sexta-feira, 17 de abril de 2015

THE BELLMAN





Fernandes é uma criança de calças compridas.  Tem rosto redondo, olhos grandes e um sorriso sempre aberto. No Luxury Hotel, onde ele trabalha de smoking e quepe preto, sua silhueta embeleza o hall, quase tanto quanto uma estátua do Buda.
Ele sabe tratar os hóspedes com deferência:
            - Boa tarde, madame. Posso ajudá-la com as malas?
            Arrisca até o inglês, se desconfia que o hóspede é estrangeiro:
            - Good day, gentleman. This way, please.
            Ele é o bellman, aquele que fica à disposição da recepção para atender aos quartos, dar recados, transportar bagagens, com ou sem carrinho, subir e descer sem parar, escada elevador, elevador escada. Os outros reclamam, mostram uma simpatia protocolar. Ele procura todos os dias não desmerecer as recomendações da amiga da mãe, que o indicou para o emprego: “Fernandes é honesto e responsável. O senhor vai ficar orgulhoso de tê-lo empregado.”
            Certo dia ele chegou ao trabalho usando uma máscara verde, e foi aquele alvoroço. Os colegas tentaram convencê-lo a abandonar o disfarce, mas ele relutou em aceitar:
            - Ganhei da minha tia. Ela usou no carnaval.
            Foi o gerente quem conseguiu convencê-lo, através de um hábil argumento:
- Vou guardar em minha gaveta, você pode perder. Pegue de volta  no final da jornada.
            A mãe morre de preocupação ao ver o Fernandes se preparar de manhã para sair. Ele escova os dentes e toma banho ao mesmo tempo, veste as calças enquanto coloca os sapatos. Dobra o smoking em quatro partes, coloca em um envelope plástico e amarra na garupa da bicicleta.  Se é dia de pagamento, ela nunca esquece de recomendar:
            - Não pegue dinheiro, os vagabundos - que infestam o bairro - vão querer te roubar!  
            E ele sai pedalando com energia.
            Passa em frente ao Bar do Vicente, onde os cães o aguardam de orelha em pé e saem em seu encalço, latindo e mordendo as rodas da bicicleta. Fernandes grita, os cães rosnam, como se estivessem atacando uma presa de verdade. Depois, dão meia- volta e retornam ao bar.
            Outro dia foi o aniversário da mãe e ele quis fazer uma surpresa: comprou um presente, mandou embrulhar em um vistoso papel amarelo e colocou na garupa da bike. Passou ainda no supermercado, de onde saiu com duas sacolas, que foram penduradas, uma de cada lado, no guidon. E rumou para casa, sem se preocupar com os carros, motos, pedestres do caminho.
Vinte minutos, já estava perto do Bar do Vicente, e foi quando um pensamento o tomou de assalto: “Os cães podem morder as sacolas, além disso, a bike está mais pesada e difícil de guiar. E se eu deixar o presente cair?...



            Enquanto estava envolto em tais pensamentos, os vagabundos que infestavam o bairro apareceram e começaram a correr atrás dele. Fernandes se lembrou do conselho da mãe e fugiu com o coração nas pernas. Nem notou que já estava passando em frente ao bar, onde os cães o aguardavam de orelhas em pé.
            No entanto, para surpresa de Fernandes e dos cínicos que acompanhavam a cena da calçada, os cães não o atacaram dessa vez. Ao verem os moleques correndo atrás da bicicleta, sentiram-se enciumados e avançaram furiosamente contra eles. Os moleques levaram mordidas nos calcanhares, nos braços e nos traseiros, e fugiram feito gatos escorraçados.
Fernandes respirou aliviado e pensou:
            “Da próxima fez, trago comida para os cachorros.”
©
Abrão Brito Lacerda

15 04 15

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