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CRÔNICA MAIS VELHA DO QUE EU

Tem gente que não se entrega fácil.
        
            Não chego a ser um early bird,  um pássaro madrugador, mas estou no trabalho pontualmente às quinze para as oito da manhã. Considero um privilégio rodar por uma rua desimpedida, curtindo o sol leitoso da manhã enquanto os pensamentos vão e vêm, como se tivessem vida própria - entram na mente, ajudam ou avacalham segundo o humor do dia, e depois se mandam em busca de outro hospedeiro. Por isso, é preciso estar alerta e fechar a porta àqueles que não possuem outro propósito que não o de te atanazar. Pensando bem, deveríamos retificar o ditado: ao invés de nos preocuparmos em levantar com o pé direito, seria melhor levantarmos com o pensamento direito.
            Seria esse o segredo do Padre Abdala, que me dedicava uma pacífica saudação todo dia às sete e quarenta e cinco em ponto? Eu descia do scooter, retirava o capacete e via o padre caminhar entre a casa paroquial e a igreja. “Bom dia, Padre Abdala!”; “Bom dia!”.
            O padre era baixo e magro, sempre trajava calça social e camisa de manga comprida. Tinha um andar gingante e sinuoso, denotava certa timidez. Seus olhos brilhavam melancolicamente por trás dos óculos espessos. Eram olhos de quem carrega o sofrimento calado de tantas pessoas, dessas que comem sua parte de sal sem fazer alarde, aguardando que Deus que está no céu e em todos os lugares possa lhes redimir.
            Nunca trocamos outras palavras senão esse bom dia, mas eu ouvia sempre o seu sermão de sexta-feira a noite, a partir do segundo andar do prédio ao lado da igreja.
            Um dia o padre faltou a nosso encontro matinal. O que tinha acontecido? Só fiquei sabendo vários dias depois: ele fora atingido por uma moto que subia furiosamente a rua. Da última vez que o vi, ele fazia o pequeno trajeto que separa a casa paroquial da igreja amparado por uma cuidadora. Veio despedir-se do sacrário, pensei. Não ousei olhá-lo de frente, não lhe disse bom dia, não sabia que essa teria sido a última vez.
            A diferença entre a energia que sustenta a vida e o declínio que leva à morte é dolorosa quando a observamos no outro. Deve ser muito mais aguda quando sentida em nós mesmos. Há quem se vai sem tempo de assentar um inventário ou outro plano qualquer, mas há gente dura na queda, que só cede ao mutismo da morte após papel passado e assinado. Como minha mãe.
Nascida em uma fazenda do interior da Bahia, a Dona Celsa ficou órfã de mãe aos dez anos de idade. Com o segundo casamento do meu avô, teve que suportar uma madrasta cruel que a perseguia enquanto adulava as filhas que eram suas. Depois veio o casamento e onze filhos, criados numa vida de dureza e sacrifício diários, à base de chás, unguentos, simpatias e rezas.
Os filhos cresceram e Dona Celsa mudou-se para a cidade para que pudessem frequentar a escola. Os filhos casaram-se e ela cercou-se de netos. Seu Zé Lacerda caiu de cama e ela cuidou dele como fiel enfermeira até seu último suspiro. Veio a artrose, a osteoporose, o reumatismo, a catarata. Aos 82 anos, quebrou o fêmur e passou por uma cirurgia de implante.  Não vai andar mais, disseram os médicos. Ela enfrentou a fisioterapia e voltou a andar. De tanta teimosia, torceu o outro joelho e ficou mais algumas semanas de molho.  Vai andar de cadeira de rodas, disseram os fisioterapeutas, mas estavam também enganados. Aos 87 anos, teve câncer e foi novamente operada.  Mãe não vai viver mais muito tempo, suspiraram os filhos. Que nada, a velhinha teve tempo de tomar providências para seu passamento, pagar promessas e esperar...
            Só entregou os pontos aos 92 anos de idade, com o coração funcionando a prestações, e ainda assim porque os santos negaram-lhe a última graça, que ela não chegou a revelar do que se tratava, mas que em minha suspeita tratava-se do desejo de chegar aos 100 anos de idade.
            A morte é reta, odeia curvas, disse Mário Quintana. Isso é verdade para o corpo, quando este busca o caminho do chão silente e desolado. A memória dos que se foram persiste em nós, indo e vindo, e o espírito deve se perpetuar em outra instância, onde um segundo encontro torna-se possível e desejável. É isso que nos qualifica para enfrentar a morte com serenidade, entendendo sua função renovadora dentro do ciclo da vida. A existência terrena requer um grande desprendimento de energia e cobre um lapso de tempo que vai em média dos 70 aos 100 anos.  Esta é pelo menos a profecia que faço a mim mesmo.

©
 Abrão Brito Lacerda
 01 03 18

Comentários

  1. Querido Abrão!
    Parabéns mais uma vez... somos ETernos...
    Um abraço terno de sua amiga e fã,
    Salete

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    1. Obrigado, Salete. Fico muito feliz com sua leitura e comentário. Volte sempre.

      Abrão

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  2. Jefferson Lacerda (Sobrinho)
    Jefferson Lacerda (Bisneto)

    "Tem gente que não se entrega fácil" Nada mais apropriado para relatar sobre a vida de sua mãe,minha querida "bisa",que realmente não se entregou fácil,pois lutou pela vida,à que ela tanto amava.Buscando sempre acrescentar algo a mais em nossas vidas,um ensinamento talvez,um sermão,uma lembrancinha como ela dizia.Uma guerreira,que saiu vitoriosa da batalha chamada "Vida",onde deixou seu rastro de amor,e ensino,onde agora nos leva à saudade,e a eterna lembrança daquele sorriso pra sempre em nossos corações.

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    1. Belo comentário, Jefferson. Escreva seus textos você também.

      Abrão

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  3. Como sempre meu querido cunhado, escrevendo com muita propriedade, sentimento e sabedoria, bela e merecida homenagem à sua mãe que infelizmente não tive a oportunidade de conhecer. Parabéns!
    Abç

    Mariluce

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    Respostas
    1. Obrigado, Mariluce,

      A Dona Celsa será sempre uma grande fonte de inspiração, alguém que se tornou ainda mais presente em minha vida depois que a perdi: uniu os tempos de agora e de sempre e me levou a enxergar com o olho da mente.

      Um abraço para você também,

      Abrão

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  4. Que texto lindo, Abrão. Provoca em todos nós um sentimento de empatia muito grande. Empatia é exatamente isso, sofrer com o outro, com já bem definiam os gregos.
    Parabéns mais uma vez!

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  5. Obrigado, amigo artista. Você com seus pincéis e tintas, eu com o teclado e as palavras, movemos o mundo a nosso modo. Há barulho demais, discursos demais, mas mais do que nunca é preciso dizer algo. É assim que a escrita tem me mudado, revolvendo as camadas de tolice que habitam a superfície e fazendo brilhar algo de mais nobre lá do fundo.

    Volte sempre, você é de casa.

    Abrão

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  6. Abrão, a coisa está fluindo, hein. Com cintilações de filosofices literárias que põem lanterna nas trilhas da erma noite. Muito legal...Avante, que a vida abreve ..

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  7. Gracias, Bruno. É um grande prazer vê-lo por aqui. É como o rio: ainda que o represem, ele voltará a fluir.

    Um abraço amigo,

    Abrão

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  8. Tive a oportunidade de conhecer sua mãe. Na verdade, saí de Macarani, no intuito de conhecê-la, tendo em vista que meu pai (sobrinho de tio José Lacerda) falava muito dela e de seu pai. Para facilitar as coisas, fui junto com minha esposa, a qual é neta de dona Pequena, irmã de sua mãe. Chegamos a Medeiros Neto numa tarde, no começo deste ano, e pude ouvir muitas boas histórias contadas por tia Nenê (como era conhecida por nós), e registrar esse momento através de diversas fotografias. Foi uma tarde de grande nostalgia, principalmente ao ver uma bela pintura na parede da sala, eternizando a amizade e o amor entre duas irmãs, tia Nenê e Dona Pequena. Certamente foi um momento muito precioso, do qual eu e minha esposa jamais nos esqueceremos. Pude perceber que tia Nenê, além de ser uma pessoa meiga e acolhedora, irradiava um grande saber. Tenho a certeza de que este foi o seu grande legado. Um abraço. Vinícius. "advogado.vinicius@hotmail.com"

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