domingo, 3 de março de 2013

DE PERFUMES E ASNEIRAS




Falemos então de dois grandes poetas brasileiros. Manuel Bandeira, um dos meus favoritos, sobre o qual não me canso de refletir (ver minha postagem de 2 de setembro de 2012: “A Melancolia de Manuel Bandeira") e Castro Alves, um poeta relegado aos compêndios de literatura brasileira e mais conhecido pelo nome que emprestou a ruas e praças.
Ao pensarmos em Castro Alves, pensamos no século XIX, um período histórico ignorado pela maioria e considerado chatíssimo pelos estudantes, que são martelados com aqueles textos românticos, onde o beijo acontece na página 50 e o casamento só lá pela página 200. Culpa dos manuais de literatura.  
Mas não estamos aqui para chatice, então vamos ao fato. Bacanal é o poema de abertura do segundo livro de Manuel Bandeira, intitulado Carnaval, publicado em 1919 e um dos precursores do movimento Modernista:

BACANAL

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!

(1918)

Baco é o nome romano do deus grego Dionísio (que nos deu o adjetivo dionisíaco), deus do vinho, da embriaguez, dos excessos, especialmente sexuais, segundo a Wikipédia; Vênus (ou Afrodite, do nosso “afrodisíaco”), deusa do amor; Momo, personificação do carnaval; enfim, Evoé, o brado de invocação a Baco nas orgias antigas.
Manuel Bandeira

Portanto, o poema é um convite ao prazer, ao vinho, ao sexo e à música, ao desregramento, enfim... à orgia. Mas, ironicamente, ao escrever o poema, que surge no livro datado, tal qual publicado acima, o poeta estava triste e recluso, havia perdido a mãe e a irmã que dele cuidava, provavelmente não bebia nada mais do que água e sem dúvida não tinha nenhuma Vênus compreensiva por perto para aplacar-lhe o desejo.

Mas o poema é um engenho de palavras e a arte não foi feita para retratar o real, senão para substituí-lo por algo mais lúdico e representativo das sensações humanas.
Vamos agora ao poema de Castro Alves. Ele se intitula Mocidade e Morte e algumas estrofes estão transcritas abaixo:

Mocidade e Morte

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

[...]

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! – brada-me o talento n’alma
E o eco ao longe me repete – avante –
O futuro... o futuro... no seu seio
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após – um nome do universo n’alma
Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária: -
Teu Panteon – a pedra mortuária!

O poema de Castro Alves foi publicado em 1870, em tempos da luta abolicionista no Brasil, à qual ele se aliou. Ele é marcado por um dramático embate entre vida e morte, ideal e frustração, ascensão e queda. Possui um tom elevado, um tratamento solene do tema. O contrário do poema do Bandeira, que é mundano e sarcástico.
Castro Alves

Bandeira sem dúvida tomou emprestado o mote de Castro Alves, mas “quero viver, beber perfumes” converteu-se em “quero beber, cantar asneiras”. Enquanto o romântico aspira à grandeza e à purificação, o moderno deseja regalar-se com os frutos da terra, no mais puro hedonismo: de posse do vinho, sorvê-lo até a embriaguez; ao ter uma fruta madura, comê-la; ao conhecer uma mulher atraente... convidá-la para o chá.
Pois esta é a essência da modernidade, e continua sendo mesmo em nosso mundo virtual, que pretende substituir a experiência direta por uma imagem interfaceada pela máquina. Temos pressa e tudo é agora, ao alcance de um clic.  O fundamental é não se entregar a essa substituição com a fatalidade do poeta baiano. É preciso ser irônico, aceitar a fragmentação permanente das coisas, beber, gozar sem se deixar levar. Em suma: ser moderno e não romântico.


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© Abrão Brito Lacerda 2013

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