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VIZINHOS S. A.



             Fui tirar o carro da garagem e divisei um monte de entulho pelo retrovisor. Em frente ao terreno baldio, segundo lote à direita, pedaços de tijolos e cerâmica, restos de areia, cimento e brita. No dia seguinte, fiz a mesma manobra e o montinho tinha crescido com o acréscimo de alguns pedaços de madeira de demolição; no terceiro dia, apareceram troncos e galhos de plantas retirados do quintal de alguém e ali providencialmente despejado. O monte transbordou e se espalhou pela rua quando apareceram móveis velhos e portas comidas por cupins. Alguém aproveitou a chance e completou a pilha com papelão, sacolas plásticas e madeira de construção.
           Ao investigar o caso, todos puseram a culpa na prefeitura, a começar pelo vizinho do lado:
            - A caçamba da limpeza não passa há dois meses. A rua virou depósito de lixo. Que vergonha!
            - É verdade, senhor vizinho, é uma vergonha. Onde vamos parar?
            - A culpa é da prefeitura e da presidente – dize-me outro vizinho -, pois o país inteiro está assim.

            A voz do povo é a voz de Deus. Eles têm mesmo razão, a presidente tem culpa no cartório. Mas o verdadeiro culpado foi o Fernando Henrique: se seu governo não tivesse sido tão ruim, não teriam elegido a lula e esta não teria dado filhotes, dos quais todos estão presos, com exceção da atual presidente. Lula só é boa no “Spaghetti mar i monte”, receita secreta do restaurante italiano do meu bairro. Leva cação em cubinhos, mexilhões, camarões crocantes, anéis de lula e o legítimo spaghetti al dente. Faz-se acompanhar de vinho tinto seco Rocca Rubia, embora alguns prefiram branco frisante. Fora isso, lula é uma cachaça.
O jeito foichamar Scooby-doo e a turma da Mistério S. A., pois essa história de monte de lixo que cresce sem parar é coisa do outro mundo:
- Desmascarem os culpados por essa sujeira toda!
            - O Brasil não pode ser rebaixado ao quarto mundo, estamos muito bem no terceiro!
            E disse com meus botões: agora vai. Vamos dar o exemplo a todo este país.

            Mas nem a Velma xereta conseguiu penetrar a razão última daquele ato civilizatório, a saber: por que um povo suja as próprias ruas e se justifica acusando-se uns aos outros, embora os culpados tenham aparecido um a um?
            Ao puxarem a primeira máscara, apareceu o vizinho do lado, o do papo furado da caçamba. Ele se explicou:
            - Queria economizar no carreto e minha obra era urgente – disse olhando para o monte de detritos em frente a sua casa como se fosse uma obra do acaso.
            - A madeira tava dando cupim, ia comer meus móveis - explicou-se um vizinho do final da rua.
            - Os móveis tinham sido comidos por cupins – explicou-se outra vizinha, boa mulher, prestativa como tantos brasileiros gentis.
            O vizinho de frente, o construtor profissional, declarou após ter sido pego pela Daphne com a mão na massa, desovando os dejetos imprestáveis de sua obra interminável:
            - Só joguei umas “coisinhas” porque já tinha entulho.
            Outro vizinho, dono de outra construção, localizada na curva da rua, viu na sujeira uma ótima oportunidade de contribuir para a falta de educação coletiva. Por isso foi desmascarado pela Velma:
            - Precisava limpar minha casa para me mudar, mas mandei jogar o entulho em cima do passeio.
            - O passeio já estava entupido.
            - Então, não foi culpa minha.
            Teve gente que deu-se ao trabalho de trazer sujeira de longe, mostrando que esse comportamento é realmente epidêmico, mais difícil de combater do que o mosquito da dengue.         
             Enfileirados sob o sol implacável de Timóteo, os acusados ouviram a sentença dos lábios do chefe do departamento de entulho, subordinado à superintendência da coleta de lixo, órgão executivo da secretaria de limpeza pública:
            - O município não tem mais como fazer a coleta de entulho particular. Cada cidadão deve arcar com o ônus de sua remoção, contratando um profissional para esse fim.
            - Mas, e os impostos que pagamos?
            - Trinta por cento dos cidadãos não pagam IPTU e outros trinta por cento estão em dívida ativa.

            Os infratores conseguiram habeas corpus e vão cumprir a pena em liberdade. Enquanto isso, o monte de entulho que vejo pelo retrovisor não para de aumentar. Não será surpresa se qualquer dia desses um alpinista ou adepto de esportes radicais – ou mesmo o homem-aranha - subir pelo meu retrovisor.        

 ©
Abrão Brito Lacerda
01 03 18

Comentários

  1. Caro amigo e escrito. Dias desses D.Dil+ vai mandar por uma lona por cima do território e assumir a palhaçada. se não, só rindo, mesmo. Eu já te falei , é lei geral no país conhecida de A a Z, que brasileiro ama o Brasil, ama a seleção, mas não ama, nem respeita o brasileiro do lado.

    Dizem que o nome disso é cinismo que pode ser agravado com hipocrisia. Cinismo do poder público que se omite na prestação do serviço e na cobrança dos impostos e portanto é irresponsável e não zela pelo erário. Cínico porque administra mal e não propõe nada como solução. E, e não dá para aliviar com os sujões pois é hipocrisia dessa população porque sonega impostos e, tbém, nada propõe.

    Da mesma forma erram todos porque sem impostos não tem como pensar em limpeza, escolas, hospitais, polícia. semáforo, asfalto, prefeitura, prefeitos e vereadores. Todos estúpidos, improcedentes e contraproducentes. POr mim , meu amigo não boto fé em tal desconsertação de sabidos. Enquanto a gente vir gimbas de cigarros, latas, lixos, gente avançando sinal, na fila dupla, marcando lugar pra outro na fila de idosos, fortes empurrando fracos, crianças e velhos para disputar um banco duro num ônibus ou metrô- enfim todos desumanos e espertos demais, iremos de mal a pior .
    Seu caso requer solução beeeeeeeeeeeeim mais radical: retirar o retrovisor. è por causa dele que começou a encrenca. kkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  2. Caro amigo e escrito. Dias desses D.Dil+ vai mandar por uma lona por cima do território e assumir a palhaçada. se não, só rindo, mesmo. Eu já te falei , é lei geral no país conhecida de A a Z, que brasileiro ama o Brasil, ama a seleção, mas não ama, nem respeita o brasileiro do lado.

    Dizem que o nome disso é cinismo que pode ser agravado com hipocrisia. Cinismo do poder público que se omite na prestação do serviço e na cobrança dos impostos e portanto é irresponsável e não zela pelo erário. Cínico porque administra mal e não propõe nada como solução. E, e não dá para aliviar com os sujões pois é hipocrisia dessa população porque sonega impostos e, tbém, nada propõe.

    Da mesma forma erram todos porque sem impostos não tem como pensar em limpeza, escolas, hospitais, polícia. semáforo, asfalto, prefeitura, prefeitos e vereadores. Todos estúpidos, improcedentes e contraproducentes. POr mim , meu amigo não boto fé em tal desconsertação de sabidos. Enquanto a gente vir gimbas de cigarros, latas, lixos, gente avançando sinal, na fila dupla, marcando lugar pra outro na fila de idosos, fortes empurrando fracos, crianças e velhos para disputar um banco duro num ônibus ou metrô- enfim todos desumanos e espertos demais, iremos de mal a pior .
    Seu caso requer solução beeeeeeeeeeeeim mais radical: retirar o retrovisor. è por causa dele que começou a encrenca. kkkkkkkkkkk

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  3. Salut, John,

    Já mandei tirar o retrovisor, acho que você tem toda razão: não dá para olhar para trás, o negócio é mirar o futuro (grandioso) que temos pela frente.

    Um abraço,

    Abrão

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