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CHEZ LOUISETTE

            O mercado das pulgas nos ensina a ver o mundo de outro modo.           Uma cidade se conhece por suas ruas e sua gente, pelo que se ouve e se vê e também pelo que se cheira e se come. Por isso, quando viajamos, é importante ir além dos monumentos, buscar encontrar as pessoas comuns, experimentar os pequenos prazeres e arriscar o imprevisto. Bancar o transeunte, o intruso, o estranho, talvez. Em Paris, há inúmeros programas que nos permitem participar da vida local, fazendo o que os parisienses fazem, desde que conscientes de que a altura do nariz é proporcional ao status do lugar. No centro histórico, onde há mais turistas do que nativos, quase não se nota isso, afinal, é tudo uma questão de mercantilismo, comprar, pagar, ir-se, talvez para nunca mais. Mas, onde a multidão raleia e as trocas interpessoais tornam-se mais evidentes, isso se percebe claramente. O metrô funciona bem até as 23:30, quando passa...

TSUNESSABURO MAKIGUTI: A EDUCAÇÃO COMO CRIAÇÃO DE VALORES

                Mais conhecido como fundador da Soka Gakkai, sociedade laica japonesa que atua pela promoção da paz, cultura e educação, Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944) teve uma vida intensa, pontuada por momentos dramáticos. A começar por sua origem, no seio de uma família pobre do noroeste do Japão. Aos três anos de idade, foi abandonado pelos pais após sua mãe tentar suicídio, atirando-se com ele nos braços no mar do Japão. Foi adotado por um tio, com o qual viveu até os 14 anos e, posteriormente, foi morar com outro tio. Começou a trabalhar cedo e, com grande dedicação, concluiu o curso normal, tornando-se professor primário e também diretor de escola, função que ocupou por mais de vinte anos.             Foi das anotações sobre suas experiências didático-pedagógicas que surgiu o seu segundo livro, Soka Kyoikugaku Taikei ( Sistema Pedagógico de   ...

VIZINHOS S. A.

               Fui tirar o carro da garagem e divisei um monte de entulho pelo retrovisor. Em frente ao terreno baldio, segundo lote à direita, pedaços de tijolos e cerâmica, restos de areia, cimento e brita. No dia seguinte, fiz a mesma manobra e o montinho tinha crescido com o acréscimo de alguns pedaços de madeira de demolição; no terceiro dia, apareceram troncos e galhos de plantas retirados do quintal de alguém e ali providencialmente despejado. O monte transbordou e se espalhou pela rua quando apareceram móveis velhos e portas comidas por cupins. Alguém aproveitou a chance e completou a pilha com papelão, sacolas plásticas e madeira de construção.            Ao investigar o caso, todos puseram a culpa na prefeitura, a começar pelo vizinho do lado:             - A caçamba da limpeza não passa há dois meses. A rua virou depósito de lixo. Que v...

ZAPAVORA

(Imagem: madessy.blogspot.com)             Era uma casa localizada na Rio Grande do Norte com Contorno, perto da trincheira, ali onde os carros mergulham para passar sob a avenida: um dos últimos prédios belle époque remanescentes na cidade, uma incongruência quando comparado ao muro de concreto que abre a rua em “u” e marca o predomínio da máquina sobre a poesia. Subia-se pelo lado esquerdo até avistar os letreiros em neon sob fundo vermelho cintilante: “Zapavora”.             O nome veio dos versos da canção “Nosso amor assim nos apavora”, de... quem mesmo? Se me lembrar, prometo contar antes do final.  Hippies, broncos, darks, mods, punks e distraídos em geral, todos se encontravam por ali. O cigarro ainda não era proibido em recintos fechados e o que era proibido circulava com igual liberdade, por isso o ar era embaçado e quente, dava para contar com faca o...

BOLA DE PELO

O amiguinho de pelo não tem mais do que vinte centímetros de altura quando está em posição de descanso. No entanto, quando se move, com saltos graciosos e ágeis, é bem mais alto. É mais alto ainda quando fica de pé sobre as patas traseiras e fareja os arredores. Mas sua posição favorita é rente ao chão, estendido como uma diva sobre o divã, orelhas apenas de pé, pois coelho que tudo ouve não morre cedo. É discreto, ardiloso e furtivo. E silencioso também. Seus únicos ruídos são o ronronar gutural intermitente característico do estado de excitação ou a batida das patas traseiras quando precisa defender seu território contra algum invasor. Os gatos morrem de inveja de sua doce concentração. E de sua higiene também, pois ele não precisa de banho, xampu ou perfume. Basta-lhe um jornal para fazer as necessidades, dispensadas em pelotinhas inodoras, que mais parecem caroços de romã. Não solta pelos aleatoriamente, não ocupa espaço em camas e poltronas, não foge arredio pelas ca...

SETE SURPRESAS

A bela igreja matriz de Sete Lagoas, da primeira metade do século XIX. Embora tenha morado por dezoito anos em Belo Horizonte, nunca havia visitado Sete Lagoas. Fi-lo nestes dias de fim de ano e muitas reflexões resultaram do que era para ser uma simples viagem turística. Em primeiro lugar, porque hoje é praticamente impossível viajar pelo Brasil sem incidentes relevantes, com estradas cheias e centros urbanos frenéticos, numa inarredável marcha pelo progresso. A pressa é tanta que não há tempo para planejar o que se quer fazer ou organizar o que já existe. Assim, as cidades vão crescendo aos trancos e barrancos, tornam-se lugares agressivos e pouco hospitaleiros. Esta é a primeira surpresa: Sete Lagoas, como tantas cidades pelo Brasil afora, cresce depressa e sem resposta equivalente em termos de infra-estrutura urbana. Pior: cresce destruindo a si mesma, derrubando o passado para em seu lugar erigir um presente provisório e sem personalidade. Um pequeno exemplo: um casarão c...