quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A PAIXÃO POÉTICA DE FERREIRA GULLAR




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

         Meu primeiro contato com a poesia de Ferreira Gullar foi em 1981, ano em que foi publicada a coletânea Toda Poesia pela Civilização Brasileira, reunindo a produção do poeta de 1950 até aquela data.
         Bons tempos: tudo tão ingênuo e utópico. Ingênuo porque ainda se acreditava em “revolução”, supondo com isso não apenas uma mudança no sistema econômico e social, mas também uma transformação das mentalidades e dos valores – em suma, acreditava-se que o homem ocidental poderia ser melhorado, pois ele seria “vítima” do sistema capitalista, que o condicionava e oprimia. Utópico porque os profetas do impossível abundavam, numa época em que os belos discursos valiam ouro e aqueles que tinham o dom da palavra eram admirados como verdadeiros ídolos. Alguns tinham o pé na era de paz e amor, cujos reflexos tardios entre nós ainda se faziam sentir, outros sonhavam com a esquerda marxista e estavam prontos a embarcar no primeiro torpedo suicida que aparecesse. Felizmente, não apareceu nenhum.
         Havia muitas fórmulas para operar tal milagre de transformação e era preciso sonhar, assim como viver. Tempos muito propícios à poesia. Último suspiro dos idealismos que sacudiram o mundo a partir dos anos 60 e que depois, já no final dos anos 80, desapareciam para dar lugar à figura onipotente do “mercado”, aplastando tudo como um rolo compressor e tornando a paisagem (interna e externa) uniforme e previsível.
         Ferreira Gullar teve o privilégio de produzir o essencial de sua possível neste período pós-guerra, pré-conformismo. E falava o que todos queríamos ouvir.


         Denunciava as mazelas sociais do Brasil, país que na época alistava-se sob a alcunha de “terceiro mundo”:

Introduzo na poesia
a palavra diarréia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não dia tudo,
quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala e fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

(“A bomba suja”, transcrito aqui apenas em parte)

          Falava de coisas que fazíamos (fazemos) questão de desconhecer, como se não nos dissesse respeito:



No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade.

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade.

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade.

("Poema brasileiro")

         Denunciava a opressão do “imperialismo” e levantava o bastião da luta de resistência:

                    Homem comum, igual
                    a você,
cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga
suja de lama e de fome.

 (“Homem comum”)

         “Imperialismo” e “latifúndio” são palavras hoje relegadas ao dicionário. Ninguém as citaria neste início de século XXI com a conotação que tinham então. Mas, naquela época, com ditadura militar e guerra do Vietnã, calar-se era para os frouxos. A poesia deveria ter uma função social, deveria ser “engajada”:

Espalharam por aí que o poema
é uma máquina
               Ou um diadema
que o poema
repele tudo que nos fale à pela
e mesmo a pele
de Hiroxima
que o poema só aceita
a palavra perfeita
ou rarefeita
ou quando muito a palavra neutra
pois quem faz o poema é um poeta
e quem lê o poema, um hermeneuta.

(“Boato”)



         Não há dúvida que na poesia de Ferreira Gullar a palavra se liberta totalmente das hierarquias e as fronteiras entre bom e mau gosto são rompidas, muitas vezes de forma brutal. É o que acontece no célebre “Poema sujo” – que deveria ser lido por todos os aprendizes de poeta destes tempos confortáveis. O poema é muito longo – na verdade, um livro inteiro. Cito apenas um pequeno trecho inicial:

azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)

como uma entrada para

(“Poema sujo”)

         O “Poema sujo” mudou os meus conceitos estéticos para sempre, desde o primeiro momento que o li. Expressava um monte de coisas que eu mesmo sentia e possuía um ritmo e uma sonoridade alucinantes. Depois dele, o dilúvio.

         Bem, cabe-me agora colocar de pé minhas impressões sobre a poesia de Gullar. O lado engajado e até mesmo grotesco de sua poesia é sobretudo reflexo dos tempos bicudos em que viveu,  embora obviamente revele muito do seu próprio temperamento.
         Gullar produziu lirismo do mais elevado quilate, poemas que aderem a nossa memória e aos nossos sentidos para sempre. Como “Cantiga para não morrer”:

Quando você for se embora
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

(“Cantiga para não morrer”)


E o meu favorito, esta jóia que por si só incluiria o poeta nos compêndios de clássicos de nossa literatura:

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

(“Traduzir-se”)

         Ficam aqui registradas estas breves notas sobre este grande nome de nossa literatura, esperando que o estimado leitor sinta-se compelido a conhecer mais e busque os livros do poeta.

(© Abrão Brito Lacerda)

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