O bom observador das merrecas do dia a dia é capaz de transformar qualquer entrevero informal em uma sopa grossa, que dá para muitos. Ao abandonar o volante, por conta das dores daqui e dacolá, eu não sabia que estava ganhando duas vantagens extra, que não canso de alardear: abandonei a manutenção do maldito carro, as oficinas, os impostos e os engarrafamentos e me tornei um passageiro de luxo, um papagaio de ventríloquo, que fala pelos cotovelos e dá bom dia a cavalo só pra fazer graça. Assim é a língua solta do baiano em mim que não tenho como negar. Tornei-me prudente, mas não menos tagarela, dou tchau pros cachorros e chamo os gatos de bichanos. Cada viagem é uma conversa: futebol, trânsito, moradores de rua. Já ensinei como se diz “eu te amo” em francês dezenas de vezes, reclamei do aquecimento global, lamentei a derrota do time do motorista, discursei contra os corru...