O bom observador das merrecas do
dia a dia é capaz de transformar qualquer entrevero informal em uma sopa
grossa, que dá para muitos. Ao abandonar o volante, por conta das dores daqui e
dacolá, eu não sabia que estava ganhando duas vantagens extra, que não canso de
alardear: abandonei a manutenção do maldito carro, as oficinas, os impostos e
os engarrafamentos e me tornei um passageiro de luxo, um papagaio de ventríloquo,
que fala pelos cotovelos e dá bom dia a cavalo só pra fazer graça. Assim é a língua
solta do baiano em mim que não tenho como negar. Tornei-me prudente, mas não
menos tagarela, dou tchau pros cachorros e chamo os gatos de bichanos.
Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corruptos de Brasília, adverti contra os riscos da IA e dei conselhos para a educação dos filhos e o cultivo de cenouras. Saio e chego feliz, independentemente do tempo e da hora. Até onde a educação alcança - pois este tópico se tornou tóxico ultimamente, devido às más influências, que transformaram qualquer discussão em uma luta de boxe - falo até mesmo de política. São embates que podem se tornar inflamados a depender do interlocutor e servem como barômetro da vontade popular. A voz do povo é a voz de Deus e o Poderoso que se cuide. Ao dar voz aos ignorantes, as novas ferramentas multiplicaram a estupidez a ponto de transformá-la em uma verdadeira epidemia.
Em
meu último percurso, de casa para a rodoviária, experimentei mais uma vez a dor
a delícia de ter uma língua solta. M., o motorista, é idoso (o que significa
mais velho do que eu) e pouco ágil fisicamente (embora muito mais do que eu). Noto
isso quando ele reage com preguiça ao pedido para ajudar a colocar a bagagem no
porta-malas. Sinto-me constrangido e no dever de explicar que minha coluna está
isso, meu braço aquilo e meu joelho aquilo outro. O carro de M. é velho,
provavelmente no limite do que o aplicativo aceita, e pouco cuidado, com sujeira
e assentos que rangem. Para o percurso de dez minutos, não fará muita
diferença.
Narro minha solidão e meu desespero, se não achar uma namorada nos próximos meses, o único jeito vai ser continuar procurando. Ele me conta sua vida de ex-contador. A esposa precisa de remédios para tratar uma doença grave e a taxa de condomínio foi multiplicada por dois. Ele não teve outro jeito senão colocar o carro na rua e ir à luta.
- É a mesma batalha pra todo mundo,
feliz de quem consegue encontrar uma solução por conta própria – digo para
valorizar seu esforço e coragem.
- A culpa é de Lula ladrão e do STF – ele me interrompe, com rispidez. – O país está um caos, veja quantos moradores de rua, 80% das famílias estão endividadas.
Estamos chegando, eu posso perfeitamente deixar passar batido, mas minha língua frouxa não resiste à tentação de cutucar a onça com frases curtas. Vou direto ao ponto fraco de M.:
- Pois é, pra todo lado só se veem carros novos. O senhor já foi ao país de Milei? Lá o povo roda em cada lata velha, mas aqui…
O homem quase abalroa o carro da frente de tanta indignação:
- É tudo financiado, com juros exorbitantes, esse governo está levando o país à falência. Só Bolsonaro para dar um jeito!
- Ele não está na cadeia?
- É do F. que estou falando. ele também é Bolsonaro.
- Tinha me esquecido. No entanto, para dar um jeito nas coisas ele precisa primeiro ganhar as eleições. E as pesquisas mostram que ele está muito atrás.
M. faz cara de quem está prestes a saltar no pescoço de alguém. Não lhe resta outra saída senão me entregar no destino combinado e ir cuspir sua revolta em algum bueiro. Na rampa da rodoviária, ele patina na meia-embreagem (há obras na plataforma e a fila de carros avança passo a passo) e grita, literalmente:
- Você então é daqueles que acreditam que o E. está nos Estados Unidos entregando nosso país para o Trump?
- Se o senhor está dizendo…
- Pois fique sabendo que Trump vai colocar o F. na presidência e jogar a China para fora do Brasil.
- Acho que é um mau negócio, a China compra 33% dos nossos produtos, enquanto que os americanos não importam mais do que 7%.
M. freia bruscamente, colocando um ponto final em nossa conversa. Recolho a mala do bagageiro sem esperar que ele venha me ajudar. Aceno pelo vidro, agradeço e lhe desejo um ótimo final de tarde. Acho que vai precisar. No estado em que se encontra, poderá facilmente cometer um acidente na decida.
Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corruptos de Brasília, adverti contra os riscos da IA e dei conselhos para a educação dos filhos e o cultivo de cenouras. Saio e chego feliz, independentemente do tempo e da hora. Até onde a educação alcança - pois este tópico se tornou tóxico ultimamente, devido às más influências, que transformaram qualquer discussão em uma luta de boxe - falo até mesmo de política. São embates que podem se tornar inflamados a depender do interlocutor e servem como barômetro da vontade popular. A voz do povo é a voz de Deus e o Poderoso que se cuide. Ao dar voz aos ignorantes, as novas ferramentas multiplicaram a estupidez a ponto de transformá-la em uma verdadeira epidemia.
Narro minha solidão e meu desespero, se não achar uma namorada nos próximos meses, o único jeito vai ser continuar procurando. Ele me conta sua vida de ex-contador. A esposa precisa de remédios para tratar uma doença grave e a taxa de condomínio foi multiplicada por dois. Ele não teve outro jeito senão colocar o carro na rua e ir à luta.
- A culpa é de Lula ladrão e do STF – ele me interrompe, com rispidez. – O país está um caos, veja quantos moradores de rua, 80% das famílias estão endividadas.
Estamos chegando, eu posso perfeitamente deixar passar batido, mas minha língua frouxa não resiste à tentação de cutucar a onça com frases curtas. Vou direto ao ponto fraco de M.:
- Pois é, pra todo lado só se veem carros novos. O senhor já foi ao país de Milei? Lá o povo roda em cada lata velha, mas aqui…
O homem quase abalroa o carro da frente de tanta indignação:
- É tudo financiado, com juros exorbitantes, esse governo está levando o país à falência. Só Bolsonaro para dar um jeito!
- Ele não está na cadeia?
- É do F. que estou falando. ele também é Bolsonaro.
- Tinha me esquecido. No entanto, para dar um jeito nas coisas ele precisa primeiro ganhar as eleições. E as pesquisas mostram que ele está muito atrás.
M. faz cara de quem está prestes a saltar no pescoço de alguém. Não lhe resta outra saída senão me entregar no destino combinado e ir cuspir sua revolta em algum bueiro. Na rampa da rodoviária, ele patina na meia-embreagem (há obras na plataforma e a fila de carros avança passo a passo) e grita, literalmente:
- Você então é daqueles que acreditam que o E. está nos Estados Unidos entregando nosso país para o Trump?
- Se o senhor está dizendo…
- Pois fique sabendo que Trump vai colocar o F. na presidência e jogar a China para fora do Brasil.
- Acho que é um mau negócio, a China compra 33% dos nossos produtos, enquanto que os americanos não importam mais do que 7%.
M. freia bruscamente, colocando um ponto final em nossa conversa. Recolho a mala do bagageiro sem esperar que ele venha me ajudar. Aceno pelo vidro, agradeço e lhe desejo um ótimo final de tarde. Acho que vai precisar. No estado em que se encontra, poderá facilmente cometer um acidente na decida.

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