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IMPERECÍVEL – FLÁVIA FRAZÃO

                Até que enfim resolvi ler o livro de Flávia Frazão. Se souber disso, ela me mata. Minha única esperança é tornar públicas essas impressões de leitura, de modo a conquistar seu afeto e seu perdão.             Porque a alma em ebulição da autora se manifesta a cada poema e ela pode muito bem nos lançar em correntezas e dúvidas das quais não sairemos ilesos. Seu trabuco 38 (na época de lançamento do livro, em 2019 – agora ela vai me matar de vez) parece estar sempre fumegante:   “mãos ao alto senão atiro   38 é fatal e certeiro meu bem   o calibre é meu e de mais ninguém”             [Trinta e oito]             Com sorte, ela terá péssima pontaria, como a maioria dos poetas, que miram no nosso peito e acerta...

SOL NO CORAÇÃO

         Kikuko tocando Koto (harpa japonesa), em 1973, ano de sua partida para o Brasil.             O contraste entre luz e sombra, fundamental nas artes plásticas, oferece um notável meio de observação sobre a natureza da existência. Sabe-se que a luz é mais clara e a sombra é mais escura na proximidade do ponto em que se tocam no ângulo. Posicionadas lado a lado, uma ajuda a definir a outra, como seu contrário e seu complemento.             Na filosofia budista, a luz (sol) e a escuridão (noite) são frequentemente usadas como metáforas dos estados fundamentais do ser. Assim, o termo “escuridão fundamental” designa o oposto da iluminação ou sabedoria búdica). Contrárias mas não excludentes, ao contrário, nerentes e inseparáveis, o que equivale dizer que não existe sabedoria sem ignorância e vice-versa. A prática budista visa, de um ponto de vista...

OS PELOTUDOS

  Página de "Pelotudos" de Mario Kostzer.         Pelotudos é uma gíria de Buenos Aires cujo sentido depende do contexto, indo do boçal ao arrogante, passando pelo inconsequente, folgado e aproveitador. Carrega uma ponta de juízo e outra de humor e galhardia, como costuma acontecer com as invenções do vocabulário popular. Sendo assim, traduz uma síntese cultural que aproxima o crítico do seu alvo.             A cidade está cheia deles: nas ruas, nos bares, nos táxis, até nas livrarias que pululam na Avenida Corrientes, perto do obelisco da Nove de Julho.             Tomei conhecimento do termo ao frequentar um café da Praça Lavalle, (mais conhecida como Tribunales pelos locais), logo atrás do Teatro Colón. Emoldurada por uma linda arquitetura que combina o clássico e o moderno, a praça tem no centro algumas árvores imensas, que serve...

1959

                               Entre os números cabalísticos não consta o 59.          Seria ele um número qualquer, como 1016 e 21, desses que se habilitam a saltar de bungee jump ou andar de monociclo na corda bamba, só para sair do ostracismo?          Muitas evidências indicam que não. Cinquenta e nove é um coroa enxuto, com muitas histórias pra contar. Meu pai, que não lia jornais e mal ouvia rádio, tinha uma estranha fixação por esse ano, ao qual reputava tudo de grave e importante que conhecia (ou supunha conhecer). Falava da grande enchente de 59, do fim da guerra (não sei a que guerra ele se referia), da copa de 59 (meu pai era totalmente ignorante em matéria de futebol e só poderia falar abobrinhas a respeito). Mais tarde eu tentei corrigi-lo, afirmando que a copa tinha sido no...

SEU MONTEIRO

                                                          Os motoristas de táxi desta cidade são todos aposentados de outras profissões. João Paulo é ex-bancário, Brás é ex-mecânico e Seu Monteiro foi operador de máquinas em uma usina siderúrgica, demitido em período de vacas magras.   Há mais de vinte anos dedica-se ao volante, profissão que abraçou como uma segunda natureza. Percorre as ruas da cidade onde nasceu várias vezes ao dia, conhece todos os caminhos, sinais e inclinações do sol. Funde-se à paisagem urbana como um auto móvel, está na praça, na estação, na rodoviária.             Além de recolher o passageiro em casa ou no trabalho na hora em que quiser. De manhã cedinho ou tarde da noite. Seu Monteiro é humilde, paciente e prestativo.  ...

O HOMEM DE NOVE SORRISOS

                 Parece título de faroeste espaguete, mas é uma história tão real quanto o sol que nos ilumina. E o protagonista não é nenhum tranqueiro malhado com um trabuco fumegante no punho, mas sim o humilde escriba que vos fala, cuja habilidade o destinaria a viver e a morrer pela palavra, tal qual os profetas da anunciação bíblica. Estamos fartos de dramas e sofrimentos, mas abominamos igualmente o riso de bocas banguelas e sua estética de ridículo e miserê.   Então, viva os dentes em todas as suas variantes e cores.             Como toda criança, tive meus dentinhos de leite, dos quais não me lembro muito, a não ser de quando eles começaram a amolecer e a cair. Isso depois de praticarem o rebolado dentro da boca, aquela coisa divertida que obriga você a usar a língua para colocar as presas no prumo na hora de comer e se não ficar vivo acaba engolindo ...

VIDA DE CÃO

              O ente mais feliz desta cidade do interior não é um homem nem uma mulher, mas sim um cachorro. Vira-lata ainda por cima, com genes de banzé e pequinês. Pequeno, decidido, confiante. Não rosna nem late, não amola no trânsito, atravessa (sempre) na faixa, conhece as lixeiras do centro como a palma da pata, dispensa más companhias e trata os humanos como seus semelhantes.             Ao contrário das matilhas que silhonam as ruas noite e dia, o vira-lata é um cão solitário. Tampouco tem dono ou dona, como alguns dos seus irmãos quadrúpedes, que não correm pelos becos, não comem porcaria e não conhecem mais do que a própria varanda ou jardim. Prefere ser dono do próprio focinho.             É sensato e humilde, ainda por cima. Não mede força com os mandões: se está revirando uma latrina e um colega fami...

COCO COM PIMENTA

  (Traipu, AL, terra de Luiz Vieira, que me contou esta história.) Escreveu não leu o pau comeu, no Nordeste não tem disso não.             Na vila de Escorial, às margens do Rio São Francisco, a vida corria tranquila naqueles idos de 1960. Os únicos eventos extraordinários eram o encalhe de uma barca na rota para Piranhas e as datas do calendário católico, celebradas com pompa e fervor. Dia de São Miguel, Dia de São Pedro (o padroeiro da cidade), Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Sobre as águas mansas do grande rio circulavam barcos, cholas (canoas de médio porte, capacidade até 300 sacos), canoas de pescadores e, sobretudo, canoas de toldo ao velho estilo, algumas capazes de transportar até 600 sacos ou 36 toneladas.   A cultura ribeirinha aflorava nos cânticos dos condutores das balsas e nos bailes de coco, com sua mescla de música e dança. Todos se alegravam, inclusive os meninos. De modo gracioso ou perverso, como ...