segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A ARCA DE NOEL


(Imagem: www.curiosidadesgerais.net)

Dizem que, nos tempos de Noé, bicho valia tanto quanto gente. Esta é uma causa justa, razão pela qual todos deveriam ler a Bíblia. Mas Noé também foi conhecido por sua longevidade – e dizem que naquela época os homens viviam muito, coisa de séculos. Adão teria vivido 931 anos e Matusalém, 969. Adão teria sido o pai de todos nós, o que se explica facilmente, tendo ele vivido tanto tempo. Matusalém ganhou uma palavra com seu nome. A gente mesquinha vive menos de cem, o que para alguns é pouco e para outros é muito, por incrível que pareça.
Quem vive no mundo da Internet não imagina a chatice que era ser jovem no passado. Ainda que os avós enalteçam as maravilhas do Jeep Willys e o óleo de fígado de bacalhau ou Emulsão Scott (verdadeiro responsável pelo baby boom segundo minha mãe), eu me recusaria a voltar à infância só para não tomar esse remédio infame – mas reconheço que só estou aqui por tê-lo tomado no passado para curar uma persistente anemia. Preferiria ressuscitar o Laboratório Catarinense e a folhinha do sagrado coração de Jesus! - Pensando bem, as décadas pregressas não foram tão desprovidas de graça assim. A vida se levava a esmo, a gente desaparecia como mariposa na hora de construir casulo.
Agradeçamos à ditadura pela adolescência movimentada que tivemos: era proibido falar mal dos militares, mas era também proibido falar bem deles. Todos achavam que, idos os milicos, chegariam as caravelas da civilização enfunando velas. Estávamos fadados a um futuro brilhante, Karl Marx seria presidente e Bakunin primeiro-ministro.
A música era muito boa, as mulheres ainda melhores, as festas, de arromba. Um pouco de sacanagem não fazia mal a ninguém. Como o ancião da Bíblia, o Noel do século XX, dark, hilário e imprevisível, surgiu numa simples peça de estudantes. Era o “dia da abertura”, quando as portas do alojamento feminino seriam arreganhadas e os homens invadiriam o prédio. Pelo menos era a profecia de um cara metido em batina e estola, auto-proclamado deão da solenidade:
- Abram-se as portas desse antro para que possamos adentrar!
- Vamos abrir! Vamos abrir! – gritavam lá de dentro.
Veio em seguida o comercial dos “absorventes vampiro – os que sugam até a morte”, depois uma versão mais do que explícita de Balancê de Gal Costa por um bando de moças assanhadíssimas:
- Eh, Balancê! Balancê!
  Quero transar com você!
   Sei que seu pau fica duro,
   Não adianta esconder!


O deão aspergiu a multidão com água benta e proclamou mais de uma vez que as portas seriam escancaradas. A turba masculina esperou pela graça de mãos espalmadas, mas nada aconteceu. Às onze da noite, como proclamava a norma, a algazarra se encerrou e todos tomaram o caminho de casa.
Quase uma década depois, Noel reapareceu. E em boa hora, diga-se de passagem. Descer a escada do auditório até o térreo não seria tarefa fácil para aqueles cabeças-ocas. Noel levou-se pela mão e, para disfarçar a maluquice geral, fez cabra-cega no meio do saguão, com rock rolando e tudo.
- Disseram que eu não tenho coragem de falar b.....! Pois então, b....!, b....!.
- B....! - berrou a multidão.
O deão de araque, mestre da cabra-cega, vivia a cavalo entre duas épocas, segundo sua própria narrativa, misto de ficção e realidade. Tinha feito parte das Brigadas Armadas Palmares - a famigerada Varpalmares da época da luta armada:
- Participei do congresso de Ibiúna, fui preso e torturado.
O congresso de Ibiúna foi em 1969, quando a UNE já tinha sido posta na ilegalidade pela ditadura militar.
Nos tempos pré-democracia, Noel tornou-se linha de frente da Libelu, a Liberdade e Luta dos Trotskistas, muito em voga nesse período da pré-história. Conhecia Deus e o mundo, tinha ido a Roma de boca, era filho pródigo de Guanhambi, na Bahia, segundo ele próprio me contou uma cidade onde os bodes falavam:
- Barnabééé!...
Guanambi, Bahia.
Na grande sacanagem que foi a volta ao mundo do capital na virada dos anos 90, Noel não resistiu.  Como os românticos que devem morrer antes do final, tombou na sarjeta silente, sendo encontrado por um guarda-noturno. Era no bairro de Santa Efigênia em Belo Horizonte. Na capela da Santa Casa de Misericórdia, só o cronista e as moscas para despedir-se dele. De uma janela imensa tombava um raio de luz - imaginei que seu corpo pequeno seria sugado para o além como em um filme de ficção.
Fazer cinema era fogo naquela época. Nada estava ao alcance de um clic.
©
Abrão Brito Lacerda

23 02 15

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