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OS PELOTUDOS

  Página de "Pelotudos" de Mario Kostzer.         Pelotudos é uma gíria de Buenos Aires cujo sentido depende do contexto, indo do boçal ao arrogante, passando pelo inconsequente, folgado e aproveitador. Carrega uma ponta de juízo e outra de humor e galhardia, como costuma acontecer com as invenções do vocabulário popular. Sendo assim, traduz uma síntese cultural que aproxima o crítico do seu alvo.             A cidade está cheia deles: nas ruas, nos bares, nos táxis, até nas livrarias que pululam na Avenida Corrientes, perto do obelisco da Nove de Julho.             Tomei conhecimento do termo ao frequentar um café da Praça Lavalle, (mais conhecida como Tribunales pelos locais), logo atrás do Teatro Colón. Emoldurada por uma linda arquitetura que combina o clássico e o moderno, a praça tem no centro algumas árvores imensas, que serve...

1959

                               Entre os números cabalísticos não consta o 59.          Seria ele um número qualquer, como 1016 e 21, desses que se habilitam a saltar de bungee jump ou andar de monociclo na corda bamba, só para sair do ostracismo?          Muitas evidências indicam que não. Cinquenta e nove é um coroa enxuto, com muitas histórias pra contar. Meu pai, que não lia jornais e mal ouvia rádio, tinha uma estranha fixação por esse ano, ao qual reputava tudo de grave e importante que conhecia (ou supunha conhecer). Falava da grande enchente de 59, do fim da guerra (não sei a que guerra ele se referia), da copa de 59 (meu pai era totalmente ignorante em matéria de futebol e só poderia falar abobrinhas a respeito). Mais tarde eu tentei corrigi-lo, afirmando que a copa tinha sido no...

SEU MONTEIRO

                                                          Os motoristas de táxi desta cidade são todos aposentados de outras profissões. João Paulo é ex-bancário, Brás é ex-mecânico e Seu Monteiro foi operador de máquinas em uma usina siderúrgica, demitido em período de vacas magras.   Há mais de vinte anos dedica-se ao volante, profissão que abraçou como uma segunda natureza. Percorre as ruas da cidade onde nasceu várias vezes ao dia, conhece todos os caminhos, sinais e inclinações do sol. Funde-se à paisagem urbana como um auto móvel, está na praça, na estação, na rodoviária.             Além de recolher o passageiro em casa ou no trabalho na hora em que quiser. De manhã cedinho ou tarde da noite. Seu Monteiro é humilde, paciente e prestativo.  ...

O HOMEM DE NOVE SORRISOS

                 Parece título de faroeste espaguete, mas é uma história tão real quanto o sol que nos ilumina. E o protagonista não é nenhum tranqueiro malhado com um trabuco fumegante no punho, mas sim o humilde escriba que vos fala, cuja habilidade o destinaria a viver e a morrer pela palavra, tal qual os profetas da anunciação bíblica. Estamos fartos de dramas e sofrimentos, mas abominamos igualmente o riso de bocas banguelas e sua estética de ridículo e miserê.   Então, viva os dentes em todas as suas variantes e cores.             Como toda criança, tive meus dentinhos de leite, dos quais não me lembro muito, a não ser de quando eles começaram a amolecer e a cair. Isso depois de praticarem o rebolado dentro da boca, aquela coisa divertida que obriga você a usar a língua para colocar as presas no prumo na hora de comer e se não ficar vivo acaba engolindo ...

VIDA DE CÃO

              O ente mais feliz desta cidade do interior não é um homem nem uma mulher, mas sim um cachorro. Vira-lata ainda por cima, com genes de banzé e pequinês. Pequeno, decidido, confiante. Não rosna nem late, não amola no trânsito, atravessa (sempre) na faixa, conhece as lixeiras do centro como a palma da pata, dispensa más companhias e trata os humanos como seus semelhantes.             Ao contrário das matilhas que silhonam as ruas noite e dia, o vira-lata é um cão solitário. Tampouco tem dono ou dona, como alguns dos seus irmãos quadrúpedes, que não correm pelos becos, não comem porcaria e não conhecem mais do que a própria varanda ou jardim. Prefere ser dono do próprio focinho.             É sensato e humilde, ainda por cima. Não mede força com os mandões: se está revirando uma latrina e um colega fami...

COCO COM PIMENTA

  (Traipu, AL, terra de Luiz Vieira, que me contou esta história.) Escreveu não leu o pau comeu, no Nordeste não tem disso não.             Na vila de Escorial, às margens do Rio São Francisco, a vida corria tranquila naqueles idos de 1960. Os únicos eventos extraordinários eram o encalhe de uma barca na rota para Piranhas e as datas do calendário católico, celebradas com pompa e fervor. Dia de São Miguel, Dia de São Pedro (o padroeiro da cidade), Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Sobre as águas mansas do grande rio circulavam barcos, cholas (canoas de médio porte, capacidade até 300 sacos), canoas de pescadores e, sobretudo, canoas de toldo ao velho estilo, algumas capazes de transportar até 600 sacos ou 36 toneladas.   A cultura ribeirinha aflorava nos cânticos dos condutores das balsas e nos bailes de coco, com sua mescla de música e dança. Todos se alegravam, inclusive os meninos. De modo gracioso ou perverso, como ...

O INCRÍVEL RÚCULA

              Por alguma razão, toca-me escrever sobre meus amigos, tanto vivos quanto mortos. Na medida em que o tempo passa, o segundo grupo aumenta, e é com tranquilo pesar que vejo em cada um que se vai o lembrete de que minha hora também há de chegar. Enquanto espero, vivo (tranquilamente) todas as horas, escrevo (inevitavelmente), que seja como forma de aumentar minha poupança para a viagem final.             Cada pessoa tem um toque especial que merece ser lembrado, Roberto Soares, um amigo dos anos 90 em Belo Horizonte, tinha uma notável veia satírica e uma atitude udigrude (underground) muito simbólica daquela época. Venho agora a saber do seu passamento e lanço ao vento estas poucas impressões.             Numa tarde de fim de ano, lá pelo ano de 1995, enquanto caminhava pelo campus da UFMG, deparei com ...

MORTE E VIDA DE LUIZ VIEIRA

  Lúcia, Luiz, Rose e eu.              Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres, escreveu Manuel Bandeira em um dos seus últimos poemas. O bardo teve um longo tempo para se preparar, após confrontar o fim com tenros dezessete anos de idade. Por isso é bom nos prevenirmos, o fim virá com ou sem motivo.             Para a maioria, morte é fato inédito , tristeza, esquecimento, solidão, vazio de coração raso e mente enrijecida pelo materialismo. No entanto, não era para ser assim.             Tão certa quanto o dia e a noite, deveríamos enfrentá-la sem comoções e até mesmo saudá-la como o poeta, por que não, sem mágoas, compreendendo que se trata apenas da passagem para outro nível, no qual a noção do tempo se desfaz.             Está no Eclesíastes: p...

CANÁRIOS

                Além de pouco stress, muita segurança, boa qualidade de vida e ser uma cidade pequena ligada ao mundo - não apenas conectada -, Timóteo surpreende por um aspecto que passa praticamente despercebido à maioria: o grande número de animais na zona urbana, entre os quais os passarinhos.             Domésticos, desgarrados ou silvestres, os animais nos dão um belo exemplo de coexistência. Cães com coleira, acompanhados dos respectivos donos, desfilam por toda parte como filhos bastardos. E há também os solos, cães vadios independentes, que percorrem as ruas com desenvoltura e dão lições de civilidade a certos humanos, como a de atravessar – sempre - na faixa de pedestres.             Micos podem ser avistados em vários lugares, vez por outra um guaxinim morre sob as rodas dos carros, garças (pelo m...