sábado, 4 de fevereiro de 2012

A POESIA DE RAIMUNDO NONATO E JOVINO MACHADO



        
           Mais dois volumes de poesia de minha biblioteca de poesia, dois poetas de estilos completamente distintos, mas igualmente reveladores da poesia que nasce das ruas das grandes cidades.
         O primeiro é Raimundo Nonato e seu livro Sabor Plástico, pequena brochura de 10,5 X 16 cm, publicada em Belo Horizonte em 1983.


         
         Livrinho que é a própria imagem da simplicidade, esse volume prova que tamanho não é documento. A qualidade intrínseca da poesia que ele encerra é enorme. 
         O poema de abertura, no qual o poeta faz sua profissão de fé, traz lampejos de Oswald de Andrade e seu Pau Brasil, além de flertar confessadamente com outras tendências:



sou um poeta beat (close)
made in brazil (pose)
província de minas
vitaminas proteínas e sais minerais

pela cor do tênis
vê que ainda estou caçando a esmeralda

no fundo no fundo
sou um brazilianist deslumbrado
com a alquimia dos sanduíches
rajneesh
e sonrisal


         Ao declarar-se beat, o poeta coloca-se do lado do desbunde que ainda florescia naqueles idos pós-ditadura, tempos libertários na política, no comportamento e na linguagem. Na verdade, o Rai estava mais para matuto caçador de esmeraldas do que para beat porra louca, mas não importa, o que de fato conta é sua persona poética, perfeitamente condizente com a época. 
         Uma das jóias escondidas em seu livrinho é este poema, pleno de irreverência e vigor juvenil:

para que servem os heróis
senão para o povo carregá-los
em varas e lençóis?

para que servem os girassóis
senão para brotarem
nas covas rasas dos heróis?

         Seus versos limpos e precisos estão registrados em minha memória como um emblema desde a primeira vez que os li e despertam o mesmo prazer inicial sempre que são lembrados. E este é o mistério poético, capaz de recriar-se sem cessar.    
  

         Dando agora um salto no tempo, chegamos a 2005, através do livro Fratura Exposta de Jovino Machado. Jovino é partidário de uma poesia-choque, sem frescuras, em tom elevado, nada intimista.


o poeta late mais que morde
arde faz alarde fere maltrata
o tiro nunca sai pela culatra
o veneno dribla o único acorde

         É preciso tomar chá de Baudelaire e Augusto dos Anjos todo dia para escrever assim – no limite, entre o salto no abismo e a chatice em que a grande cidade se transformou. Mais uma dose:

a poeta é o eco rachado de uma antiga verdade
uma relíquia que me inspira sensações penosas
uma pedra que rola precedendo o desmoronamento
uma nuvem de besouros enfurecidos por girassóis

         Vocábulos amontoados como pedras – para lançar em quem? A escola dos dois poetas supra-citados ensina que o artista da palavra é ao mesmo tempo vítima e verdugo. Ah, isto faz lembrar aquele que “finge tão completamente que chega fingir que é dor a dor que deveras sente”, do célebre poema de Fernando Pessoa. Então, não peças os sais, ainda há muita poesia:

a poeta falsificou a verdadeira assinatura falsa
desenhando manchas de ódio na toalha axadrezada
seu corpo são mesas crus de cézannes e picassos
são facas enferrujadas, partituras ensanguentadas


         ©
Abrão Brito Lacerda

Um comentário:

  1. Abrão, muito bons os versos alheios.
    Melhor ainda a sua intenção de não os deixarem tão anônimos.
    Que a caminhada prossiga assim, revelando ao mundo pedaços escondidos de nossa língua rica.
    Grande abraço!

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