segunda-feira, 11 de maio de 2015

SESSENTA ANOS?




            Envelhecer é horrível, pensa a maioria. Vêm à cabeça as dores, a regressão física, a perda de memória. Sem falar do sobrepeso, que é quando as gorduras grudam por baixo de nossa pele e se apossam de nosso corpo como parasitas. Além da proximidade cada vez mais provável da morte, a única desprovida de preconceitos. E pra piorar, a insistência do ser humano em não aprender com as experiências.
            Meu amigo põe toda a fé no Viagra:
            - A ciência tá do nosso lado. O verdadeiro problema é a pensão do INSS.
            É verdade. Com o preço do Viagra a quase trinta por cento do salário mínimo, é melhor esquecer.
            Foi com esse espírito que decidimos ir à exposição Kandinsky, no lindo prédio de fachada neoclássica onde fica hoje a Fundação Banco do Brasil em Belo Horizonte. A visitação se faz por turnos, então, fila para o credenciamento. Ganhamos nossos lugares e aproveitamos para por em dia as últimas sobre o envelhecimento:
            - Os gaúchos lançaram uma novidade: o Vinagra, um vinho que é um milagre para curar a disfunção erética.
            - Disfunção herética? Vinho para curar heresia só pode ser vinho do padre.
            - Eu quis dizer “disfunção erétil”. Não seja herege.
            Só para matar o tempo.
            E não é que apareceu a fada madrinha da noite, assim, do nada?
            Inicialmente, ela se dirigiu ao casal atrás de nós:
            - Idosos têm a preferência; vocês podem esperar sentados.
            O casal aceitou com certo constrangimento, pois os dois não se pareciam em nada com o que classificamos geralmente como idosos.
            A mocinha olhou em redor. Procurou alguém mais para agraciar com sua simpática assistência. Não havia outros “idosos” à mão. Aí ela se dirigiu a meu amigo e eu:
            - Vocês têm a preferência; podem se sentar também.
            Recusamos o convite. As dores que sentimos ainda são discretas, passam perfeitamente com massagem de arnica e, se a gente se afrouxa aos primeiros sinais, a débâcle recai sem tardar.
            Só nos demos conta da seriedade da proposta quando a mesma atendente comunicou aos quatro “eleitos”:
            - Venham comigo. Os idosos têm preferência no credenciamento.

Imagem: wassilykandinsky.net

            Devo dizer que sempre fui terminantemente contra a esperteza de cortar filas. Mas assim legalmente, como uma recompensa aos muitos anos que carregamos nas pernas, não haverá de ser pecado. Aproveito inclusive a oportunidade para lançar uma lista de reinvidicações visando àqueles que fazem vista grossa aos direitos de todas as pessoas que estão mais próximas dos sessenta do que dos cinquenta anos:
            - Ticket idosos para pedidos à la carte. Merecemos desconto de 50% nos restaurantes;
            - Chegou nossa vez de esperarmos sentados e gozarmos de atendimento preferencial;
            -  Queremos secretárias mais atenciosas; dessas de cujos lábios dá prazer ouvir: “Os idosos têm preferência”.
Nesses tempos de economia difícil e com tudo na ponta do gráfico, sugiro ademais que uma “idosa” de sessenta anos, por exemplo, com vantagens e quinquênios acumulados, ceda o lugar a três jovens de vinte anos, com salário de estagiárias. Para quê? É pela moral dos futuros velhinhos. As estagiárias poderiam nos fazer massagens nos pés, por exemplo, enquanto os demais petulantes aguardam na fila.
©
Abrão Brito Lacerda
10 05 15
           


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