salvo e, o que é mais importante, sem pagar pela foto.

            Por abordagem prudente eu entendia entrar no mercado de pássaros, como fizera Jesus Cristo ao expulsar os vendilhões do templo, abrir as portas das gaiolas e deixar os pintassilgos, canários, chamarizes e afins voarem em liberdade pelos céus daquela cidade velha e cinza. Seria a vingança definitiva da minha infância, da infância que insiste em subsistir dentro de mim, que se ri toda vez que digo que estou ficando velho e que me faz amar tudo que seja inocente como um passarinho.
            Porque os pássaros nasceram para o ar, assim como os peixes para a água. Aprisioná-los é um ato tirânico, ainda que a gaiola seja de ouro. Um pássaro engaiolado é um coração que não bate, um ser que não sente, uma lábio insensível ao beijo. Em menino, eu corria pelos campos apenas para vê-los passearem entre as nuvens, darem piruetas e pousarem nas copas mais altas das árvores. Nunca quis tê-los ao alcance das mãos, minha imaginação viajava com eles. De noite, em abria as gaiolas dos meus irmãos mais velhos, tendo o cuidado de quebrar uma ou duas taliscas para ter a resposta pronta no outro dia de manhã: “Os passarinhos escaparam de novo!”, lamentavam os ganchudos. “Não, foi o gato, vejam!”, eu respondia sem pestanejar.
Pont-Neuf, entre a Île de la Cité e Châtelet.

            Alguém me dirá que os pássaros presos alegram as crianças, os velhos e os preguiçosos – como o meu amigo Cleosvaldo, colecionador de juritis e assum-pretos:
            - Por que você mantém tantos pássaros em casa?
            - Porque amo os pássaros, os grandes como os pequenos.
            - Não, você não ama senão a si mesmo. Se amasse os pássaros, os poria em liberdade.
            O “Cléo” se sentiu ofendido, como se tivesse sido picado por uma cobra:
            - Você diz isso porque nunca teve um!
            - Não preciso ter um pássaro, porque já sou um deles. Por que você não sai de casa e vai admirá-los no parque da cidade?
            - Estou muito gordo e com câimbras. Se andar, posso ter um ataque do coração.
            Há ainda aqueles que argumentarão que o animal cativo vive muito mais do que na natureza, onde é vítima de predadores. Os escravocratas que defendiam o antigo regime e fizeram do Brasil o último país no mundo a abolir a escravidão diziam igualmente que os negros eram muito bem tratados e seriam umas bestas fora das senzalas.
Imagem: chaiseatokyo.canalblog.com

            E você, estimado leitor, dar-me-ia razão em querer aprontar uma revolução avícola em pleno centro da cidade luz? Felizmente, a Pont-Neuf, a ponte que tive que atravessar para chegar do outro lado do Sena era suficientemente longa e eu parei para olhar os barcos apinhados de turistas que passavam por debaixo. As águas do rio corriam mansas. As pequenas ondas cintilavam ao brilho do sol matinal. Saquei da máquina fotográfica e comecei a fazer fotos - livre como um passarinho...
©
Abrão Brito Lacerda


4 comentários:

  1. Sempre fiquei tentando imaginar o que pode sentir alguém diante de uma gaiola. Nunca consegui.
    Tenho uma dificuldade enorme em ter empatia por aqueles que se alegram com o sofrimento.

    Ótimo texto, Abrão. Quanta sensibilidade!

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  2. Gracias, Zé. Acho que devemos ter empatia para os seres como um todo, respeitar o lugar de cada um na cadeia da existência. Tenho horror aos preguiçosos e aproveitadores, geralmente são humanos.

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  3. Meus cumprimentos por seu posicionamento de compaixão cristã pelos animaizinhos bípedes canoros e de bela plumagem. Alguns humanos, prendendo os bichinhos, é que mostram o animal que são. E ainda pretendem o raciocinio perverso pensar que o prisioneiro canta/fala para ele. vê se pode!!! Nem é capaz de ter consciência da própria animalidade.
    Por isso me respondam, se bicho falasse ia parar pra dar ideia para ser humano puuuurquê?

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  4. Anônimo Anônimo disse...
    Meus cumprimentos por seu posicionamento de compaixão cristã pelos animaizinhos bípedes canoros e de bela plumagem. Alguns humanos, prendendo os bichinhos, é que mostram o animal que são. E ainda pretendem o raciocinio perverso pensar que o prisioneiro canta/fala para ele. vê se pode!!! Nem é capaz de ter consciência da própria animalidade.
    Por isso me respondam, se bicho falasse ia parar pra dar ideia para ser humano puuuurquê?

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