segunda-feira, 28 de maio de 2012

PELA CIDADE (Conto)



        - Juntar-me a uma mulher novamente, nunca mais, disse-me o Jack, entre um trago e dois suspiros, um “tapa” e uma piada. Prefiro as mentiras sinceras, continuou ele, as profissionais mentem tão bem...
        - Uma companheira trás satisfação e algumas desavenças, é verdade, mas a vida solitária é muito triste.
        - Sabia que os casados transam menos que os solteiros e têm menos vida social?
        - Peraí, vamos endireitar as coisas – vi-me na obrigação de consertar os argumentos. A vida sexual tende a decair com o tempo: no início, transa-se depois do café da manhã, no intervalo da novela e até de madrugada; depois de alguns anos, só com data marcada e às vezes nem isso. Mas a vida social duplica ou triplica, sobretudo com os filhos, que trazem festinhas de aniversário semanais...
        - Com bolo de chocolate e estouro de balões...
        - Não é tão ruim assim, a gente aprende a tolerar as conversas chatas dos pais, enquanto os filhos se divertem na cama elástica e no escorregador...
        - Obrigado, Pontuou o Jack. Prefiro ser um lobo solitário a um cordeiro social. Ainda bem que minha filha está a milhas daqui.



        Sua filha era uma linda garota loira de olhos azuis e inteligência incomum. Escritora precoce, inventava histórias de bichos e alienígenas, que eram publicadas no mural da escola. Vivia agora junto à mãe, que havia se casado pela segunda vez e mudado para outro estado. A mãe, isto é, a ex-mulher do Jack... bem... Não sei se devo, mas narrarei uma pequena história:
        Jack e Luanda (a “ex” tinha nome africano e ascendência polaca) se conheceram nos tempos da pós-graduação. Estava eu preparando para voltar para casa depois de maçantes três horas de banco de universidade, participando de um tenebroso embate sobre estruturalismo, pós-modernismo e coisas afins, quando ouvi o chamado do fundo do corredor:
        - Que pressa é essa: tá de lua-de-mel ou vai tirar o pai da forca?
        Era o Jack, nunca só e quase sempre mal acompanhado.
       Desta vez estava só, para minha surpresa.
       - A Luanda já tá saindo, vamos esperar para sairmos juntos.
       - Luanda de Angola?
       - Não, Luanda do Paraná.
       Apareceu então uma branquela de olhos azuis, peitos salientes e sorriso largo enviesado. Pensei logo: aí tem coisa.
       Tinha mais de uma. A meio caminho, depois das apresentações e um papo animadíssimo, notei que a pressa dos dois era muita, queriam se conhecer melhor, etc. e parei em um dos motéis da Antônio Carlos.
       - Sinto muito, disse eu, mas não poderei ficar esperando a confissão.  
       - Não tem problema, pegaremos um taxi.
       - Atenção: radio taxi é difícil depois da meia-noite (eram cinco horas da tarde).
       - Nossa grana não dá para tanto, responderam.
       - Então, boa confissão.

       Tinham muitos pecados, pois toda vez, antes de saíamos juntos, eu fazia questão de avisar: transem antes, pois não quero parar no meio do caminho. Minha companheira achava que era piada, mas eu tinha os meus motivos.
       Três meses depois, a Luanda estava grávida e decidiram se casar. Para resumir a história: tiveram uma filha, a garota super-inteligente, brigaram como cão e gato, se arranharam e a Luanda, que tinha no sangue o gênio forte do sul, trouxe a mãe, trouxe a tia, o irmão mais novo e acabou por expulsá-lo de casa.
       Quem não haveria de dar razão agora ao ceticismo do Jack?
       Pela cidade os tipos se sucedem, como o João Carlos, alfaiate de profissão. Talvez tenha sido a figura mais refinada que conheci. Embora já estivesse em seus sessenta, quicava sobre os sapatos marrons engraxados com a desenvoltura de um adolescente. Trajava-se com garbo, fazia jus à profissão. Era igualmente provido de considerável cultura e poderia se passar por um professor ou político se quisesse. Mas queria ser alfaiate, para felicidade de seus inúmeros clientes.
Subi a escadaria até o primeiro andar e lá estava o João Carlos, trabalhando como um lorde, juntamente com uma jovem aprendiz e outro companheiro-mordomo, isto é, parecido com um mordomo, pelo colete quadriculado e a camisa branca.
       - Salut, João, tudo bem?
       - Ah, professor, que prazer! Tenha a bondade de se assentar.
       - Obrigado, estou com pressa.
       - Aceita café?
       - Tem chá?


       (João guardava em uma caixa de madeira, com divisões em tamanho apropriado, sachês de hortelã, chá verde e erva-doce. Era-doce era o meu favorito, que eu tomava sempre com um pouco de açúcar).
       - Algum serviço?
       - Sim.
       Nos cinco ou dez minutos passados ali, falávamos de política, das línguas francesa e inglesa, do discurso da presidente na ONU e dos fatos da cidade, sem contar que nos saudávamos e despedíamos e tirávamos o tempo dos tragos de chá.
       Suas posições eram muitas vezes inesperadas e iconoclastas:
       - Ninguém pode ser feliz amando uma só mulher ou um só homem. A monogamia é uma prisão de sentimentos.
       - Salut, João Carlos, até mais!
       Acho que alguns trazem nobreza de berço, assim como graça e delicadeza. Existe a graça ensaiada das misses e os gestos insinuantes das mulheres da TV. E existe uma graça natural, um dom, muitas vezes insuspeito.
       A moça da padaria, por exemplo, possuía feições e gestos de nobreza. Saudava-nos com um leve “boa noite”, iluminado por um sorriso tímido, enquanto se deslocava com discrição dentro do espaço de trabalho. Impossível saber se estava triste, se a avó adoecera, se o salário era baixo ou se sofria de cólicas. A moça da padaria acolhia-nos todos os dias com a mesma atenção. 


       E as noites também. Até as vinte e uma horas, os últimos pães de sal, baguetes salpicados de gergelim, bolinhos de chuva, rosquinhas de leite com açúcar de confeitaria, cucas de banana, teriam partido.
       Às vezes, a gracinha estava no caixa:
       - Boa noite!
       - Alguma coisa mais?
       - Até amanhã, durma bem.
       Ora, durma bem, só faltava dizer: “sonhe comigo”.
       Se estava na seção de embrulhos, tomava gentilmente os pães e os colocava em sacolas pardas, pesava-as, fechava as mesmas com as respectivas etiquetas de preço e as estendia ao cliente com um movimento seguro. Isto depois de ter feito charme para recomendar “o bolo de chocolate” em promoção e as “coxinhas ainda quentes” na vitrine.
       Seu corpo traduzia a confiança de seus gestos: as pernas firmes e resistentes de quem passava longas jornadas em pé sobressaiam sob a calça justa e eram encimadas por um torso bem constituído, com curvas delicadas de ombros, braços roliços e pescoço bem proporcionado. Sua tez de avelã era um brinde à mestiçagem. Que homem feliz haveria de gozar de seus cuidados?


       Recebi no dia seguinte a tais observações um chamado do Jack:
       - Não posso ir ao sarau. Vou sair com a Carolina.
       - Carolina?
       - É. Carolina, da Estácio.
       Ou seja, da faculdade Estácio. O Jack também era professor. Provavelmente mais uma aluna, das tantas que ele dizia se interessar pelos mestres.
       Mais duas semanas se passaram e outro telefonema do Jack:
       - Não irei ao passeio da Serra do Cipó. Ficarei com a Carolina.
       Carolina andou escondida algumas semanas, depois foi apresentada: em pleno vigor de seus vinte anos, uma mulher bonita, confiante e dadivosa. Mas...
       O amor era secreto, ou quase. Não podia ser conhecido da faculdade, nem dos outros alunos, nem da direção. E, menos ainda, podiam ser do conhecimento dos pais de Carolina. Quanto ao noivo de Carolina, não preciso nem falar.
       Não fosse eu um velho conhecido do Jack teria jurado que ele estava maluco. Mas, pensando bem, Carolina se enquadrava no tipo de mulher para tal. O calejado cinqüentão comeu do prato sem modéstia. Depois Carolina se engravidou e se casou... com o noivo. O Jack foi inclusive convidado para o casamento, mas declinou com prudência. 


       Achei que aquilo ia encher o peito do Jack de otimismo, uma aventura erótica tão liberadora após a curva dos cinqüenta poderia ajudá-lo a se reconciliar com o casamento. Mas não:
       - Prefiro as mentiras sinceras das profissionais.
       Estávamos desta vez no ap. do Iapi do Jack. O Iapi, bastante familiar aos moradores de Belo Horizonte, é um dos conjuntos residenciais mais tradicionais da cidade, com uma clientela de baixa classe média, estudantes e intelectuais.
       Demos um “tapa” e eu me propus a lhe contar o sonho que tinha tido com a moça da padaria, com certa relutância, é verdade, pois creio que para contar uma história deveria bastar a imaginação:
       - Você é do tipo que sonha com mulheres ao invés de conquistá-las?, reagiu ele.
       - Sou tão bom no amor quanto em física. Por isso ensino Inglês. Além do mais, tenho alguém em casa.
       - Mas conta: como se passou?
       - Desconexo, como todos os sonhos. O que me lembro com mais nitidez é que em dado momento eu apertava seus ombros por trás e sentia seu odor moreno. Tinha um perfume rústico, misturado a um bálsamo de suor operário. Suas mãos eram fortes e ásperas e tinham um toque de dar arrepios. Sua boca era adstringente e doce, como uma goiaba silvestre.
       - Você vê. Tal qual a Carolina.
       - O mais interessante é que ao passar dois dias depois para comprar pão, ela me acompanhou com olhar atento, depois se aproximou e disse com o ar mais natural:
       “- Sonhei com você ontem.”


       A coincidência despertou um maior interesse por ela. Pude observar que tinha uma tatuagem na parte anterior do pescoço, quase à altura do ombro, que mostrava discretamente sob a gola do uniforme marrom. E que tinha na mão esquerda uma aliança de noivado.
       - Você não perguntou nada?
       - Não, mas ela acrescentou um comentário:
       “- Sonho bobo, não é mesmo? Eu nem te conheço.”
       Trocamos olhares encabulados no caixa (de onde ela havia saído para conversar comigo). Fui-me intrigado.
       - O quê você teria feito em meu lugar?, indaguei ao Jack.
       - É óbvio que ela tava a fim de você.
       Fiz questão de ralear minhas passagens diárias, isto é noturnas. Quase uma semana depois, voltei, juro, pelas baguetes de gergelim e os bolinhos de chuva. Ela demonstrou ansiedade em me ver, assim como certo nervosismo nas mãos. Estendi-lhe discretamente meu cartão, que ela pôs imediatamente na bolsa.


       Conclusão: nos vimos durante quase um mês, nos horários mais improváveis, pois nenhum de nós podia mudar sua rotina. Coincidiu justamente com seus últimos preparativos de casamento. Nos separamos... em sua lua-de-mel.



(Abrão Brito Lacerda)


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostaria de deixar um comentário?