O bom observador das merrecas do dia a dia é capaz de transformar qualquer entrevero informal em uma sopa grossa, que dá para muitos. Ao abandonar o volante, por conta das dores daqui e dacolá, eu não sabia que estava ganhando duas vantagens extra, que não canso de alardear: abandonei a manutenção do maldito carro, as oficinas, os impostos e os engarrafamentos e me tornei um passageiro de luxo, um papagaio de ventríloquo, que fala pelos cotovelos e dá bom dia a cavalo só pra fazer graça. Assim é a língua solta do baiano em mim que não tenho como negar. Tornei-me prudente, mas não menos tagarela, dou tchau pros cachorros e chamo os gatos de bichanos. Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corru...
Saiu No Sal. Desta vez, Abrão Brito Lacerda, como observador da natureza humana que é – esteja ela nos objetos - melões, violões, whiskies, cogumelos, filmes B - nos animais – gatos, coelhos, pássaros -, na mamãe natureza, em localidades como Matutina e Milho Verde ou em temas como a velhice e, pasmem, até mesmo nos humanos, nos premia com um conjunto de histórias marcantes. O monge budista que nele habita inventa de refletir e lançar luz sobre temáticas variadas nos trinta e três textos deste seu novo livro, onde combina humor, realismo e poesia. Com esse senso de quem filosofa sentindo e escreve como quem não quer ensinar - mas quer porque não é bobo -, ele nos surpreende. Prepare senso e sensibilidade para sofisticações que não são novidade na obra desse autor que transmuta a narratividade a cada novo livro. No estreante Vento Sul, usou de um narrador...