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ADIÓS A LOS VEINTE AÑOS - Um manifesto pós-utópico



(Imagem: Sismmac.com.br)

            Os acontecimentos dramáticos dos últimos dias demonstram de forma inequívoca que as rodas da história puseram-se mais uma vez em movimento.  No entanto, a prisão do ex-presidente Lula não foi um raio caído de um céu claro de verão, mas sim um capítulo de uma novela ou, melhor, um episódio de um reality show recheado de intrigas, diz que diz e mentiras. O gosto nacional pela baixaria, aperfeiçoado ao longo dos anos com a dieta compulsória de violência e corrupção, atingiu o ápice. Muito lodo ainda há de passar por debaixo dessa ponte e de nada adiantará dobrar os sinos pelas ilusões perdidas da juventude, melhor será ficar atento e forte, como dizem os versos da velha canção. Mais importante ainda será não aderir às manifestações de ódio e preservar a mente como um território de liberdade e criação. Para quem pensa fora da caixa e pode se dar ao luxo de percorrer as pegadas do tempo em busca do sentido das coisas, trata-se também de uma ótima oportunidade para fazer um balanço de suas convicções.  
            Aos vinte anos, faz sentido ser jacobino e um tanto irresponsável, pois é isso que dá tempero à juventude. Daí à adesão às causas “revolucionárias” é um passo. Mesmo quando essas causas são embaladas por ideologias que carregam o germe da intolerância, os quais levam infalivelmente à implosão do movimento. Assim como no campo econômico, onde o empreendimento e o risco fazem parte do jogo, as ventures sócio-políticas são empresas que estão submetidas às regras do mercado das ideias. Para desespero das ideologias oriundas do pensamento totalitário da ditadura do proletariado. Se no conceito da democracia burguesa a existência do contraditório e o revezamento de poder são princípios fundamentais para o equilíbrio do sistema, na concepção daqueles que se veem como os legítimos representantes do povo isso é intolerável. Não constitui novidade que os ditadores, sem exceção, consideram-se os pais e protetores da nação, basta perguntar a Kim Jong Un e Bashar al-Assad. O populismo, por seu turno, seja ele de direita ou de esquerda, constrói-se sobre um mote semelhante, adaptando-o ao estilo sinuoso e oportunista que lhe é característico, como bem demonstra Donald Trump.
            A nossa história recente fornece igualmente ótimos exemplos. O discurso populista de Fernando Collor levou-o a uma fulminante ascensão e derrocada, assim como o de Lula, que conheceu glória mais longa e elevada e queda ainda mais impressionante. A prisão deste último deixa inegavelmente um travo amargo na garganta de quem o apoiou na esperança de que fossem implantadas políticas que pudessem transformar nossa sociedade secularmente desigual. Ao contrário, o que se viu foi a repetição do erro que levou à falência outros países, como a União Soviética e a Venezuela, a saber, a apropriação das estruturas do estado (em nome do povo) para que servissem à causa do grupo do poder, cujo objetivo não era outro senão perpetuar-se nele – vampirizando as instituições. Ironicamente, foram as velhas instituições viciadas, que a esquerda, ao invés de reformar, potencializou, as que a julgaram e condenaram. E não deixa de causar um riso sardônico o fato de que aquele que defendia os pobres tenha-tese perdido ao fazer o jogo dos ricos, deixando-se levar pelo canto das sereias da cobiça e da ambição.
            Cegueira e messianismo, verdade e mentira, discurso e prática são algumas contradições que o caso de Lula traz à tona. Além da propensão comum aos contraventores de todos os matizes: a de crer que não serão desmascarados e punidos. Não é esse o cancro da nação? Nessas circunstâncias, ao ser flagrado, restam duas alternativas: assumir e mudar ou resistir e enganar. Pelo volume de evidências que as investigações levantaram até agora, fica patente que o assim chamado Lulo-petismo foi longe demais para poder escolher a segunda opção. Ou, o que é mais provável, considera o erro apanágio de seus opositores enquanto reserva para si o dom divino da infalibilidade.       
            Se há um tempo para cada coisa debaixo dos céus, tempo para plantar e tempo para colher, tempo para ajuntar pedras e tempo para atirá-las, tempo para a guerra e tempo para a paz, a juventude é o tempo para experimentar o radicalismo inerente à idade e aventurar-se pelas sendas da utopia, enquanto que a maturidade representa a verdade incontrastável do caminho do meio, aquele que se baseia na lei universal de causa e efeito e coloca no centro da problemática o indivíduo e suas decisões. Liberdade e revolução, antes consideradas de fora para dentro, afinal tratavam-se de mudanças a serem efetuadas no outro, são agora lutas internas, a serem travadas na mente, pois no caminho do meio o ser não se separa do seu ambiente, assim como sujeito e objeto constituem uma mesma entidade. O mal, não haverá de buscá-lo em um inimigo a conjurar e sim em seus próprios pensamentos, que reproduzem as tendências positivas e negativas da sociedade. Se almeja a mudança, deve começar consigo mesmo, do contrário praticará a hipocrisia.
            O caminho do meio é a luz que ilumina a escuridão das ilusões. Ele leva a compreender a transitoriedade de todos os fenômenos, submetidos aos ciclos infinitos de nascimento e morte e desta sorte ensina o valor do presente, que é onde reside o potencial transformador da vida, o potencial da evolução, que é de fato profunda e ampla, ao contrário da superficialidade da revolução.  Sincronizar sua vida com a vida do universo é mais grandiosa das empreitadas que o homem pode enfrentar em sua passagem pela terra – e um desafio em escala cósmica. Enquanto o sol nascer no leste e se por no oeste, essa será sua missão.

©
Abrão Brito Lacerda
08 04 18

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