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ITE E EU

(Imagem: Vector Stock)          Tenho uma amiga fiel que me acompanha há, pelo menos, trinta anos. Começou como um contato discreto, simples troca de telefone com o ortopedista, consulta, raio-x, sessões prematuras de fisioterapia. Depois evoluiu para um relacionamento duradouro no qual um não consegue viver sem o outro, sem travos de amor ou fraternidade juramentada, mas inevitável, como as fases da lua e a conta de luz. Como o corpo e a sombra, a atestar que enquanto estiver firme e ativo terei que carregá-la a tiracolo, onde quer que eu vá.             Ite não é fiel, flerta com qualquer um, Ite é promíscua, dá em todos e todas, não respeita compromissos nem feriados, Ite é uma dor de cabeça e um buraco em minha vida. Só de saber que jamais me separarei dela dá-me convulsões nas patelas e tendões.             Quando ela se i...

CABARÉ DESCONSTRUTIVISTA - Uma leitura de Cabaré Nômade de Josefina Maria Murta Aranã

            Recebi o livro da Jô ontem, abri e li todo de uma vez. Hoje deito estas impressões de leitura, ao calor dos batimentos afetivos que sua obra singular desperta. A Jô é uma autora pouco conhecida, como eu (rerere) - antes de encontrar alguém que fale dos meus livros, falo dos de outros escritores, célebres ou não, pois sei que encontrar os leitores, ainda que em pequeno número, constitui a maior recompensa do escritor, a oportunidade de ouvir um comentário, uma maravilha, e ser objeto de uma análise, o sétimo céu.             A Jô em questão é a Josefina Mª Murta Aranã e seu livro é o Cabaré Nômade , uma brochurinha simpática, estilo mimeógrafo, recheada de ótimos textos. Confessadamente publicada “sem registro na Biblioteca Nacional e sem revisor oficial”, seu livro vai além do que ela imagina. Ela o queria um livro de humor, mas trata-se muito mais de um...

JANTAR CUBANO

          Celebrando a cada dia a beleza de ser um aprendiz, encontramos mais interesse nas trocas ordinárias do que nos alarmes falsos dos profissionais da notícia. Quando tudo vai mal, basta inverter a ampulheta para que a areia continue a soprar nos olhos dos incautos. Explosões, ataques com gases letais e lasers intergalácticos cansam até o menino, fã incondicional dos games e dos filmes de ação. Tenho que tirá-lo desse mundo, fazê-lo imergir nas tarefas escolares e nos cuidados com o corpo.          - Pai, tenho trinta e nove exercícios de matemática para resolver até sexta!          - Então, vá fazendo aos poucos, tipo dez exercícios por dia.          - O problema é que tenho que fazer também as outras tarefas.          - Vida de estudante, rapazinho, quando começar a t...

EMARC 1979

Emarqueanos durante uma excursão, em frente ao hotel, em Valência, Bahia.                 Em mais um desses fenômenos Whatsapp, acaba de ser criado o grupo Emarc 1979, com o objetivo de celebrar a formatura dos Técnicos Agrícolas e Agrimensores daquela prestigiosa escola na safra 1978/79.             O evento tem despertado tamanho furor que você pode deparar com “209 mensagens não lidas” ao abrir o aplicativo. Quando uma foto é postada, a turba lança-se sobre ela para destrinchá-la e classificá-la no rol da memória coletiva, num verdadeiro ato de canibalismo.             Recordar é viver? Certamente, e vice-versa.               O passado é uma narrativa do presente, assim como nosso presente depende de nosso passado. Estes eixos se determinam...

NO DESERTO COM MESCAL

Foto: flickr              Meu vizinho, o seu Mendes, não tinha visto para entrar nos States, então resolveu encarar a fronteira mexicana. Não foi por falta de aviso: a família implorou, os amigos preveniram sobre a fúria dos coiotes, capazes de devorar incautos em pleno deserto. Mas têm pessoas que não emendam, e seu Mendes era uma dessas. Não mandou mais notícias, provavelmente seu corpo está agora virando fóssil em uma cova rasa do planalto de Laredo.             Vem ao caso que eu acabo de completar sessenta anos, e virei, involuntariamente, conselheiro de pessoas de juízo mole, o que me leva a dedicar meu rico botim linguístico ao bem da humanidade sofredora. Valham-me, santespírito, efeitos alucinógenos do auasca, musas sem pudor! Antes que a verve desmedida seque, deitarei sobre o indefeso papel estas impressões sujas de digitais biométricas. O único problema ...

A TERCEIRA IDADE E OUTRAS

                Não pensem que completar sessenta anos é ruim, ao contrário, eu digo que é melhor do completar quarenta ou cinquenta, por diversas razões. Em primeiro lugar, é a prova cabal de que sobrevivemos às fases anteriores e podemos, finalmente,  escolher o que melhor nos convém. Não nos deixemos intimidar, portanto. Retirando, por razões evidentes, o youtube, o netflix e as férias na praia, esse mundo anda caretérrimo.                 O uçam o que tocam nos streamings ou nos breaks comerciais da Rede Globo e você entenderá o que quero dizer. E, como sou um velho, posso também ser um freak e manter-me fiel  ao espírito veintiañero, à idade heroica de vinte anos, o que para mim corresponde ao final dos anos 70 e início dos 80, época de ditadura militar, mas também de punk rock. Naqueles mundo  pós-hippie e pré-aids, mes amis, um montão de coi...

OLD PUNKERS NEVER DIE

            Falarei do poço de crocodilos famintos e da carreira desesperada, em fuga, em Navarra, sol a pino, quando o pai da donzela descobriu que ele era o “cabrón” que tinha “follado” com sua filha. Escapou por um triz, poderia muito bem ter sido escalpelado se não fugisse a tempo. Havia bandoleiros espalhados por toda a área, munidos de drones de vigilância e dardos envenenados, capazes de provocar uma morte agonizante. Os dardos envenenados eram a nova versão das formigas fogo selvagem que puniam os infectos na época do velho oeste. Você anda vendo faroeste demais, francamente. Faroeste é coisa do passado, hoje em dia assiste-se a sci-fies. Você não sabe espanhol, o problema é seu.               E se você sobreviver até a última palavra desta crônica tresloucada dos sessenta anos, compreenderá perfeitamente por que old punkers não podem morrer. Não é segredo, ...

BARÕES DO ROCK

                     Mais do que o ritmo sincopado, a percussão forte, os apelos hedonistas e libertários, o pique juvenil e aquela dose desregrada de insouciance, non sense, sexo e drogas, Rock and Roll é um estado de espírito, um estilo de vida. Talvez nem seja uma escolha, mas sim elemento de identidade que faz o roqueiro possuir o antidoto para a tanta coisa brega que rola por aí, cançõezinhas de dor de cotovelo, falsos protestos, caipiras urbanos e transaltinos, sambas mela cueca, fake funks, toxic axé e rap da rapadura. Porque o rock vem para dizer e diz, dois minutos bastam para que ele deflagre a revolução.             Inúmeras bandas já desfilaram pelo planeta rock and roll, muitas se tornaram clássicas, reconhecíveis aos primeiros acordes. Uma dessas bandas é o Barão Vermelho, legítimo representante da segunda vaga revolucionária que eclodiu no final dos anos ...