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REMEMBER - CHRISTINA ROSSETTI

Ilustração de Dante Gabriel Rossetti, irmão da poetisa, para o livro Gobling Market and Other Poems.             Christina Rossetti foi uma poetisa inglesa do século XIX (1830-1894), proveniente de uma família de grandes talentos (pai poeta, irmão pintor e poeta). Começou a escrever muito cedo e se tornou uma das vozes femininas mais conhecidas da poesia vitoriana, juntamente como sua compatriota Elizabeth Barret Browning. Sua obra é caracterizada pelos temas do amor e da morte, assim como pelo misticismo religioso. O poema a seguir é um dos mais conhecidos de sua rica lírica. Ao lado do original, uma tradução livre, para que o leitor penetre o “sentido” do poema. Logo depois, uma breve análise e uma versão pelo nosso maior poeta, Manuel Bandeira.                                  ...

DEUS E EU

(imagem christianspot.com) Um amigo meu anda ultimamente às turras com Deus. “Não acredito mais”, disse-me, “faz anos que rezo e não saio da crise. E, no entanto, vejo gente sem fé se dando muito bem na vida.” “Por que você não consulta um economista, um psicólogo ou uma cartomante?”, sugeri. “Economistas falam economês, psicólogas são boas na hora de arranjar emprego e cartomantes estão fora de moda”. Que tipo mais inconformado! Sugeri que ele ouvisse Bach, o gênio que criou Deus à imagem e semelhança de sua música. “Não tenho paciência para música clássica”, me disse. “Mas Bach não é clássico, é barroco". “Dá no mesmo.” Ora, se o cristão não ouve Bach, como pode sair por aí falando em nome de Deus? “Prefiro ouvir o pastor da minha igreja”, rebateu de imediato uma amiga minha, santa mulher, que só usa saias abaixo dos joelhos e não depila as axilas.  E eu que não sabia que os pelos do corpo tinham a ver com Deus! “O pastor é músico também?” , perguntei na minha inocênc...

UM RIO: ESTE

Banhando-me na foz do Rio Jequitinhonha, em Belmonte, Bahia.                Tendo nascido no município de Itarantim, no Estado da Bahia, e de lá saído quando começava a andar, não guardo nenhuma lembrança da minha terra natal.   Apenas uma certa nostalgia, que jamais desmistificarei: melhor manter o sítio numa aura mágica, como uma espécie de origem perdida que me impulsiona a estar buscando sempre.             Nasci em Córrego dos Trabalhos, mais precisamente, um lugar que não consta do mapa. Meu pai andou um dia inteiro a cavalo até chegar ao tabelião mais próximo, que ficava em Salto da Divisa, cidade situada no lado de Minas Gerais, nas margens do Rio Jequitinhonha, para me registrar. Deduzo que o dito córrego do meu local de nascimento desemboca em algum rio, que por sua vez deságua no Jequitinhonha como afluente, ligando minha vida de algum modo a esse mítico rio. Nascen...

MILHO VERDE, MINAS GERAIS

A vida tranquila, o encontro com a natureza.               Chegamos a Milho Verde em uma tarde de inverno, logo depois da Grande Fossa que adveio em conseqüência da derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo. Assistimos ao jogo, isto é, à hecatombe em uma pousada de Diamantina. São tempos de férias e de copa e há muitos estrangeiros viajando pelo país. Na pousada, os franceses, que assistiram ao jogo junto conosco, estavam torcendo pelo Brasil, foi o que disseram antes do jogo. Eles estavam mais confiantes do que nós, que já admitíamos de antemão a possibilidade de uma derrota do Brasil.             Havia também alemães. Esses, por um explicável(?) pudor germânico, preferiram ficar em seus apartamentos. Não pareciam muito ligados no jogo, pelo menos antes desse começar. Depois do apito final, e com a cidade de Diamantina mergulhada no silêncio, vi-os no lounge trocando mensagens fr...

CONVERSA DE ÍNDIO E MULHER BRANCA

                   Tam! Taram! Tam! Antes de instalar a lei da selva, índio enviou mensagem à presidenta: “Querer é poder, diz homem branco. Indio quer, índio pode. Igualdade entre povo tapuia e os pelotudos” (era assim que se referiam aos homens brancos). Manifestaram-se diante do congresso nacional e nos estádios de futebol, dançaram o huka-huka, pintados para a guerra.          “Indio quer falar com homem branco nas terras do povo Xamainam”. Não respeitavam Brasília e seu Lago dos Cisnes, por isso a conversa aconteceu no Parque do Xiang, próximo a Manaus (informação que pode ser facilmente verificada em um mapa).          O grande cacique branco levantou o cetro da sabedoria:          - O quê índio quer?          - Indio qué muié.      ...

BRASIL FUTEBOL CLUBE

(imagem: focusfoto.com.br)             Naquela época, a televisão ainda engatinhava e o rádio era o grande meio de comunicação de massa. Jornais não havia no lugar e, se houvesse, faltariam leitores. Cinema, só mesmo o que os meninos inventavam, uma película de plástico, recortada e colada em tirinhas, sobre a qual se desenhavam, a caneta esferográfica, aventuras dos heróis das fitas de cowboy. Entrada: 10 palitinhos de fósforo. Ainda assim havia filas. Quando a Copa do Mundo começou, as transmissões soavam distantes, pareciam vozes de outras galáxias ecoando através do espaço sideral. Nas ruas de terra batida, brincávamos, tentando imitar os lances contados e recontados pelos cronistas. Suprema democracia da infância: lado a lado jogavam Müller, Pelé e Bob Moore! As bolas de plástico já existiam, não precisávamos mais de bolas de meia. O único problema é que o plástico rompia-se facilmente em atrito com o chão á...

PÁSSAROS ENGAIOLADOS

              Desci na Estação Châtelet, na Rive Droite, margem direita do Sena, com destino ao mercado de pássaros que tradicionalmente se abre aos domingos no centro de Paris. Eu havia decidido por uma abordagem mais prudente desde que, na véspera, levara uma carreira de umas putas dos lados do Boulevard Saint-Martin. Tudo porque eu, turista afoito, bati uma foto um tanto  à la legère , sem pensar. Eu Explico:             Na Rive Droite, bem pertinho do centro, tem uns bairros populares muito interessantes. Por ali se cruza com estudantes, operários, turistas e imigrantes de variada plumagem. À medida que eu subia a Rua Montorgueil, a paisagem mudava subitamente: ora uma profusão de restaurantes, ora um mercado popular, ora umas mulheres exóticas - clic, clic, clic. Inocentemente virei uma esquina e entrei numa rua onde se praticava a venda do corpo, ofício antigo. Havia mais ti...

BACK IN 1985

            No início de 1985, os estudantes João Batista, de Matutina e Alberto, de Montes Claros, atravessaram o portão enferrujado que encerrava precariamente as dependências do MOFUCE – Movimento Fundação Casa do Estudante – no Bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Eles tinham como missão investigar as condições do local, que havia sido designado para invasão em reunião do Diretória Central dos Estudantes da UFMG, acontecida na véspera.             O lugar encontrava-se em péssimo estado. Ele servia de ponto de apoio para moradores de rua e afins, que o utilizavam como privada, depósito de bugigangas e motel. Os banheiros dos primeiro andar, únicos concluídos, estavam depredados e o mato tomava conta das áreas externas.              Alguns dias mais tarde, foi efetivada a ocupação do prédio, uma...