segunda-feira, 12 de maio de 2014

BACK IN 1985





            No início de 1985, os estudantes João Batista, de Matutina, e Alberto, de Montes Claros, passaram pelo portão enferrujado que encerrava precariamente as dependências do MOFUCE – Movimento Fundação Casa do Estudante – no Bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Tinham como missão investigar as condições do local, que havia sido designado para invasão em reunião do DCE – Diretória Central dos Estudantes – da UFMG, acontecida na véspera.
            O lugar encontrava-se em péssimo estado. Ele servia de ponto de apoio para moradores de rua e afins, que o utilizavam como privada, depósito de bugigangas e motel. Os banheiros dos primeiro andar, únicos concluídos, estavam depredados e o mato tomava conta das áreas externas. 
            Alguns dias mais tarde, foi efetivada a ocupação do prédio, uma construção inacabada que deveria servir, como o próprio nome indica, de moradia para estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais. Na falta de uma moradia oficial, e seguindo os passos do seu predecessor, a Moradia Estudantil Borges da Costa, o Mofuce vinha suprir a lacuna.
            Embora sua ocupação tenha sido tramada politicamente, nos embates PT – PCdoB que caracterizavam o movimento estudantil da época, o Mofuce representa um interessante efeito de conjuntura: um lugar ocupado por estudantes pobres, do interior, de outros estados e de diferentes bairros da capital, que surge no limbo do sistema, do qual é filho, mas não herdeiro.
            Era uma época de acirrados embates ideológicos, os discursos trotskistas, maoístas, albaneses (discípulos de Henver Hoxha!), cubanos, libelus (liberdade e luta), anarquistas, militantes católicos da JUC (Juventude Universitária Católica), os do “partidão” (PCB), as centelhas (as mulheres mais bonitas do movimento estudantil)  fluíam e floriam ao sabor dos ventos. Havia mais tendências do que membros,  sem contar as dissidências, que surgiam assim que uma nova tendência tentava se impor.

Foto de Sérgio Guariento Gadelha

O muro de Berlim ainda estava de pé, o império socialista, com sua máquina de propaganda, ainda não havia ruído e falava-se de utopia, revolução, diretas já, fora FMI! Tempos bons, tirando a tentativa de suicídio do Rói, a chuva durante o Rock in Rio e a inflação de 5% ao dia.
Fato importante para a subsistência do Mofuce foi o apoio do supermercado CB Merci, situado uma rua acima. Sei que ex-mofuceanos contestarão a minha versão, mas o supermercado forneceu boa parte do mobiliário inicial para os estudantes montarem seus quartos: caixas de maçãs, com as quais se fabricaram mesas, estantes, assentos, guarda-roupas, sapateiros. Algumas atendentes gentis faziam vista grossa para as frutas comidas às escondidas, sem dúvida um gesto de solidariedade a ser registrado na crônica. Como na época não havia código de barras e sim etiquetas de preço, era fácil descolar e colar a etiquetinha, podendo-se levar uma vodka Viborova importado ao preço de uma Orlloff.
Era costume tomar chá de zabumba ou corneta, um lírio selvagem e tóxico, em festinhas da moradia. Dá um efeito semelhante ao do LSD, dizem os sobreviventes. À meia-noite, serviram o chá de zabumba, enquanto tocavam rock and roll no primeiro andar. Há muitas controvérsias sobre essa noite, mas existe um consenso sobre o que ocorreu na manhã seguinte. Foram despertados com a notícia de que havia um estudante preso na delegacia do bairro e que deveriam ser levadas roupas para ele. Ao chegarem à delegacia, devidamente munidos de roupa, encontraram o estudante de Geografia enrolado em uma camiseta de malha, cedida por um policial. Ele tinha ido tomar o café da manhã no supermercado, como de costume, mas se esquecera de um detalhe: vestir-se!



O poeta beat João Batista Martins, o mesmo que ajudou a preparar a ocupação da casa, plasmou em versos a experiência mofuceana:

Pardais
políticos
parasitas
e tiras
na corda
bamba
da lira.

  
©
Abrão Brito Lacerda


Um comentário:

  1. Olá Abrão!
    Sou morador do MOFUCE atualmente. Queria muito entrar em contato contigo.
    Se puder, me envia um email: matheus.arqueologia@gmail.com
    Abraços!

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