segunda-feira, 16 de junho de 2014

BRASIL FUTEBOL CLUBE





(imagem: focusfoto.com.br)

            Naquela época, a televisão ainda engatinhava e o rádio era o grande meio de comunicação de massa. Jornais não havia no lugar e, se houvesse, faltariam leitores. Cinema, só mesmo o que os meninos inventavam, uma película de plástico, recortada e colada em tirinhas, sobre a qual se desenhavam, a caneta esferográfica, aventuras dos heróis das fitas de cowboy. Entrada: 10 palitinhos de fósforo. Ainda assim havia filas.
Quando a Copa do Mundo começou, as transmissões soavam distantes, pareciam vozes de outras galáxias ecoando através do espaço sideral. Nas ruas de terra batida, brincávamos, tentando imitar os lances contados e recontados pelos cronistas. Suprema democracia da infância: lado a lado jogavam Müller, Pelé e Bob Moore! As bolas de plástico já existiam, não precisávamos mais de bolas de meia. O único problema é que o plástico rompia-se facilmente em atrito com o chão áspero, quando a bola batia no arame farpado que cercava o campinho – para protegê-lo dos animais que gostavam de passar ali a noite e não objetavam em fazer suas necessidades in loco – ou mesmo quando a redonda levava uma bicuda de alguém com unhas de faquir.
Mas camisas não havia, muito menos chuteiras, para alegria do Seu Gerônimo farmacêutico, que se encarregada de acabar de arrancar as unhas que saltavam quando alguém chutava o chão e aplicar mertiolate com pó de penicilina nas feridas expostas que volta e meia apareciam nos joelhos, cotovelos e outras partes desnudas do corpo. Éramos crianças e éramos heróis, nada podia nos deter. No domingo, a “Rua de Baixo” jogaria contra a “Rua de Cima”, ou seja, os meninos da parte baixa da vila contra os terríveis inimigos da parte alta. Os da Rua de Cima tinham as tais unhas de faquir, poderiam rasgar nossas pernas como uma navalha. Decidimos que deveríamos usar bandas de tecido enroladas nas pernas para protegê-las. Dois ou três meninos roubariam os meiões dos pais.
Na véspera, sábado de feira, fomos conferir a repercussão do grande clássico da molecada. O Jorge estava alarmado:
- A Rua de Cima vai jogar de camisas! Ganharam também uma couraça e tornozeleiras!
As tornozeleiras eram feitas de algodão trançado com fios de elástico. Eram fortes e resistentes e permitiam aos pequenos chutarem a bola de couro sem machucar os pés.
- O time deles já tem nome: vai ser Santos Futebol Clube!
Corremos até a venda do Seu Dias, na esperança de que ele pudesse nos salvar de tamanha humilhação. Se aparecêssemos de barrigas peladas, perderíamos o jogo antes de este começar.
(imagem: desenhos-dos-utentes.colorir.com)

- Vocês querem jogar de camisas? Mas só se fôssemos ao Itanhém! Não tem camisas de futebol por aqui.
- Tem sim, tem na feira. O João da Serraria comprou camisas do Santos para eles.
- E onde vocês vão arrumar dinheiro?
Isso era mais difícil do que fazer gol ladeira acima. Nossos pais não apoiariam nossa demanda, pois chegávamos tarde em casa e faltávamos com o dever de casa por causa do futebol. O Mimi, dono do cinema de película de plástico, recusou patrocínio.
- Vou ver o que posso fazer – disse Seu Dias ao perceber a aflição que se apossava de nós.
Voltamos à feira. As roupas, de uma malha chinfrim e cores berrantes, eram colocadas ao rés-do-chão, sobre uma lona. Cada camisa amarela que se ia era para nós um sofrimento. Corremos à loja do seu Dias, à espera de um milagre; porque, afinal, milagres acontecem – não foi para isso que Jesus Cristo veio ao mundo?
- Vocês tiveram sorte – disse Seu Dias. - O Zeca Berilo chegou da lavra hoje com um saco de pedras azuis. Contei pra ele a história do João da Serraria e ele ficou revoltado. Aqui está a pedra que ele doou para vocês comprarem o uniforme.
Nova carreira até a feira:
- Queremos onze camisas amarelas, do goleiro e mais dez.
- E quem vai pagar?
Seu Dias chamou o mascate de lado, apresentou a suposta pepita de turmalina, ainda envolta em escória e restos de terra vermelha.
O homem abriu um sorriso de uma orelha a outra e pudemos ver os cifrões desenharem-se em seus olhos:
- São quatorze camisas – declarou seu Dias –, três para os reservas. - Mais quatorze pares de meiões e de tornozeleiras – tem tornozeleiras?
- Vou buscar ali na loja do meu primo – apressou-se o comerciante.
Um último imprevisto: as camisas remanescentes não eram do mesmo tamanho e tampouco havia as numerações correspondentes de 1 a 11. Tivemos que levar três camisas 8, duas 11 e algumas 3 e 4. O pior é que não havia mais camisa 10, a mais procurada. A solução seria converter a 1 do goleiro em 10, acrescentando-se um zero através da mão destra de alguma costureira.
Voltamos à venda uma última vez para agradecer nosso mecenas. Estamos exultantes de felicidade e fazíamos planos para o futuro do nosso time, orgulhosamente batizado de Brasil Futebol Clube.

(imagem: dnasantastico.com)

A venda estava que era uma algazarra só. O Zeca Berilo fazia discursos inflamados contra o insolente do João da Serraria e era aplaudido pelos comensais. Aos nos ver, deu um soco na mesa e gritou:
- Vão lá, meninos! Mete o ferro neles!

©
Abrão Brito Lacerda





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