Saiu No Sal. Desta vez, Abrão Brito Lacerda, como observador da natureza humana que é – esteja ela nos objetos - melões, violões, whiskies, cogumelos, filmes B - nos animais – gatos, coelhos, pássaros -, na mamãe natureza, em localidades como Matutina e Milho Verde ou em temas como a velhice e, pasmem, até mesmo nos humanos, nos premia com um conjunto de histórias marcantes. O monge budista que nele habita inventa de refletir e lançar luz sobre temáticas variadas nos trinta e três textos deste seu novo livro, onde combina humor, realismo e poesia.
Com esse senso de quem filosofa sentindo e escreve como quem não quer ensinar - mas quer porque não é bobo -, ele nos surpreende. Prepare senso e sensibilidade para sofisticações que não são novidade na obra desse autor que transmuta a narratividade a cada novo livro. No estreante Vento Sul, usou de um narrador criança de roça e sua cidade de bolso dessas do interior, naquela mágica idade entre dez e treze anos, no tempo mágico da molecagem, entre a criancice e a pré-adolescência, para reconquistar praças, quintais, lagos e riachos. Quem obteve a graça de viver tempos assim numa pacata cidade do interior ou numa casa de roça e de fazenda sabe o que isso é mesmo uma graça.
Mais tarde exercitou o narrador maduro e bem humorado de O Amor e Outras Tolices – cujo título não engana, é mesmo para rir das aventuras de jovens universitários pela capital mineira nos rebeldes anos 1980.
Para exercitar essa facilidade de contar um conflito com um personagem apenas, lançou o elogiado Retratos em Preto e Branco em 2025. Este livro apresenta uma ótima síntese da economia narrativa do autor, uma prosa simples e minimalista, como um jardim japonês. E como não para de imaginar e criar, ele nos premia agora com mais um belo livro de crônicas: No Sal.
No Sal é livro amadurecido e bem temperado, o Abrão renova seus muitos truques de estilo para nos iludir e fazer parecer que é fácil para quem lê essa treta de escrever. É mais um exemplo de suas práticas narrativas, nas quais ele nos acena com uma prosa intimista, dotada de um senso de observação que recorta do mundo das emoções e dos sentimentos gestos de significar e vivências intimas, que espantam, encantam ou são epifânicas, como saborear um pedaço doce de melão, curtir o carnaval com uma trupe louca de amigos ou assistir, quando criança, ao show da Pantera Cor de Rosa na TV. É ler para crer.
(Por João Batista Martins, doutor em Análise do Discurso pela PUC-MG e autor de Humor e Performatividade da Linguagem, Belo Horizonte, Literíssima, 2024.)
Contatos do autor: abraolacerda@yahoo.com.br / Whatsapp: 31996323275
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