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UM RIO: ESTE

Banhando-me na foz do Rio Jequitinhonha, em Belmonte, Bahia.                Tendo nascido no município de Itarantim, no Estado da Bahia, e de lá saído quando começava a andar, não guardo nenhuma lembrança da minha terra natal.   Apenas uma certa nostalgia, que jamais desmistificarei: melhor manter o sítio numa aura mágica, como uma espécie de origem perdida que me impulsiona a estar buscando sempre.             Nasci em Córrego dos Trabalhos, mais precisamente, um lugar que não consta do mapa. Meu pai andou um dia inteiro a cavalo até chegar ao tabelião mais próximo, que ficava em Salto da Divisa, cidade situada no lado de Minas Gerais, nas margens do Rio Jequitinhonha, para me registrar. Deduzo que o dito córrego do meu local de nascimento desemboca em algum rio, que por sua vez deságua no Jequitinhonha como afluente, ligando minha vida de algum modo a esse mítico rio. Nascen...

MILHO VERDE, MINAS GERAIS

A vida tranquila, o encontro com a natureza.               Chegamos a Milho Verde em uma tarde de inverno, logo depois da Grande Fossa que adveio em conseqüência da derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo. Assistimos ao jogo, isto é, à hecatombe em uma pousada de Diamantina. São tempos de férias e de copa e há muitos estrangeiros viajando pelo país. Na pousada, os franceses, que assistiram ao jogo junto conosco, estavam torcendo pelo Brasil, foi o que disseram antes do jogo. Eles estavam mais confiantes do que nós, que já admitíamos de antemão a possibilidade de uma derrota do Brasil.             Havia também alemães. Esses, por um explicável(?) pudor germânico, preferiram ficar em seus apartamentos. Não pareciam muito ligados no jogo, pelo menos antes desse começar. Depois do apito final, e com a cidade de Diamantina mergulhada no silêncio, vi-os no lounge trocando mensagens fr...

CONVERSA DE ÍNDIO E MULHER BRANCA

                   Tam! Taram! Tam! Antes de instalar a lei da selva, índio enviou mensagem à presidenta: “Querer é poder, diz homem branco. Indio quer, índio pode. Igualdade entre povo tapuia e os pelotudos” (era assim que se referiam aos homens brancos). Manifestaram-se diante do congresso nacional e nos estádios de futebol, dançaram o huka-huka, pintados para a guerra.          “Indio quer falar com homem branco nas terras do povo Xamainam”. Não respeitavam Brasília e seu Lago dos Cisnes, por isso a conversa aconteceu no Parque do Xiang, próximo a Manaus (informação que pode ser facilmente verificada em um mapa).          O grande cacique branco levantou o cetro da sabedoria:          - O quê índio quer?          - Indio qué muié.      ...

BRASIL FUTEBOL CLUBE

(imagem: focusfoto.com.br)             Naquela época, a televisão ainda engatinhava e o rádio era o grande meio de comunicação de massa. Jornais não havia no lugar e, se houvesse, faltariam leitores. Cinema, só mesmo o que os meninos inventavam, uma película de plástico, recortada e colada em tirinhas, sobre a qual se desenhavam, a caneta esferográfica, aventuras dos heróis das fitas de cowboy. Entrada: 10 palitinhos de fósforo. Ainda assim havia filas. Quando a Copa do Mundo começou, as transmissões soavam distantes, pareciam vozes de outras galáxias ecoando através do espaço sideral. Nas ruas de terra batida, brincávamos, tentando imitar os lances contados e recontados pelos cronistas. Suprema democracia da infância: lado a lado jogavam Müller, Pelé e Bob Moore! As bolas de plástico já existiam, não precisávamos mais de bolas de meia. O único problema é que o plástico rompia-se facilmente em atrito com o chão á...

PÁSSAROS ENGAIOLADOS

              Desci na Estação Châtelet, na Rive Droite, margem direita do Sena, com destino ao mercado de pássaros que tradicionalmente se abre aos domingos no centro de Paris. Eu havia decidido por uma abordagem mais prudente desde que, na véspera, levara uma carreira de umas putas dos lados do Boulevard Saint-Martin. Tudo porque eu, turista afoito, bati uma foto um tanto  à la legère , sem pensar. Eu Explico:             Na Rive Droite, bem pertinho do centro, tem uns bairros populares muito interessantes. Por ali se cruza com estudantes, operários, turistas e imigrantes de variada plumagem. À medida que eu subia a Rua Montorgueil, a paisagem mudava subitamente: ora uma profusão de restaurantes, ora um mercado popular, ora umas mulheres exóticas - clic, clic, clic. Inocentemente virei uma esquina e entrei numa rua onde se praticava a venda do corpo, ofício antigo. Havia mais ti...

BACK IN 1985

            No início de 1985, os estudantes João Batista, de Matutina e Alberto, de Montes Claros, atravessaram o portão enferrujado que encerrava precariamente as dependências do MOFUCE – Movimento Fundação Casa do Estudante – no Bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Eles tinham como missão investigar as condições do local, que havia sido designado para invasão em reunião do Diretória Central dos Estudantes da UFMG, acontecida na véspera.             O lugar encontrava-se em péssimo estado. Ele servia de ponto de apoio para moradores de rua e afins, que o utilizavam como privada, depósito de bugigangas e motel. Os banheiros dos primeiro andar, únicos concluídos, estavam depredados e o mato tomava conta das áreas externas.              Alguns dias mais tarde, foi efetivada a ocupação do prédio, uma...

CHEZ LOUISETTE

            O mercado das pulgas nos ensina a ver o mundo de outro modo.           Uma cidade se conhece por suas ruas e sua gente, pelo que se ouve e se vê e também pelo que se cheira e se come. Por isso, quando viajamos, é importante ir além dos monumentos, buscar encontrar as pessoas comuns, experimentar os pequenos prazeres e arriscar o imprevisto. Bancar o transeunte, o intruso, o estranho, talvez. Em Paris, há inúmeros programas que nos permitem participar da vida local, fazendo o que os parisienses fazem, desde que conscientes de que a altura do nariz é proporcional ao status do lugar. No centro histórico, onde há mais turistas do que nativos, quase não se nota isso, afinal, é tudo uma questão de mercantilismo, comprar, pagar, ir-se, talvez para nunca mais. Mas, onde a multidão raleia e as trocas interpessoais tornam-se mais evidentes, isso se percebe claramente. O metrô funciona bem até as 23:30, quando passa...

TSUNESSABURO MAKIGUTI: A EDUCAÇÃO COMO CRIAÇÃO DE VALORES

                Mais conhecido como fundador da Soka Gakkai, sociedade laica japonesa que atua pela promoção da paz, cultura e educação, Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944) teve uma vida intensa, pontuada por momentos dramáticos. A começar por sua origem, no seio de uma família pobre do noroeste do Japão. Aos três anos de idade, foi abandonado pelos pais após sua mãe tentar suicídio, atirando-se com ele nos braços no mar do Japão. Foi adotado por um tio, com o qual viveu até os 14 anos e, posteriormente, foi morar com outro tio. Começou a trabalhar cedo e, com grande dedicação, concluiu o curso normal, tornando-se professor primário e também diretor de escola, função que ocupou por mais de vinte anos.             Foi das anotações sobre suas experiências didático-pedagógicas que surgiu o seu segundo livro, Soka Kyoikugaku Taikei ( Sistema Pedagógico de   ...