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A SEREIA DO TÂMISA

Ela emprestava seu sorriso doce a cada foto, a cada moeda depositada no cofre-estojo.

         A noite caía promissora sobre o South Bank, com ventos ligeiros soprando no sentido leste-oeste e algumas nuvens carregadas no céu, coisa habitual para a capital inglesa. Sob os últimos raios de um sol incerto de verão, muitos turistas caminhavam descontraidamente ao longo do rio, provenientes do London Eye, um dos últimos ícones arquitetônicos implantados na paisagem dessa cidade tão moderna quanto antiga, tão calma quanto agitada, tão melancólica quanto irônica; tinham caras satisfeitas de quem pôde desfrutar de uma vista de 360 graus dos tetos da metrópole.
A roda gigante, com suas cápsulas de vidro e seu ritmo de caramujo, fazia o último giro da jornada, pois quando o sol se põe e as luzes se acendem, é tempo de buscar outras aventuras.

O London Eye no South Bank.
Eu acabara de fazer uma ótima refeição no Azzuro, um charmoso restaurante localizado sob as arcos de uma antiga estrada de ferro e o vinho rosê copiosamente sorvido fazia-me flanar do lado oposto ao Big Ben, com a cabeça cheia de imagens e vazia de preocupações. Em três dias de Londres eu já sabia que se deve evitar a comida inglesa a qualquer custo, a menos que se suporte o abominável fish & chips (peixe frito com batata idem) ou tenha uma carteira recheada de libras para pagar por um English beef, o que não era o meu caso. Tudo em Londres é muito inglês, menos a comida, que pode ser italiana, indiana, paquistanesa, japonesa ou até mesmo brasileira para quem tempo de ir até a Oxford Street. Mas o tempo é uma abstração quando a emoção nos faz viver um século em um minuto e a vida se recicla, reunindo os três tempos da existência.
Debrucei-me sobre a balaustrada e contemplei o rio: alguns barcos deslizavam através das águas calmas, produzindo pequenas ondas, que cintilavam como feixes multicoloridos pelo efeito das luzes refletidas pelas fachadas. Eu não tinha um destino certo, poderia encontrar uma musa por ali, entrar em um pub e experimentar um pouco da cerveja local ou simplesmente quedar-me como tantos outros em um banco e ouvir a música de alguém, vindo de algum canto, tango, violino ou rock and roll. Uma musa, pensei, será difícil entre essas moças muito brancas, de pernas longas e charme operário, pisoteando seus sapatos altos com pouca intimidade.  Foi então que ouvi um solo de cordas – de onde vinha? – cujos acordes soavam-me familiar.
Calibrei os ouvidos como quem confere as instruções de um GPS e fui na direção identificada. Um bar recém-aberto servia coquetéis verde-escuros enfeitados por uma cereja espetada na ponta de um palito. “How much?”; “Seven pounds.” Preço razoável para Londres. “One, please.” Era um barzinho “takeaway”, você compra o drink em um copo descartável e sai bebericando como quiser, desde que não tropece e caia dentro do rio.
Ao cair da noite, um blues bem inglês.
Fui atraído como as crianças da história do flautista de Hamelin. Havia um clima de descontração e fantasia, um blues bem inglês, ao mesmo tempo decadente e digno. Vários artistas se apresentavam, às vezes tão próximos que podia-se ouvir mais de uma música ao mesmo tempo. A alguns passos do London Eye, lá estava ela, sentada sobre um banquinho dobrável, tocando bandolim - e a música...
Meu Bach, era Deus!... Desculpe: Meu Deus, era Bach! O sublime Johann Sebastian, cujas melodias deveríamos ouvir de joelhos em sinal de gratidão. Algo assim:
Tan
Tan ran ran ran ran...   ran ran ran ran...
Ran ran ran...
Ran ran ran!
Tão conhecido que soa banal em casamentos e concertos de câmera.  (Ok, leitor, chega de mistério, estou falando do “Airoso” da Cantata 156).
Com as pernas cruzadas, de costas para o rio e de frente para o Jubilee Gardens, ela emprestava seu sorriso doce e ao mesmo tempo triste aos flashes dos turistas, enquanto era vista com relativa indiferença pelos londrinos. Com o Tâmisa, o Parlamento e o London Eye como moldura, inclinava-se para cada moeda depositada no estojo do seu instrumento, estrategicamente colocado à sua frente. E o turista feliz levava sua imagem para o outro lado do mundo.
O Parlamento e o London Eye sobre o Tâmisa.
Após ouvi-la por alguns minutos, decidi que era chegada a hora de pagar pelo show e dirigi-me ao caixa-estojo. Segurei uma moeda hexagonal entre os dedos, mas, antes de depositá-la sobre o fundo negro aveludado, conferi o conteúdo do mesmo (eu receava ter que relatar isso na posteridade): muitas moedas brancas de 50p (penny, o centavo inglês), várias libras amareladas, alguns euros intrusos, até mesmo notas, e outros difíceis de identificar, talvez yenes japoneses ou rublos russos. A mais perfeita democracia monetária, uma lição para as nações em guerra. Ela abriu um sorriso que lhe iluminou o rosto e me comunicou muitas coisas no olhar: era de Watford ou Northwood, na parte norte da cidade, estudante de música ou desempregada, solteira ou sonhadora, mas não estava ali por acaso.

Ela me comunicou muitas coisas no olhar.

       Não sei se foi Deus, desculpe, Bach, a tarde ou o drink, mas eu faria tudo outra vez, juro que o faria: as balaustradas pintadas de verde-inglês, acinzentado e tirado para o azul, os reflexos que dançavam na superfície da água, a sereia que tocava... e da qual eu me distanciava na medida em que seguia em direção a Waterloo Bridge, para o metrô ou talvez o próximo drink.
A cidade ainda tinha muito a oferecer.

©

Abrão Brito Lacerda




Comentários

  1. Muito bom o seu texto. Também não pude deixar de enviar um comentário sobre a sua crônica "Mais velha do que eu", relatando uma breve visita que eu e minha esposa fizemos a sua mãe. Um abraço. Vinícius.

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    Respostas
    1. Olá, Vinicius, é um prazer vê-lo por aqui novamente. Respondi ao seu comentário sobre a "Crônica mais velha do que eu" por e-mail. Percebo agora que você não o recebeu. Vou reenviar. Inscreva-se no blog como membro na rubrica "Faça parte deste blog". Até breve.

      Excluir

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