sábado, 10 de agosto de 2013

A UTILIDADE DE UM VELHINHO

         


         Desculpem, eu realmente não quis dizer velhinho, uma vez que uma pessoa de 60 ou  70 anos não é mais velhinha. Tempos atrás, ter 50 anos significava estar um caco e quem ultrapassava o limiar dos 60 estava com um pé na cova. Don Quixote, o personagem decrépito da novela de Cervantes, era um ancião lunático de... 50 anos! E ainda assim estava muito bom, pois nos tempos antigos o homem vivia até os 30 anos, quando morria na guerra ou de peste. As mulheres viviam mais, pois não iam à guerra, ainda assim estavam sujeitas a morrer de parto ainda jovens. Mas, depois do antibiótico e do viagra, até homens de 80 anos estão bombando e, as senhoras, quando suportam o reumatismo, usam até salto alto.
                  Você vai a uma agência dos correios – que ultimamente é também agência bancária e central de fuxicos – e têm lá três caixas, um deles atendendo a uma fila que começa na rua. O segundo é só pra sedex e o terceiro  é o caixa exclusivo para “idosos, gestantes e pessoas com deficiência”. 
                 Assim não dá! Pedi à secretária para postar uns cartões de natal para mim. Ela voltou  dizendo: "Entrei na fila errada e acabei em uma loja da Ricardo Eletro em liquidação". Isso três horas depois! 
                      Esta é ou não é uma pessoa com deficiência? 
                    No entanto, ela tem pouco mais de vinte anos e não tem direito ao caixa fura-fila. A única solução foi despedir a secretária e parar de enviar cartões de natal.

         É nessas horas que um velhinho na família vale ouro. Desconfio inclusive que a revalorização da terceira idade vem dessas facilidades que eles vêm adquirindo. E, a este respeito, faço aqui uma grave acusação, que a polícia federal e outros agentes da Dilma deveriam investigar: minha vizinha, a Dona Gertrudes, é mulher de duas caras. Quem te viu, quem te vê. Oficialmente a Dona Gerinha tem 65 anos, a crer no depoimento de Gervásio, seu filho mais velho. Só que, após um lifting e algumas sessões de botox Dona Gê passou a ter aparência de 50, e ainda assim não se deu por satisfeita. Entrou para o pilates, a musculação e, nos dias em que desfila por aí com o novo companheiro, ninguém dá mais do que 40 anos para ela. 
          Sem mais secretária, não me restou outra alternativa senão ir para a fila dos excluídos do correio - e quem lá encontro? A Dona Gertrudes! Com sandálias rasta-pé, vestidinho de mangas e uma daquelas bolsas cafonas que as senhoras idosas costumam usar. Levei um susto! Ela parecia ter 70 anos!  Foi direto ao caixa exclusivo, desprezando meu olhar de inveja. Eu a testemunhei colocando sobre o balcão um monte de contas a pagar - provavelmente as faturas da família inteira!
         “Envelhecer é horrível, dor daqui, dor dali”; “Ah, que saudades dos meus vinte anos!”. Mas ninguém quer morrer. As dores da idade são o tributo pago à longevidade. Com exceção dos poetas, dos endividados e dos maridos traídos, ninguém espera em sã consciência deixar este mundo de maravilhas  -antes de poder gozar o privilégio do “caixa exclusivo”!.
©

Abrão Brito Lacerda
03 03 16

3 comentários:

  1. RERERERER rerer. muito bom. Bem-vindo ao mundo da crônica. O tema é batido : as proezas e percalços das últimas fases da vida. Nada como revisitá-lo com o olhar do humor em um texto de extensão maior que a crÔnica "normal". O tema ganhou contornos polemizadores. didaticamente, talvez se possa pensar que para os mais otimistas, quase sempre saudáveis aposentados do serviço público, do mundo político e dos abastados é a festejada MELHOR IDADE. Conceito polêmico, para muitos o adjetivo melhor não seria mais adequado para um fenômeno que dura o resto da vida e que ainda não se sabe se ela vem a nós e se nós chegamos a ela. O fato é que quando uma linda jovem cede lugar no ônibus a mim, sei que não é pelos meus belos olhos, mas por respeito.Embora , meu amigo BJ, dono de um carrão e de saudáveis 56 anos, afirme que algumas delas preferem ser tratadas como bonecas pelos "velhinhos" que como peteca pelos jovenzinhos... como sempre..você mexeu com assunto difícil e para assuntos sérios: você já sabe. só rindo. Beeeimm, esta parte do comentário veio para dar calor à conversa.Buscando, então, mais luz e menos de calor, quero finalizar falando das riquezas do seu estilo que busca ser cada dia mais enxuto, conciso e menos inclusivo, digressivo afinal na vida e na fantasia tudo é determinante, mas nem tudo cabe no texto. ABRAÇAÇU do JUÂO.

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    1. Gracias, honorável John,

      De fato, o conceito de melhor é cabível em qualquer idade. Aos vinte anos, temos saúde e tesão de deuses, mas desperdiçamos a maior parte no banheiro ou malhando aqueles textos chatos da universidade. Aos cinco papai e mamãe nos repetem sem cessar que somos os seres mais bonitos e inteligentes do mundo e quando descobrimos que era mentira viramos escritores. Quanto ao texto, ele é um "affaire" de palavras, que dizem, desdizem e contradizem. Abraço retribuido.

      Abrão

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  2. MUITO BOM MEU AMIGO...COMO DIZIA UM COLEGA DE EMPRESA: VELHO É MEU PASSADO...ABRAÇOS...

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