Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Abrão Brito Lacerda

CAOS

                 O bom observador das merrecas do dia a dia é capaz de transformar qualquer entrevero informal em uma sopa grossa, que dá para muitos. Ao abandonar o volante, por conta das dores daqui e dacolá, eu não sabia que estava ganhando duas vantagens extra, que não canso de alardear: abandonei a manutenção do maldito carro, as oficinas, os impostos e os engarrafamentos e me tornei um passageiro de luxo, um papagaio de ventríloquo, que fala pelos cotovelos e dá bom dia a cavalo só pra fazer graça. Assim é a língua solta do baiano em mim que não tenho como negar. Tornei-me prudente, mas não menos tagarela, dou tchau pros cachorros e chamo os gatos de bichanos.          Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corru...

NO SAL

                      Saiu No Sal. Desta vez, Abrão Brito Lacerda, como observador da natureza humana que é – esteja ela nos objetos - melões, violões, whiskies, cogumelos, filmes B - nos animais – gatos, coelhos, pássaros -, na mamãe natureza, em localidades como Matutina e Milho Verde ou em temas como a velhice e, pasmem, até mesmo nos humanos, nos premia com um conjunto de histórias marcantes. O monge budista que nele habita inventa de refletir e lançar luz sobre temáticas variadas nos trinta e três textos deste seu novo livro, onde combina humor, realismo e poesia.             Com esse senso de quem filosofa sentindo e escreve como quem não quer ensinar - mas quer porque não é bobo -, ele nos surpreende. Prepare senso e sensibilidade para sofisticações que não são novidade na obra desse autor que transmuta a narratividade a cada novo livro. No estreante Vento Sul, usou de um narrador...

3X4 DOS RETRATOS EM PRETO E BRANCO

           Diferentemente de seus outros livros, desta vez o Abrão Lacerda, como o observador da natureza humana que é – esteja ela nos objetos, nos animais, na natureza e, pasmem, nos humanos – o monge budista que nele habita, não inventa, desta vez, personagens.          Ele, com esse senso de quem filosofa sentindo e escreve como não quer ensinar, mas quer, prepare senso e sensibilidade para sofisticações dessas. E tudo isso é novo na obra desse autor que transmuta a narratividade a cada novo livro - que inicialmente, no livro Vento Sul, usou de um narrador criança de roça e sua cidade de bolso dessas do interior, naquela mágica idade entre 10 e 13 anos, no tempo mágico da molecagem, entre a criancice e a pré-adolescência e contando com praças, quintais, lagos e riachos.   Quem obteve essa graça de viver tempos assim numa pacata cidade do interior ou numa casa de roça e de fazenda sabe que i...

SOL, CHUVA, LUA CHEIA

                      Embora pareçam iguais, os dias são diferentes.  O céu, essa magnífica abóbada de oxigênio que nos mantem vivos, é como uma tela onde o tempo faz artes.              O nascer do sol é o momento mais importante do dia:               Merece bis:               E tris:              As nuvens têm uma das classificações mais bonitas que existem:  cirrus, cumulus, nimbus, stratus.              No verão, os mais comuns são os cúmulos:                    E os Cumulonimbus, que chamam tempestade:                A chuva torna a paisagem opaca, mas também produz reflexos sobre as superfícies molhadas:      ...

AS QUATRO ESTAÇÕES

                    Há várias formas de viajar.  Pode-se viajar através da imaginação ou no tempo. Pode-se também viajar assistindo à passagem das quatro estações, como um filme. Por isso convido-os a compartilhar alguns instantâneos captados da minha janela.          Se somos mais felizes de manhã, como sugere uma pesquisa recente, a aurora de dedos de rosa surgindo matutina é o verdadeiro elixir da felicididade:               Numa manhã de maio, com céu limpo, é assim que a cidade de Timóteo aparece à minha janela. Em frente está o CEFET, logo depois a rodoviária e, ao fundo, os fornos da usina siderúrgica:               Á direita fica o centro comercial, numa vista de 180 graus:            No final de junho, a neblina e o nevoeiro dão contiuidade ao friozinho da noite. A paisagem ganha t...

HUMOR E PERFORMATIVIDADE DA LINGUAGEM de João Batista Martins

              Os linguistas são seres raros, desses que dissecam a língua como se fosse um porquinho da índia em um experimento de laboratório. Usam termos difíceis, próprios aos alquimistas (não tenho certeza, mas a verdade é que conheço linguística tanto quanto alquimia). Você pensaria que estão falando para extraterrestres, até descobrir que está por fora da língua pátria e confundiria um chiste com um uptaken, a ponto de não entender a graça que o doutor João Batista Martins aprontou desta vez.             Primeiro ele fez um doutorando no tema, usou geometria, os signos semiológicos do Barthes, o idealismo de Platão e outras mumunhas para falar de sua obsessão pelo humor enquanto linguagem. Mas, na refrega diária de um professor de escola pública, sobra pouco tempo para aventuras. Quando os alunos perdem o hábito do palavrão e buscam algo mais produtivo, como o dis...

RECEITA DE BOLO PARA SER FELIZ

           Muita gente tem um slogan que a orienta na vida: “hei de vencer”, “minha casa, minha vida”, “presente de Deus”. O meu é mais singelo e apela simultaneamente a nossos instintos contraditórios de autopreservação e prazer. Dou vênia aos que rirão e aos que não, aos céticos e aos diabéticos, aos infelizes e aos que têm alergia a trigo, enfim, confesso: quem me ama, faz bolo para mim.             Por falta de amante e até mesmo por conveniência, comecei a fazer bolos, pois não tenho saco para ir à padaria todo dia, biscoitos de caixinha dão azia e outros petiscos comprados para o café da manhã amanhecem duros no dia seguinte (aproveito para contar o caso do pão de queijo traído: era uma vez um pão de queijo que virava um pau quando esfriava; um dia ele se derreteu por uma maria mole borrachenta e frígida, virou polvilho de novo e ela o trocou por um brioche).   ...