terça-feira, 17 de setembro de 2013

CRÔNICA MAIS VELHA DO QUE EU

Tem gente que não se entrega fácil.


          
            Não chego a ser um “early bird”, como se diz em inglês, um pássaro madrugador, mas estou no trabalho pontualmente às quinze para as oito todo santo dia. É um prazer rodar por uma rua desimpedida, com os pensamentos organizando-se para empreender os vários compromissos da jornada e ver o sol leitoso da manhã espalhando sua energia sobre a terra. Pensamentos têm vida própria, disse um sábio, eles entram numa mente, ajudam ou avacalham, segundo o perfil do proprietário, e depois se mandam em busca de outros hospedeiros. Por isso, é preciso estar alerta a todo momento, fechando a porta àqueles que não possuem outro propósito que não o de te atanazar. Isso é particularmente verdade de manhã  cedo, o que nos autoriza a retificar o ditado: ao invés de se levantar com o pé direito, deve-se levantar com o pensamento direito.
            Era isso o que fazia Padre Abdala, com quem eu me encontrava todo dia ao chegar ao trabalho: sete e quarenta e cinco, eu descia do scooter, retirava o capacete e via o padre descer da casa paroquial. “Bom dia, Padre Abdala!”; “Bom dia!”.
            O padre era baixo, magro, sempre trajando calça social de cor escura, camisa de manga comprida e sapatos sociais. Tinha um andar gingante e sinuoso, denotava certa timidez. Seus olhos brilhavam melancolicamente por trás dos óculos espessos, olhos de quem carrega o sofrimento calado de tantas pessoas, dessas que comem sua parte de sal sem fazer alarde, aguardando que Deus que está no céu e em todos os lugares possa lhes redimir.
            Nunca trocamos outras palavras senão estas: “Bom dia!”, mas ele era meu amigo, eu o sentia pelo sermão que proferia nas missas de sexta-feira e que eu ouvia à revelia do segundo andar do prédio ao lado.
            Um dia fiquei sabendo que o padre tinha adoecido, por isso vinha faltando ao nosso cumprimento matinal. O que foi que aconteceu? Fígado ou coração? Não. A idade já lhe havia tirado parte dos reflexos e ele se deixou atropelar por uma moto enquanto cruzava a rua em frente à igreja. O motoqueiro safou-se com escoriações, segundo o repórter, mas o padre envelheceu dez anos em um mês e a última vez que o vi caminhava claudicante entre a casa paroquial e a igreja, amparado por uma ama. Não lhe dei bom dia, tomado por um súbito pudor, pensei: “Veio despedir-se da igreja”.
            A diferença entre a energia que sustenta a vida e o declínio que leva à morte é dolorosa quando a observamos no outro. Deve ser muito mais quando sentida em nós mesmos. Há quem se vai sem tempo de assentar um inventário ou outro plano qualquer, mas há gente dura na queda, que só cede ao mutismo da morte após papel passado e assinado. Minha mãe foi assim.
            A Dona Celsa nasceu em uma fazenda do interior da Bahia, na primeira metade do século XX. O pai ficou viúvo e casou-se pela segunda vez, e ela teve que suportar uma madrasta possessiva e ciumenta, que a maltratava e perseguia, enquanto adulava as filhas que eram suas. Para se alegrar, ela cantava marchinhas e cantigas de roda enquanto trabalhava, o que levava a megera a fritar-se de raiva e a crispar os punhos.  

- Bom dia, Padre Abdala!

            Naquela época, o interior do Brasil era poeira na seca e barro na chuva. Assim, a vida nas fazendas era de sacrifícios, com poucos suprimentos (sal para o tempero, querosene para os candeeiros, ferramentas para o trabalho) vindo dos “comércios”, que era como se chamavam os centros urbanos. Fazia-se todo o resto localmente: plantava-se,  colhia-se, beneficiava-se, comia-se. Não havia olho de soja, cozinhava-se com banha de porco; para viajar, utilizava-se a montaria; para notícias “de fora” confiava-se na voz hesitante do radinho de pilhas, quando havia pilhas.
            Nada capaz de desanimar Dona Celsa na lida diária com os onze filhos que veio a ter em seu casamento. Criou-os à base de chás, infusões, unguentos, garrafadas, simpatias e rezas.
            O leitor deve estar se perguntando o que eram garrafadas. Dou-lhe um exemplo que ainda me faz embrulhar o estômago: azeite doce (azeite de oliva) com raiz de fedegoso para os vermes. O fedegoso, matinho nativo em quase todo o Brasil, é mais amargo do que fel. E repugnante também. O gosto da raiz dessa erva besta misturada ao azeite é algo indescritível. Seu efeito sobre os parasitas que infestavam os intestinos daqueles meninos criados entre porcos e galinhas assemelhava-se ao de uma bomba de efeito moral. Não os matava, mas os obrigava a buscar a saída o mais rapidamente possível. Então, era aquele desespero para “ir no mato” (equivalente a ir ao banheiro hoje), até que a última lombriga tivesse sido expulsa.
            Os filhos cresceram e Dona Celsa mudou-se para a cidade, para que pudessem ir à escola; os filhos casaram-se e ela cercou-se de netos; seu Zé Lacerda caiu de cama e ela cuidou dele como fiel enfermeira até seu último suspiro; veio a artrose, a osteoporose, o reumatismo, a catarata; aos 82 anos quebrou o fêmur em uma queda e passou por uma cirurgia de implante.  “Não vai andar mais”, diziam alguns, mas estavam enganados: ela enfrentou a fisioterapia e voltou a andar. De tanta teimosia, torceu o outro joelho e ficou mais algumas semanas de molho.  “Vai andar de cadeira de rodas”, disseram outros, mas estavam igualmente enganados. Aos 87 anos, teve câncer e foi novamente operada.  “Mãe não vai viver muito tempo”, suspiraram os filhos. Desnecessário de dizer que também estavam enganados. A velhinha teve tempo de tomar providências para seu passamento, pagar promessas e esperar...
            Só entregou os pontos aos 92 anos de idade, com o coração funcionando a prestações, e ainda assim porque os santos negaram-lhe a última graça, que ela não chegou a revelar qual era, mas que em minha suspeita tratava-se do desejo de chegar aos 100 anos.
            “A morte é reta, odeia curvas”, disse Mário Quintana. Isso é verdade para o corpo, quando este busca o caminho do chão silente e desolado. A memória dos que se foram persiste em nós, indo e vindo, e o espírito deve se perpetuar em outra instância, onde um segundo encontro torna-se possível e desejável. É isso que nos qualifica para enfrentar a morte com serenidade, entendendo sua função renovadora do ciclo da vida. A existência terrena requer um grande desprendimento de energia, como sabemos. Por isso, a vida humana cobre um curto lapso que vai dos 70 aos 100 anos.  Esta é pelo menos a profecia que faço a mim mesmo.

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Abrão Brito Lacerda

11 comentários:

  1. Querido Abrão!
    Parabéns mais uma vez... somos ETernos...
    Um abraço terno de sua amiga e fã,
    Salete

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    1. Obrigado, Salete. Fico muito feliz com sua leitura e comentário. Volte sempre.

      Abrão

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  2. Jefferson Lacerda (Sobrinho)
    Jefferson Lacerda (Bisneto)

    "Tem gente que não se entrega fácil" Nada mais apropriado para relatar sobre a vida de sua mãe,minha querida "bisa",que realmente não se entregou fácil,pois lutou pela vida,à que ela tanto amava.Buscando sempre acrescentar algo a mais em nossas vidas,um ensinamento talvez,um sermão,uma lembrancinha como ela dizia.Uma guerreira,que saiu vitoriosa da batalha chamada "Vida",onde deixou seu rastro de amor,e ensino,onde agora nos leva à saudade,e a eterna lembrança daquele sorriso pra sempre em nossos corações.

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    1. Belo comentário, Jefferson. Escreva seus textos você também.

      Abrão

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  3. Como sempre meu querido cunhado, escrevendo com muita propriedade, sentimento e sabedoria, bela e merecida homenagem à sua mãe que infelizmente não tive a oportunidade de conhecer. Parabéns!
    Abç

    Mariluce

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    1. Obrigado, Mariluce,

      A Dona Celsa será sempre uma grande fonte de inspiração, alguém que se tornou ainda mais presente em minha vida depois que a perdi: uniu os tempos de agora e de sempre e me levou a enxergar com o olho da mente.

      Um abraço para você também,

      Abrão

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  4. Que texto lindo, Abrão. Provoca em todos nós um sentimento de empatia muito grande. Empatia é exatamente isso, sofrer com o outro, com já bem definiam os gregos.
    Parabéns mais uma vez!

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  5. Obrigado, amigo artista. Você com seus pincéis e tintas, eu com o teclado e as palavras, movemos o mundo a nosso modo. Há barulho demais, discursos demais, mas mais do que nunca é preciso dizer algo. É assim que a escrita tem me mudado, revolvendo as camadas de tolice que habitam a superfície e fazendo brilhar algo de mais nobre lá do fundo.

    Volte sempre, você é de casa.

    Abrão

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  6. Abrão, a coisa está fluindo, hein. Com cintilações de filosofices literárias que põem lanterna nas trilhas da erma noite. Muito legal...Avante, que a vida abreve ..

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  7. Gracias, Bruno. É um grande prazer vê-lo por aqui. É como o rio: ainda que o represem, ele voltará a fluir.

    Um abraço amigo,

    Abrão

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  8. Tive a oportunidade de conhecer sua mãe. Na verdade, saí de Macarani, no intuito de conhecê-la, tendo em vista que meu pai (sobrinho de tio José Lacerda) falava muito dela e de seu pai. Para facilitar as coisas, fui junto com minha esposa, a qual é neta de dona Pequena, irmã de sua mãe. Chegamos a Medeiros Neto numa tarde, no começo deste ano, e pude ouvir muitas boas histórias contadas por tia Nenê (como era conhecida por nós), e registrar esse momento através de diversas fotografias. Foi uma tarde de grande nostalgia, principalmente ao ver uma bela pintura na parede da sala, eternizando a amizade e o amor entre duas irmãs, tia Nenê e Dona Pequena. Certamente foi um momento muito precioso, do qual eu e minha esposa jamais nos esqueceremos. Pude perceber que tia Nenê, além de ser uma pessoa meiga e acolhedora, irradiava um grande saber. Tenho a certeza de que este foi o seu grande legado. Um abraço. Vinícius. "advogado.vinicius@hotmail.com"

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