sábado, 21 de abril de 2012

ZIRCÔNIA (1ª parte)

I




        Era uma terra de luz e felicidade.  Temperatura controlada em torno dos 22 graus, o sol era um assalariado e poderia se aposentar que ninguém notaria. As células fotozínicas tinham sido inventadas havia dois séculos, o sol tornara-se dispensável. A convocação do grande Concílio, reunindo as principais inteligências do século XXVI, enchia a todos de entusiasmo. A era da luz plena chegara enfim a toda a irmandade e a escuridão seria apenas um registro nos arquivos históricos.
        O Concílio haveria de decidir as diretrizes para os próximos séculos, as pílulas emuladoras da nova disciplina (luz prateada, têmpera zinco), o registro das (raras) doenças, os mortos precoces e os recordes de longevidade, que andavam na casa dos 150 anos. 

        Vieram de troylers, balões pressurizados e netplanes, forma mais parecida com nossos automóveis, só que não usavam estradas, um meio de transporte abolido no final do século XXIII.  Os troylers eram cápsulas metálicas dotadas de propulsor a hidrogênio. Totalmente silenciosos e não poluentes. Tomavam-se nas praças e principais pontos públicos, pois só os netplanes eram meios de locomoção privados. Os balões pressurizados eram igualmente públicos. Podia-se ir de um, dois, até cinco passageiros por unidade, que se dobravam totalmente e cabiam numa bolsa portátil. Ao fim do percurso, eram deixados num posto de controle, onde eram revisados numa linha automática e recolocados em uso. 


        O último assassinato fora há 175 anos, mais de um século após a abolição das armas. Não havia templos para se fazer orações, pois as pílulas espirituais propiciavam saciedade mental e neutralizavam os conflitos existenciais.
        Com efeito, as pílulas eram tomadas desde o nascimento, em rigorosas prescrições diárias. Garantiam saúde, conforto e bem estar. A partir da puberdade, algo em torno dos 16 e 18 anos (16 para os Zenits e 18 para os Alphas), passava-se às pílulas amarelas, as quais só eram abandonadas em torno dos 30 anos, após os ritos de passagem que marcavam o início da idade adulta. Ninguém tinha pressa de amadurecer, já que a vida produtiva durava em torno de 80 anos e a velhice só se fazia sentir depois dos 100.
        Todos tinham o sorriso A de “Accomplished” estampado na cara (Accomplished Zenit e Accomplished Alpha). Os que não o tinham habitavam o Tambling, onde não se respeitavam as pílulas e o Concílio.
        O Tambling era o reino dos sorrisos remanescentes, como o sorriso G dos “Gated”, tribo surgida a partir do 23º milênio, formada por aqueles que defendiam a organização social em círculos fechados e independentes; o sorriso U dos “Up”, povo que fazia uso de pílulas não prescritas e esmerava-se em artes visuais e cênicas, proibidas desde os tempos do Great Gig in the Sky, do qual saberemos depois. O Great Gig marcou o fim dos festivais de niddle music, partículas sonoras que se tomavam sob a língua; havia ainda o sorriso T dos “Thriller” ou “Kamikaze”, que se aventuravam no território A, onde era caçados por farejadores eletrônicos, com hiper-sensores anti T; o sorriso Z dos “Zanner”, controladores das antenas inter-modais, capazes de desmaterializar e transportar uma carga a qualquer ponto da galáxia - o grande saber que rivalizava com o do Concílio; enfim os sorrisos S e B, respectivamente dos “Smart”, magos das equações elípticas e “Booster”, seita defensora do retorno da ciência ao centro das decisões do Concílio – portanto, uma ala dissidente. 

        O sinal luminoso auto-acionou-se três vezes e a têmpera zinco penetrou em todos os pulmões, colocando o povo de Euskeria na mesma sintonia. Seus corpos resplandeceram de luz forforescente, como vaga-lumes gigantes.

II

        - Gut-nát-euska-rôl, iniciou os trabalhos o Deão Supremo, na língua que então se falava, o Euskeria, resultante da fusão de todas as línguas vivas quando da consolidação da Era da Luz Plena. As Diretrizes Cumpridoras, continuou o Deão, são a razão de ser de nossas existências, as existências “Accomplished” dos filhos da luz. O que a última geração do Concílio determinou, foi cumprido à risca, a não ser para os Tamblings, que insistem em viver na escuridão.


        E, erguendo o cálice na direção do Gut-nah-mah (não um altar, mas um centro emissor de luz), proclamou:
        - Declaro abertos os trabalhos da Era Zircônio, cor têmpera zinco, substituindo o ciclo anterior.
        Zenits e Alphas se ergueram a mais três flashes do sinal luminoso auto-acionado, nova liberação de têmpera zinco:

        - Gut-món-dais-tun!, ecoou pela esplanada e através da galáxia inteira o canto de aceitação do povo A.
        - O Ciclo Safira, cor púrpura, levou a sabedoria do Concílio a toda a galáxia. A luz de Zircônia pode agora viajar no tempo.


        Onde quer que estivessem, os defletores portáteis, definitivamente acoplados ao tubo auditivo e ao cerebelo, os colocaria em sintonia. Respiraram profundamente a têmpera zinco em todas as latitudes, a era da luz plena não permitia o mínimo desajuste de freqüência.
        - A Era Zircônio, deverá trazer a consolidação da longevidade para além dos 150 anos. Isto representará um avanço maior do que o dos últimos três séculos, quando o limiar dos 140 anos perdurou mais do que o recomendável. A eliminação dos Tamblings deverá ser completada, para que a cor zinco prevaleça.
        - Gut-món-dais-tun!
        - Vida eterna ao povo A!
        Alphas e Zenits assentaram-se, num movimento milimetrado, praticamente virtual, suas diferenças não eram mais perceptíveis a olho nu.
        Andróides que se deslocavam como balões infláveis – padrão estabelecido na Era Safira, cor púrpura – emitiam raios que tocavam a fronte dos AAs, Accomplished Alphas, e AZs, Accomplished Zenits e faziam expandir a energia, absorvida por todos, conectados a seus defletores portáteis através do sistema solar.


        - A longevidade deve governar cada célula de nosso sistema. Ela garante a harmonia do corpo trabalhador, a eficiência das pílulas da função servidora, a regulação do aparelho reprodutor, a sintonia, enfim, com a malha onipresente da têmpera zinco.
        - Gut-món-dais-tun!
        - Sintonia! Sintonia! Têmpera Zinco!
        - Podem tomar suas pílulas de furor.
        Os andróides conferiram a função servidora de cada um dos delegados, a luz ultra-violeta podia ser liberada.


        - Genk-ukla-toish! Podem ganhar suas cápsulas de programação.
        - Poderemos desencadear a função reprogramadora de DNA para aqueles de sorrisos diferentes?
         A indagação fez tremer Zircônia.
        Ativar a função reprogramadora de DNA – medida máxima de controle só aplicada nos últimos séculos contra o povo de Tambling – significava reunir o máximo de energia que cada defletor portátil podia reunir. O risco de esgotar a função era grande, quase todas as perdas da Era Safira antes dos 140 anos se deram na mobilização individual desta função corretora. Os Tambling e sua carga F-Positive eram praticamente a única vibração capaz de perturbar a ordem da têmpera zinco.
        - Submeteremos a indagação ao Concílio, mas antes vocês devem ganhar suas cápsulas.
        Novo desfile dos andróides em balões infláveis, inalação profunda de têmpera zinco, nova medição da função servidora.


           - O Concílio autoriza o desencadeamento da função reprogramadora de DNA contra o povo Tambling. Todos receberão os novos códigos atualizados para identificarem aqueles de sorrisos diferentes.
        - Gut-món-dais-tun!
        - Sintonia! Sintonia! Têmpera Zinco!




(Continua Sábado 05.05.12)

(Abrão Brito Lacerda)

2 comentários:

  1. Continue logo, éin Abrão. Tá ótima essa sua viagem cibernética.
    Grande abraço!

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    1. Gracias,

      prometo continuar próximo sábado 28. O que poderão os Tamblings fazer diante do poder do Concílio?

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