sábado, 28 de dezembro de 2013

Memórias de um Sargento da Banda Filarmônica



            Lorde Sakyamuni, que viveu no século VI antes de Cristo, dizia que, ainda que o sofrimento seja inerente à vida, todos possuimos o potencial não apenas de superá-lo, mas também de convertê-lo em motivo de uma existência feliz.  Esse potencial ilimitado do ser humano não cessa de se revelar ao longo da vida, mas torna-se especialmente evidente em momentos de grandes angústias e dificuldades e em situações em que o ser conta apenas consigo mesmo. Por outro lado, bastar-se a si mesmo é tudo a que uma pessoa aspira, pois ninguém quer ficar na dependência de outrem para a execução de suas necessidades diárias. É para serem independentes que são educados os filhos e é por autodeterminação que lutam os idosos quando suas faculdades físicas e mentais começam a declinar.
            Sentado em sua poltrona marrom ligeiramente encardida, seu Alfa assiste a seu programa favorito na TV. Não se trata do “show da tarde” nem do “jornal das quatro”, mas sim do “shoptime”, cheio de produtos úteis e interessantes, como o multiprocessador Vavita, uma revolução no mundo dos alimentos. O multiprocessador Vavita é prático, fácil de usar e pode ser comprado em trinta vezes no cartão. Seu Alfa ergue as sombrancelhas ao ouvir a oferta anunciada pela garota-propaganda, ou melhor, senhora-propaganda. Anúncios de produtos domésticos não são como publicidade de aparelhos de ginástica – não precisam de uma rapariga milimetricamente em forma, movendo os glúteos em movimentos suaves de sobe e desce em cima de uma esteira ergométrica.
            O quarto é cheio de fotos e lembranças penduradas nas paredes. Em uma das fotos seu Alfa posa com a equipe de futebol do exército. “Eu era lateral esquerdo”, afirma com uma ponta de orgulho. Na clássica formação de alguns de cócoras e outros de pé ele aparece confiante e aprumado, deve ter sido um bom lateral. Em outra foto ele perfila com farda e capacete debaixo do braço. “Sou o do meio, na primeira fila”, diz com um viés de nostalgia.
- Era muito difícil a vida no exército?
- Tinha que levantar muito cedo, ter disciplina, andar com a farda impecável e as botas sempre engraxadas. Mas a vida de músico era melhor do que a de soldado raso.
            Tocou primeiramente na Banda Sinfônica da Aeronáutica, com noventa integrantes. Depois foi para o exército, onde tudo era mais dificil. “Meu amigo João Brás não tinha jeito para a música. Como não gostava de dureza, foi ser cozinheiro. Todo mundo pensa que cozinheiro de caserna passa o dia inteiro descascando batatas. Mas é o melhor alimentado da tropa, o que come primeiro.”
            - Deve ser concorrida a vaga de cozinheiro do quartel.
            - O menu é muito simples, conta mais a quantidade do que o sabor dos pratos. Há muitos auxiliares de cozinha também.
            O clarinete está cuidadosamente alojado no fundo de uma gaveta, dentro de um estojo preto com interior aveludado. Seu Alfa toma-o com gesto carinhoso, afinal foi o seu ganha-pão durante os longos anos em que passou mudando de Caxambu para Duque de Caxias, de Pirassununga para Pindamonhagaba. Ensaia um dos números de sua predileção: “Tiro ao Álvaro” de Adoniran Barbosa.  O fôlego não é mais o mesmo, mas as notas ainda são justas e executados no tempo certo.
            “Vida boa, havia muita camaradagem e brincadeira.”
O posto de sargento devia conceder certos privilégios e a despensa do quartel ajudava a alimentar a família numerosa. Havia também o trabalho eventual de ambulante, que garantia uns trocados a mais.
Hoje, todos se preocupam com sua saúde. “Mas não estou tomando muitos remédios. Só esse aí (Sinvasmax, comprimidos revestidos para o controle do colesterol) e aquele ali (Bissulfato de Clopidogrel para a pressão, uma drágea depois do almoço).”

            Infelizmente todos dão também palpites em sua vida. “Papai não pode dirigir mais, não tem mais reflexos, não sabe se defender”; “Vende o carro e põe o dinheiro na poupança”; “Tem de parar de ficar viajando como uma formiga, aquietar-se em casa”.
Tudo menos isso! Seu Alfa escapa para uma cachacinha na esquina. Ninguém é de ferro, muito menos as juntas enferrujadas de um aposentado.
Dizem que ele paquera as garçonetes, quando há alguma por perto. Mas isso é falso. O mais provável é que ele inspire respeito nas senhoras que atendem no bar da esquina. O Bar do Tião não é como os bares da zona chique da cidade, cujas atendentes desfilam entre as mesas. E há   outra diferença ainda maior, só notada no momento de pagar a conta.
            Há muitas pilhérias motivadas pela aparente ingenuidade do seu Alfa, a qual se acentuaria após a primeira dose e as subsequentes. Como esta: a família tinha alugado uma casa de montanha, nas cercanias de Ouro Preto, um paraíso de cachoeiras e belas paisagens. Nessa época já era grande a preocupação com o estado do seu Alfa, pois ele havia passado por uma cirurgia de ponte de safena e alternava os antibióticos com doses religiosas da branquinha. No entanto, ninguém conseguia fazer o vovô comer conforme a receita médica e até eu me envolvi na história. “Tem que comer, seu Alfa, o corpo precisa de proteína.” Quando se fez a chamada para o jantar, que constaria de piaba frita, arroz, salada e feijão tropeiro, encarregaram-me de ir buscar seu Alfa, porque ele precisava comer. Encontrei-o em um bar ao lado da igreja, curiosamente um barzinho com uma porta basculante, tipo saloon. Empurrei-a e lá estava ele, cotovelo esquerdo apoiado ao balcão e braço direito levantado, contemplando o copo recém-esvaziado como se fosse o cano fumegante de um colt. “Seu Alfa, vamos, o senhor precisa comer”, declarei em tom de porta-voz, quase uma ordem. Então ele enfiou os dedos polegar e indicador em um dos bolsos da jaqueta, retirou uma piabinha frita e levantou-a diante dos meus olhos: “Aqui está!”
            Fazem bem os filhos em proibi-lo de dirigir. Eles devem conhecer isso melhor do que o médico do Detran, que despacha um paciente a cada dois minutos e habilitaria até mesmo um elefante a guiar, caso elefantes precisassem de carteira de motorista. O maior perigo é que seu Alfa se esqueça que está dirigindo e entre na passarela de pedestres pensando que é viaduto. Não pense que isso está longe de acontecer, veja: Preparativos de natal, nozes, peru e os presentes do amigo oculto. Seu Alfa, que não tem pressa nenhuma, resolveu comprar o presente de última hora, então já sabe: “Quem vai levar o papai pra comprar o presente?”. Acabou sobrando para mim, o autor destas linhas; então, prestativo como sempre, chamei o elevador, abri a porta e aguardei  que seu Alfa entrasse. Apertei o botão do térreo e notei que ele estava me olhando de forma intrigante. “Você está indo aonde?” – perguntou-me com surpresa.
            Lorde Sakyamuni, de quem falei no início desta história, revelou que aquele que mantém uma conduta reta e justa aumenta a proteção das entidades celestiais, simbolizando as potencias criadoras e protetoras do universo. Há um deus celestial sentado em cada um dos nossos ombros, para nos proteger e livrar nos momentos mais críticos.
Como os deuses que adornam a postura do seu Alfa enquanto ele se assenta em sua poltrona marrom, ligeiramente poída no encosto e nos braços. Depois do almoço, sua única ocupação é aguardar o jantar, assistindo ao seu programa favorito. Hoje a senhora-propaganda promove a supergrelha Fast Steam: “Com Fast Steam, preparar um suculento bife ou aqueles legumes na manteiga virou brincadeira. Você não tem tempo para cozinhar? Acha que comer bem é um privilégio? Chegou Fast Steam. Disponível nas cores cobre, prata e ouro. 20 X no cartão...”
© Abrão Brito Lacerda


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