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VÔ & NETINHO

(Imagem: drang.com.br)

            Não se trata de uma nova dupla caipira, mas sim dos próprios, os inomináveis, harmonicamente divergentes e radicalmente concordes, deslocados deste mundo como peixes na areia do deserto.
No café da manhã, e mesmo antes:
            - Filho, café!
            - Já vou!
            - Por que ligou esse tablet? Vem logo!
            Cinco minutos depois:
            - Filho, já falei dez vezes! Vem tomar café!
            - Dois minutinhos...
            - Agora!
            E o vô:
            - Seu Leimar, o café está pronto!
            - Hã?!...
            - Café da manhã!
            - Tô no banheiro lavando as mãos.
            - Isso aí é o vaso!
            - Hã?!...
            Cinco minutos depois:
            - Seu Leimar, vem tomar café!
            - Tô esperando.
            - Na garagem?
            - Hã?!...
            Por um feliz acaso, avô, neto e pais se encontram à mesa:
            - “Põi” (= pai), sabia que zerei o Don’t Starve?
            - Zerou?
            - Zerei. Tinha mais de cinco mil pontos e depois detonei o Darkwing, o maior apelão de Iceland! - “Iceland” é “terra do gelo”, não é “põi”?
            - Isso mesmo!
            O avô admira as broinhas com reverência.
            - Estão deliciosas! Experimente uma!
            O avô é obediente, mas tem uma pergunta recorrente:
            - Toninho ainda não levantou?
            - Toninho está em Belo Horizonte, pai. Aqui é Timóteo.
            - Hã?!...       
            Avôs e netos são igualmente espaçosos, uns por que são velhos, outros porque são jovens demais. Depois que o filho nasce e cresce, novas regras são impostas à casa e o pai é convocado a dar exemplo de sacrifício:
            - O menino está com medo de fantasmas e vai dormir na sua cama!
            - Mas ele tá grande o suficiente pra dormir sozinho!
            - Claro! Você vai dormir na cama dele!
            As crianças, como se sabe, são difíceis na hora de comer, para desespero das mães, que imaginam o tempo todo que sua prole está passando fome – antes de começar a criticá-la por estar ficando gorda com a comida que ela lhe empurra sem parar.
            - Não quero bife de fígado e salada, mãe, quero miojo.
            Ataque de nervos:
            - Vai comer tudinho ou ficará um mês sem televisão!!!
            - Pode tablet?
            - Sem tablet, sem video game, sem nada!
            - Quero miojo com atum!
            - Ahhhh!!!...
            O pai compreende a necessidade de mais um sacrifício:
            - Deixa, eu como o bife dele...
            Assim, quando o avô chega, não há surpresa. Logo vem a mulher com o recado:
            - O pai vai dormir na sua cama. Ele precisa de um colchão macio e firme.
            - Todos os nossos colchões são assim.
            - Não me venha com seu egoísmo! O pai só vai ficar uma semana!
            Os velhinhos passam muito tempo diante da televisão, dizem as estatísticas. Comem e dormem, literalmente. Os cuidadores acham que os velhinhos não dão conta de mais nada e os deixam engordando no sofá. Deveriam permiti-los arriscar-se mais, ainda que quebrassem algumas costelas.
Às três da tarde, seu Leimar está roncando de boca aberta diante da tv, sintonizada em um filme qualquer.  É despertado por uma voz que atua como seu relógio biológico:
- Chazinho, pai?
Seu Leimar aceita, sempre de bom grado. No meio do chá, para, com uma pergunta recorrente:
- Mas Toninho está demorando, hein?
- Toninho está em Belo Horizonte, pai. Aqui é Timóteo!
- Hã?!...
Os dedos do menino se movem com rapidez impressionante sobre o console do game e suas perguntas brotam de modo igualmente surpreendente:
- “Põi”, a extinção dos dinossauros foi na Era Mesozóica?
- Não sei, vou ter que “gugar”...
- Meu livro de ciências diz que foi na Era Mesozóica.
- Então foi na “Era Mesozóica”.
- O Espinossauro foi o mais poderoso dos dinossauros, sabia?
- Não foi o Tiranossauro rex?
- Que nada! O Espinossauro era muito maior, tinha dentes muito afiados e podia nadar como um pato.
E virando-se para o avô:
- Vô, sabia que as primeiras flores surgiram no período Cretáceo?
- Toninho tá no quarto? Bem que eu vi que ele tava demorando...
- Toninho está em Belo Horizonte, seu Leimar. O senhor vai vê-lo na semana que vem.
- Hã?!...
Vô & Netinho adoram os comandos que eles passam o dia inteiro a subverter. É uma necessidade endêmica, parecem estar programados para reagir a um agente externo – a voz da mãe ou da filha, por exemplo:
- Filho, já pra cama!
- Dois minutinhos...
- Agora!
O avô admira o copo de cerveja vazio – Ah, não, ele já ferrou no sono de novo...
- Hora de dormir, pai! A cama está pronta!
Cinco minutos depois:
- O que está procurando, seu Leimar?
- Quem tirou minha cama daqui?
- Isso aí é o banheiro, seu Leimar, o quarto fica ao lado!
- Hã?!...

©
Abrão Brito Lacerda
23 10 15



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