segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

SETE SURPRESAS

A bela igreja matriz de Sete Lagoas, da primeira metade do século XIX.

Embora tenha morado por dezoito anos em Belo Horizonte, nunca havia visitado Sete Lagoas. Fi-lo nestes dias de fim de ano e muitas reflexões resultaram do que era para ser uma simples viagem turística. Em primeiro lugar, porque hoje é praticamente impossível viajar pelo Brasil sem incidentes relevantes, com estradas cheias e centros urbanos frenéticos, numa inarredável marcha pelo progresso.
A pressa é tanta que não há tempo para planejar o que se quer fazer ou organizar o que já existe. Assim, as cidades vão crescendo aos trancos e barrancos, tornam-se lugares agressivos e pouco hospitaleiros. Esta é a primeira surpresa: Sete Lagoas, como tantas cidades pelo Brasil afora, cresce depressa e sem resposta equivalente em termos de infra-estrutura urbana. Pior: cresce destruindo a si mesma, derrubando o passado para em seu lugar erigir um presente provisório e sem personalidade. Um pequeno exemplo: um casarão central de valor histórico foi posto ao chão na calada da noite e posteriormente em seu lugar construiu-se (provavelmente em tempo recorde) uma loja de eletrodomésticos!
Agora já é fato consumado, trata-se de preservar a memória e o acervo remanescente, o que dá lugar à segunda surpresa: a cidade tem um passado glorioso que remonta à época das sesmarias; foi uma povoação importante nos tempos da mineração, tendo inclusive hospedado o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, na condição de comandante do Registro criado pela coroa portuguesa em 1780; tornou-se entreposto regional da Estrada de Ferro Central do Brasil, estabelecida no município em 1896; foi sede de várias associações musicais; cultivou hábitos modernos e chiques como o piano em casa de famílias burguesas e o cinema mudo acompanhado de banda de música; enviou pracinhas à Segunda Guerra Mundial; e enriqueceu-se no século XX com a mineração e a industrialização.
A antiga estação Sete Lagoas, hoje Museu do Ferroviário, nos faz sonhar com o passado.

A partir do DNA conhece-se o organismo, a partir de vestígios pode-se reconstituir uma civilização.  A terceira e a quarta surpresas são o Museu do Ferroviário e o Museu Histórico Municipal. Ambos contam com acervos representativos que justificam a visita.
O primeiro, localizado no lindo prédio da antiga estação Sete Lagoas, preserva instrumentos e utensílios relacionados à ferrovia. A antiga bilheteria, assim como vários objetos de escritório, está bem preservada. Há várias coisas curiosas que remontam a épocas românticas do passado, como a “Bicicleta de Recado”. Você vê a plaquinha e inevitavelmente pergunta à guia: “- O que é?”; “- Antigamente não havia automóvel, assim as mensagens eram transmitidas via bicicleta.”
Banda de música que se apresentava durante
as sessões, na época do cinema mudo.
O Museu Histórico Municipal situa-se na sede da pioneira fazenda Sete Lagoas. Seu acervo variado inclui peças da antiga fazenda, grilhões, tenazes e ferros, usados respectivamente para aprisionar, punir e marcar os escravos negros. Há objetos que pertenceram a algumas famílias locais, muitas fotografias, um pequeno memorial dos setelagoanos que combateram na Segunda Guerra Mundial, alguns equipamentos industriais e muito mais. Infelizmente, muitas peças encontram-se em estado precário e todo o conjunto de prédios que constitui a área do museu requer uma restauração urgente.
Falar da quinta surpresa é contar um pouco da era Cenozóica, aquela que aprendemos nos livros de Geografia do primário. Foi nessa época que se formaram as grutas da região central de Minas Gerais, como a Rei do Mato, que visitamos em Sete Lagoas. O conjunto turístico da gruta conta com infraestrutura adequada e guias bem preparados. A parte aberta à visitação é composta de quatro salões, dentre os quais se destaca o último, que lembra o altar de São Pedro e o baldaquim de Michelângelo, no Vaticano, com colunas de estalagmites de 12 metros de altura. Há também pinturas rupestres interessantes e vestígios de ocupação pré-histórica em uma grupa anexa.
As colunas de estalagmite do quarto salão da gruta Rei do Mato lembram o baldaquim do Vaticano, concebido por Michelângelo.

Igrejinha, no alto da Serra de Santa Helena.
A sexta surpresa é o Parque da Cascata, no alto da Serra de Santa Helena. Com uma vasta área de preservação e várias opções de lazer, o parque só não é recomendado para quem tem alergia à natureza. Oferece belos exemplos de intervenção em áreas naturais com o objetivo de melhorá-las para o visitante. O mesmo critério preservacionista que poderia ter sido aplicado ao centro da cidade, pois a memória construída pelo homem deve ter sempre um lugar no seu futuro. A propósito, quando se está no alto da serra goza-se de uma tranquilidade e de um clima (bem mais fresco e úmido) que já não existe lá embaixo.
Uma notícia de jornal da época da Segunda Guerra Mundial.
 Ainda que pressionado pelas condições adversas do progresso, que violenta e desfigura nossos centros urbanos, o espírito das pessoas resiste, e esta é a sétima grande surpresa. O que há de mais valioso em Sete Lagoas é a gentileza no trato e a hospitalidade de seus habitantes, o que a torna uma cidade tipicamente mineira. Desde o primeiro contato, sentimos vontade de ficar. Igualmente notável é o orgulho com que os mais velhos falam de suas raízes, ainda que isso encontre pouco eco nas gerações mais novas.
Neste embate, o cronista põe-se ao lado da senhora Marisa da Conceição Pereira, diretora do Museu Histórico Municipal e defensora apaixonada da história local; pois de nada servirá trocar valores permanente por um lustre embaçado e fugaz, que se revelará um espelho trincado, depois de removida a poeira. A arquitetura colonial que emoldurava nossas cidades no passado foi a mais bonita e original já produzida no Brasil. Depois dela, com pequenas concessões ao neoclássico, ao art nouveau e o Niemeyer, tudo virou caixote de concreto, que se erige em um dia para se demolir no outro.

Um dos raros prédios históricos que escaparam de dar lugar a uma loja de eletrodomésticos ou a um estacionamento.

© Abrão Brito Lacerda


2 comentários:

  1. Como você consegue brilhantemente, falar de coisas tão simples. Fiquei super feliz por ter ido conhecer a minha querida Sete Lagoas ! Um abração !

    ResponderExcluir
  2. Que bom que foi do seu agrado, Sânzia, sinto que meu texto atingiu seu objetivo. See you soon!

    Abrão Lacerda

    ResponderExcluir

Gostaria de deixar um comentário?