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Mostrando postagens com o rótulo Contos

CAOS

                 O bom observador das merrecas do dia a dia é capaz de transformar qualquer entrevero informal em uma sopa grossa, que dá para muitos. Ao abandonar o volante, por conta das dores daqui e dacolá, eu não sabia que estava ganhando duas vantagens extra, que não canso de alardear: abandonei a manutenção do maldito carro, as oficinas, os impostos e os engarrafamentos e me tornei um passageiro de luxo, um papagaio de ventríloquo, que fala pelos cotovelos e dá bom dia a cavalo só pra fazer graça. Assim é a língua solta do baiano em mim que não tenho como negar. Tornei-me prudente, mas não menos tagarela, dou tchau pros cachorros e chamo os gatos de bichanos.          Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corru...

NO SAL

                      Saiu No Sal. Desta vez, Abrão Brito Lacerda, como observador da natureza humana que é – esteja ela nos objetos - melões, violões, whiskies, cogumelos, filmes B - nos animais – gatos, coelhos, pássaros -, na mamãe natureza, em localidades como Matutina e Milho Verde ou em temas como a velhice e, pasmem, até mesmo nos humanos, nos premia com um conjunto de histórias marcantes. O monge budista que nele habita inventa de refletir e lançar luz sobre temáticas variadas nos trinta e três textos deste seu novo livro, onde combina humor, realismo e poesia.             Com esse senso de quem filosofa sentindo e escreve como quem não quer ensinar - mas quer porque não é bobo -, ele nos surpreende. Prepare senso e sensibilidade para sofisticações que não são novidade na obra desse autor que transmuta a narratividade a cada novo livro. No estreante Vento Sul, usou de um narrador...

COCO COM PIMENTA

  (Traipu, AL, terra de Luiz Vieira, que me contou esta história.) Escreveu não leu o pau comeu, no Nordeste não tem disso não.             Na vila de Escorial, às margens do Rio São Francisco, a vida corria tranquila naqueles idos de 1960. Os únicos eventos extraordinários eram o encalhe de uma barca na rota para Piranhas e as datas do calendário católico, celebradas com pompa e fervor. Dia de São Miguel, Dia de São Pedro (o padroeiro da cidade), Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Sobre as águas mansas do grande rio circulavam barcos, cholas (canoas de médio porte, capacidade até 300 sacos), canoas de pescadores e, sobretudo, canoas de toldo ao velho estilo, algumas capazes de transportar até 600 sacos ou 36 toneladas.   A cultura ribeirinha aflorava nos cânticos dos condutores das balsas e nos bailes de coco, com sua mescla de música e dança. Todos se alegravam, inclusive os meninos. De modo gracioso ou perverso, como ...

PELA CIDADE

            Receber o feedback do leitor é tudo que o autor deseja. Ainda mais de um leitor fiel, que conhece suas histórias melhor do que você, que indaga sobre os personagens, os lugares, tece liames com outros campos. Eu afirmo que tudo é ficção, tenho péssima memória, esqueço nome de pessoas, lugares, eventos, tenho que me servir da imaginação para traçar linhas e delinear histórias. Além disso, não custa acreditar que sonhar é melhor do que viver e que a arte está alguns degraus acima da realidade, algo assim como uma taça de vinho que rompe o torpor da tarde de domingo, quando você pensa no fim e no que virá depois dele - inevitavelmente, a segunda-feira.               O leitor insiste, eu o perdoo. Está cada vez mais difícil encontrar histórias interessantes, todas já foram contadas e recontadas pelo cinema, esse narrador supremo do mundo moderno. De vez em q...

TOLICES?

Por Josefina Murta*             Li as 15 histórias da obra bem humorada “O Amor e Outras Tolices” pausadamente, degustando-a – como a ilustração convidativa da capa sugere e também porque leio 3 a 4 livros ao mesmo tempo.             Abrão Brito Lacerda, o autor, conheci-o nos idos de 83, na moradia estudantil de BH onde habitávamos e vivenciamos a cidade, o amor e os sonhos anarquistas da juventude de então. Abrão, baiano de Itarantim, historiador, professor, tradutor, blogueiro e escritor me surpreendeu com suas traquinagens linguísticas, remetendo-me à década de 80 como num turbilhão. Vieram-me imagens de lugares da capital mineira que jaziam engavetados na memória, como o Bar do Lulu, a antiga Fafich no bairro Santo Antônio, o Cine Pathé, as moradias ocupadas pelos estudantes e “becos” (moradores sem vínculo com a academia), chamadas de Mofuce e Borges, onde tudo...

NO CAMPO

(Imagem da Web)             Tomba Homem era um touro girolando de uma tonelada, temido pelos vaqueiros e peões, que jamais ousariam montá-lo. Até mesmo para os pequenos manejos da granja, ele era evitado, pois tinha temperamento tempestuoso e imprevisível. Melhor deixá-lo com suas vacas, junto às quais ele se fazia tocar de um lado para outro, sem contratempos.               J e M, dois tipos durões, das plagas rurais afamadas pelo machismo, apreço à força bruta e aos gestos rudes, não sabiam disso, o que lhes valeu uma lição de vida e morte e alguns membros quebrados.             Praticavam por profissão essa atividade estúpida que consiste em fazer correr um animal por uma pista de areia e depois jogá-lo ao chão com um puxão violento do rabo. Espetáculo ululante para a plateia encharcada de cachaça e c...

O AMOR E OUTRAS TOLICES

Por João Batista Martins, doutor em Língua Portuguesa e Linguística pela PUC-MG.             “A persistência conduz ao sucesso”, isto está no livro das mutações.   E persistência, resiliência e mutação são com este autor. Bom humor também. Os narradores e os personagens de O Amor e Outras Tolices, segundo livro de Abrão Brito Lacerda, confirmam esse ethos que traduz a vida não como ela é, mas como poderia ser, com todos seus riscos, com a nobreza que Freud confere ao humor: essa fantástica capacidade humana de economizar sentimentos de dor.   Como no primeiro livro, o autor continua se divertindo ao escrever e com isso realimentando a alegria de recriar a vida, vivida, sonhada, inventada, lembrada, narrada.             Mas, literatura não é só entretenimento, há também um discurso, uma fala e uma reflexão posta na temática constante dos contos – nu...

OLD PUNKERS NEVER DIE

            Falarei do poço de crocodilos famintos e da carreira desesperada, em fuga, em Navarra, sol a pino, quando o pai da donzela descobriu que ele era o “cabrón” que tinha “follado” com sua filha. Escapou por um triz, poderia muito bem ter sido escalpelado se não fugisse a tempo. Havia bandoleiros espalhados por toda a área, munidos de drones de vigilância e dardos envenenados, capazes de provocar uma morte agonizante. Os dardos envenenados eram a nova versão das formigas fogo selvagem que puniam os infectos na época do velho oeste. Você anda vendo faroeste demais, francamente. Faroeste é coisa do passado, hoje em dia assiste-se a sci-fies. Você não sabe espanhol, o problema é seu.               E se você sobreviver até a última palavra desta crônica tresloucada dos sessenta anos, compreenderá perfeitamente por que old punkers não podem morrer. Não é segredo, ...