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GINA LOLLOBRIGIDA E O ORGASMO ONÍRICO



(Imagem: Brett Hammond)

         Os gatos, tão discretos e reservados, tornam-se indecentes na hora do sexo. Culpa do cio, que os iguala aos humanos apenas algumas vezes ao ano. Nos outros dias, é seca pura; então os felinos abusam quando podem. Uma mosca voando, o repicar de um sino a dois quilômetros de distância, a brisa do verão, aquele leve sussurro no ouvido, só a Gina para compreender a razão dessas coisas.
            Meia luz ou escuridão, passos na água ou no carpete, pé, pés, pele tocando pele, saliências, curvas, transparências - a respiração. Leve, levemente solta sobre o colchão, cabeça para trás e cabelos tocando o piso. Um breve murmúrio de satisfação e pudor, como se acabasse de vir ao mundo. Um orgasmo inaudível, melhor senti-lo, penetrando na Gina até desaparecer dentro do seu suspiro.
            E, lá dentro, reina a mais perfeita tranquilidade. Nada de células se debatendo, espermetazóides em frenética corrida, neurônios em frêmito, tudo é paz e preguiça. Seu córtex enrugado demora a despertar e só o faz quando acariciado nas costas em doces toques digitais ou beijado um pouco mais abaixo. Impossível ouvir sua inspiração, então melhor cheirá-la, inalando fundo o mel destilado por suas glândulas. Pode preparar o café hoje? Claro, querida, como ontem e anteontem. Impossível saber se vai tomá-lo deitada com a cabeça apoiada no travesseiro ou na banheira enquanto a água derrama por suas costas com a concha das mãos. A espuma está rala. Ok, querida, mais um pouco de Nativa Spa. Não vou sair da banheira. Sim, querida, pode deixar que eu te carrego.
            Movimentos bruscos na noite assombrada? Ruídos de capitéis deslizando sobre pedestais? Ondas se quebrando, estertores de sondas, ritmo sincopado, jatos de gêisers, carro na lama, respiração sôfrega, explosão? A Gina está alheia a tudo isso, jamais perde a tenure. Quando decide se levantar, vai até a janela cerrar um pouquinho mais o voile da cortina, ajeita a fitinha de amarração, descobre que a gata está de olho no gato que lhe faz meneios da água furtada, entre o espigão e o beiral. A allure vaporosa da Gina reflete-se nos olhos da gata, ela dá o comando, a felina vai ajeitar-se sobre o edredon e boceja, mostrando línguas e dentes, com a cara mais cansada desse mundo, como se o prazer a tivesse levado ao desfalecimento. Gina a acompanha, e a tarde lenta adormece sob o sol estival.

©
Abrão Brito Lacerda
23 02 18

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