segunda-feira, 18 de maio de 2015

RUTE

(Imagem: www.clipart.me)

O caixa que era para ser o mais procurado da padaria, andava às moscas. A fila era minguada e havia boas razões para isso: nada da esperada cortesia, obrigado, boa noite, a nova atendente tinha a cara amarrada. Traduzidas em gestos rudes, as intenções da moça eram um mistério. Havia quem fingia namorar as tortas da vitrine e escorregava para o outro caixa; outros enfrentavam os tratos da miss grosseria:
- Quer cinquenta centavos para facilitar o troco?
- Quando precisar, eu peço.
E jogava as moedas sobre o balcão.
Uma jovem assim tão poluta é como a Baía de Guanabara: é bom admirá-la de uma distância segura. Mas há de ter futuro, como todos na terra de santa cruz.
A pergunta de um cliente corajoso:
- Qual é o seu nome, meu bem?
Ela o comeu com os olhos, jamais tinha ouvido palavras assim por certo, mas dignou-se a responder só para mostrar com quantos paus se faz uma canoa:
- Meu nome é Rute. Por que quer saber?
- É o nome de uma pessoa inteligente e de muitas virtudes.
Boca de desprezo. A blusa apertada da garota, com os botões quase se rompendo à altura do peito deixava à mostra braços firmes terminados em mãos acostumadas a tocar coisas ásperas.
Assim foi por muito tempo, parecia a história de que pau que nasce torto só cai pro lado errado.
Mas não é que a Rute mudou de modos, de repente? O que foi, o que houve? Foi advertida pelo gerente, passou a enxaqueca?  E mudou muito, começou a dizer obrigada pela preferência, volte sempre. Um sorriso tímido delineou-se em seus lábios, inicialmente forçado, depois mais natural. Em seguida, apareceu de unhas pintadas, um rubro forte, sanguíneo, sobrancelhas bem delineadas. Humm!... As mãos tinham perdido a aparência de lixa, o cabelo tinha se libertado da touca marrom que o aprisionava e Rute tinha ficado mais atraente a olhos vistos.
E tagarela também:
- Sou de Pinha do Norte, o senhor já ouviu falar?
- Não. É longe daqui?
- Beeem longe. Trabalhava numa fazenda colhendo café - êta vida dura!

De vez em quando estava trocando risos maliciosos com a moça do outro caixa, que tinha virado cúmplice de segredos intermináveis.
Segredos sobre o quê, qual a razão de tal milagre? Rute andava um doce em festa de criança, a casca da noz tinha sido rompida de vez. Um súbito fervor passou a saltar em faíscas por seus olhinhos castanhos, e ninguém para lhe dizer: Rute, não faça isso! Homem é tudo falso; hoje te quer e amanhã te troca por outra!
©
Abrão Brito Lacerda
15 05 15






2 comentários:

  1. Estava tão bom, que ficou com gosto de quero mais... Acabou antes que eu queria...
    Muito bom, Abrão. Como sempre!

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    1. Esta é de uma série que pretendo produzir ao longo do ano retratando personagens, para no final ter um livro. Ainda que (quase) sem leitores e com as dificuldades naturais da publicação, procurarei evoluir e inovar em minha escrita.

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