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1980: A POESIA HERÓICA DOS 20 ANOS



         Schiller dizia que o poeta é “o vingador da natureza”, no sentido de que resgata no homem sua natureza e unidade originais. Isto no final do século XVIII, quando a máquina a vapor era uma promessa tecnológica semelhante ao foguete espacial brasileiro.      
E o poema é o recriador desta unidade, perfeição ou ideal – o que é idéia minha e não de Schiller. Todo poema que se preze deve ser recriador e definitivo.
         O Bandeira, que, aliás, se considerava um “poeta menor”, escreveu que era muito mais um apreciador de poemas do que de poetas, porque “há poemas perfeitos, mas não há poetas perfeitos”.


 
Campus da Universidade Federal de Viçosa 


         Então, viva meus amigos desconhecidos! Gente que anda hoje de perfil baixo sob as nuvens da realidade, mas que deixaram em minhas mãos em algum momento amostras de sua inspiração, que me proponho a trazer à luz, como já fiz em outros posts deste blog.

         O ano é 1980, o lugar é Viçosa. Apresento-lhes o soneto de Margarida Maria Alcoque Amaral, então estudante de letras:

AO JARDINEIRO

Nascendo do meu pranto, o verso derradeiro,
Vem abraçar teu riso e agradecer-te as flores,
E devolver perfume ao doce jardineiro,
Que, um dia, em meu caminho, andou plantando amores.

Plantaste riso e canto e sonhos e ternura.
Tão doce, a tua mão, reconduziu-me à vida.
Depois, o teu silêncio e, nele, uma amargura:
Quiseste o “bugari”, mataste a “margarida”.

Mas, nunca, as tuas mãos, sementes de pecado
Jogaram neste chão, talvez que, de cansado,  
Deixou morrer o “lírio”, a felicidade.

Por isto, os versos meus entrego-te, contentes,
As flores que se abriram, hoje, de repente,
Sem que ninguém plantasse. Aceita. São “saudades”.



         Este saiu na coletânea “Por Trás de Cada Poema...”, edição da UFV, com o método sucessor do mimeógrafo. Lê-lo é um prazer súbito, sedutor, redobrado. Tem perfume, cor e música – é pura poesia.
         (Na citada coletânea, aliás, foram publicados também poemas do autor deste blog, mas a prudência me fez guardá-los de olhos curiosos, na esperança que durmam para sempre, aprisionados naquelas páginas.)
         Gritar “abaixo a ditadura!” fazia sentido naquela época. A mística da revolta e da luta pela liberdade, construída ao longo dos anos 60 e 70 ainda estava no ar. Vejam “O Último Poema” de Vicente Faria, estudante de Agronomia, em coletânea do autor:

Ei! Poeta pra que esses versos?
São tênue matéria
São restos de risos
São choro contido
São força vencida
São tempo passado

Não venda sonhos, poeta!
São supérfluos
São caros demais.

Vê o mundo! O tempo é outro
É tempo de luta
de querer com medida
de emoção contida.

Vê o mundo, poeta! É tempo de luta.
Vamos, rasgue a rima e solte o verso
Quebre a pena empunhe a arma.



Vai. Vicente, poeta armado.
Caminha pelo deserto da tua pregação
e na areia do tempo inconstante
                         escreve o teu último poema.

         Um tanto fora de tom para os dias de hoje, quando sonhos são comercial de margarina, o poema de Vicente repercute a influência de Ferreira Gullar (quem não leu o Poema Sujo, vá fazê-lo e volte para continuar este texto) e tem algo de “Pra não dizer que não falei das flores” de Vandré.

         Mas tem sobretudo sua essência de “antena da raça”, na expressão de Ezra Pound, pois traduz com perfeição aqueles tempos heróicos.
           ---------
           Obrigado a todos que me têm lido. Bom carnaval. 
Ω
Abrão Brito Lacerda

Comentários

  1. Amigos, retifiquei minhas configurações para os Comentários. Espero que não haja problemas agora para deixarem suas observações. Obrigado.

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