sábado, 23 de novembro de 2013

A MORTE DO VENDEDOR DE PICOLÉ

(imagem: www.humortalouco.com.br)

                   Esta cidade tem tanta coisa interessante! Um ar que se deposita como pó cinza escuro sobre os móveis, uma obra em cada esquina, muitas mulheres bonitas, vendedores e compradores de todos os tipos, até policiais. Todos trazem sua contribuição ao bem comum e dele se beneficiam, mas alguns se beneficiam mais do que trazem, como os larápios e os políticos. No caleidoscópio da malha social, vários tipos se cruzam e interagem, cada um buscando o seu próprio caminho. A cidade não é mãe, apenas madrasta: pode recompensar ou punir, mas jamais terá sentimentos. O chão onde se pisa é responsabilidade de cada um.
            O chão em questão é o mesmo para muitos, alguns mais fortes, outros mais fracos. Automóveis, bicicletas, caçambas, pedestres. E vendedores ambulantes, entre os quais viceja a dura luta que as classes populares têm que encarar no dia a dia:
Um verdureiro fabricou sua banca segundo o modelo de um carro de bois, com rodas enormes e uma haste por onde a mesma é puxada através das ruas. Ele mesmo é o boi. Outro transformou uma velha bicicleta em uma eficiente pick-up: consegue transportar na garupa, ampliada através de tubos soldados, as mercadorias de uma loja completa, que ele dispõe onde quer que haja potenciais clientes. O menino engraxate produziu uma caixa para seus instrumentos e um apoio para os pés dos fregueses a partir de restos de madeira coletados em uma marcenaria.
            “Estou trabalhando, não estou roubando ou usando drogas”, respondeu-me ele, com orgulho, quando interpelado sobre a natureza do seu ganha-pão. Outro me disse que “a justiça é feita para todos, mas a prisão é só para os pobres”, querendo com isto significar que, enquanto pobre, deve reger sua vida pela mais estrita honestidade.
Não bastassem as dificuldades habituais, os ambulantes agora poderão ser taxados pelo erário público, como qualquer outro negócio. A publicação da decisão de parte da prefeitura gerou um motim que perturbou todo o centro da cidade, na primeira operação linguição patrocinada por carrinhos de ambulantes da história!
Entre os ambulantes, a classe mais democrática é a dos vendedores de picolé. Tem vendedor de picolé velho, menino e mulher, mas todos com algo em comum: cruzam a cidade de norte a sul, lesta a oeste, empurrando seus carrinhos.
 Cada um tem sua forma de atrair a freguesia:
- “Ó o picolé! (Fom! Fom!). Ó o picolé! (Fom! Fom!)
- “Picolé Marão, o melhor da região!”
- “É o picolé!!! ...Picolé da Sônia!!!
Repare esse senhor que não possui o braço direito e empurra o carrinho com uma mão apenas. Meu sexto sentido diz que ele perdeu o braço em um acidente, possui uma aposentadoria por invalidez, mas está longe de se sentir inválido.
Repare o rapaz com elevado grau de deficiência visual, que sai às vezes só, às vezes acompanhado. Para escolher o sabor solicitado pelo cliente, ele aproxima o rótulo do rosto, como se fosse lambê-lo. Faz o mesmo para conferir o dinheiro recebido e fazer o troco.
Repare a senhora de ar alegre e bonachão, que para na esquina para contar piada e trocar prosa com os policiais. Ouça o seu pregão: “- Picolé Boaxá! É o picolé Boaxá! Melhor não há!”
(imagem: www.alagoastempo.com.br)

Repare ainda... bem, este não pode mais ser reparado porque é passado. Era aquele que, nas tardes de sol, marcava passagem com uma cantilena intermitente:
- Ó o picolé, picolé, picolé!...
 Avançando do fundo da cidade, meramente audível entre o latido dos cães e a musica do vizinho; ampliando-se na medida em que se aproximava da casa; e distanciando-se novamente até dispersar-se no final da rua.
Era pequeno, usava sempre chinelos de dedo, bem gastos nos calcanhares, e protegia a cabeça com um chapelão de palha que parecia proveniente da Ilha de Marajó. Estava presente no bairro de quarta a domingo, assim como em outras partes da cidade. Dezenas de quilômetros percorridos a pé, idas e vindas – e paradas quando alguém gritava: “Ê picolé!?”.
Chamava-se Nivaldo, seu Nivaldo, vim a saber depois. Tinha sido trabalhador rural, vigia e agora complementava a renda familiar vendendo picolé.
Seria um fato banal demais para se tornar digno de nota, caso aquele pregão não estivesse tenazmente incrustado em minha memória. Como o primeiro choro do filho, as flores da primavera (que nesta cidade chegam no final do inverno) e as tempestades de verão.
Após algum tempo sem ouvir o apelo chamativo e lépido: “Ó o picolé, picolé, picolé!...”, decidi indagar ao meu redor. A resposta veio de uma moradora da parte alta da cidade: Ao voltar de mais uma jornada de trabalho, seu Nivaldo não resistiu ao esforço de uma subida, justamente a última, e tombou sobre o asfalto quente, a trinta metros de casa. Quando foram socorrê-lo, estava morto.

 © Abrão Brito Lacerda





2 comentários:

  1. Bravos, meu camarada. Sempre afiando esse olhar observador sobre as práticas sociais cotidianas dos trabalhos e dos dias enormes dessa gente NOSSA, de quem ninguém se lembra e assim ressignifica estas vidas para nós seus leitores.e com isso um mundo não escrito agradece por permanecer vivo entre nós - de nós pela leitura e de você pela escrita.. Bravíssimo...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gratíssimo, bravo John. Você que é das letras sabe que não importa o tema, o que conta é o conteúdo. Além disso, em um mundo tão mediatizado, internetizado e robotizado parece que tudo se resume aos barulhos da superfície. Mas lá no fundo tudo continua na mesma. Prefiro ser um escritor anônimo independente a ser um boçal repetente.

      Excluir

Gostaria de deixar um comentário?