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Mostrando postagens com o rótulo História

A ARCA DE NOEL

(Imagem: www.curiosidadesgerais.net) Dizem que, nos tempos de Noé, bicho valia tanto quanto gente. Esta é uma causa justa, razão pela qual todos deveriam ler a Bíblia. Mas Noé também foi conhecido por sua longevidade – e dizem que naquela época os homens viviam muito, coisa de séculos. Adão teria vivido 931 anos e Matusalém, 969. Adão teria sido o pai de todos nós, o que se explica facilmente, tendo ele vivido tanto tempo. Matusalém ganhou uma palavra com seu nome. A gente mesquinha vive menos de cem, o que para alguns é pouco e para outros é muito, por incrível que pareça. Quem vive no mundo da Internet não imagina a chatice que era ser jovem no passado. Ainda que os avós enalteçam as maravilhas do Jeep Willys e o óleo de fígado de bacalhau ou Emulsão Scott (verdadeiro responsável pelo baby boom segundo minha mãe), eu me recusaria a voltar à infância só para não tomar esse remédio infame – mas reconheço que só estou aqui por tê-lo tomado no passado para curar uma persisten...

SETE SURPRESAS

A bela igreja matriz de Sete Lagoas, da primeira metade do século XIX. Embora tenha morado por dezoito anos em Belo Horizonte, nunca havia visitado Sete Lagoas. Fi-lo nestes dias de fim de ano e muitas reflexões resultaram do que era para ser uma simples viagem turística. Em primeiro lugar, porque hoje é praticamente impossível viajar pelo Brasil sem incidentes relevantes, com estradas cheias e centros urbanos frenéticos, numa inarredável marcha pelo progresso. A pressa é tanta que não há tempo para planejar o que se quer fazer ou organizar o que já existe. Assim, as cidades vão crescendo aos trancos e barrancos, tornam-se lugares agressivos e pouco hospitaleiros. Esta é a primeira surpresa: Sete Lagoas, como tantas cidades pelo Brasil afora, cresce depressa e sem resposta equivalente em termos de infra-estrutura urbana. Pior: cresce destruindo a si mesma, derrubando o passado para em seu lugar erigir um presente provisório e sem personalidade. Um pequeno exemplo: um casarão c...

DE PERFUMES E ASNEIRAS

Falemos então de dois grandes poetas brasileiros. Manuel Bandeira, um dos meus favoritos, sobre o qual não me canso de refletir (ver minha postagem de 2 de setembro de 2012: “A Melancolia de Manuel Bandeira") e Castro Alves, um poeta relegado aos compêndios de literatura brasileira e mais conhecido pelo nome que emprestou a ruas e praças. Ao pensarmos em Castro Alves, pensamos no século XIX, um período histórico ignorado pela maioria e considerado chatíssimo pelos estudantes, que são martelados com aqueles textos românticos, onde o beijo acontece na página 50 e o casamento só lá pela 200. Culpa dos manuais de literatura.   Mas não estamos aqui para chatice, então vamos ao fato. Bacanal é o poema de abertura do segundo livro de Manuel Bandeira, intitulado Carnaval, publicado em 1919 e um dos precursores do movimento Modernista: BACANAL Quero beber! Cantar asneiras No esto brutal das bebedeiras Que tudo emborca e faz em caco... Evoé Baco! Lá se me parte...

MULHER, DE QUEM É ESSE CORPO?

        O corpo seccionado - cada parte tem o seu valor.             “E até as mulheres ditas escravas, já não querem servir mais” , dizia Raulzito na canção Novo Aeon. Mas, o que ironiza Raul Seixas, afinal? O desejo masculino por uma amante solícita, ou, ao contrário, a impotência masculina diante dos avanços da mulher? Porque quando a mulher avança e conquista espaços, ela o faz movendo as instituições do mundo masculino, que sempre buscou, através da história, dominá-la e submetê-la. E dominar a mulher é sobretudo possuir seu corpo - corpo cuja beleza inspira o homem mais do que qualquer coisa e cuja feiúra desperta nele o mais rasgado desdém.             Pastores, artistas, médicos, legisladores, todos querem apreender o corpo da mulher, aprisioná-lo, regulá-lo, enfim, possui-lo de algum modo. E a mulher vem cumprindo este papel ao...

O DEUS DE PEDRA

Foto de Sérgio Gadelha             Era um tipo mediano, de cabelos grisalhos, aparados à altura das orelhas e densa barba descendo em “v”. Mas sua constituição era robusta: mãos calejadas, músculos fortes e pés de andarilho. O nariz era grande, desses que sempre chegam antes do corpo, e a boca, velada, de cujo antro partiriam provérbios enigmáticos:             “Quem vive na serra, tem gosto de terra.”             “Todo homem deve criar um deus a sua imagem e semelhança.”             Seus hábitos, embora simples como os de um monge, prestavam-se a toda sorte de especulações. As pessoas do lugar o conheciam como Dedeperre, Depa ou, simplesmente, Perre. Parece que, desprovido de parentes e derentes,  havia removido qualquer traço de história do pr...