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ITE E EU

(Imagem: Vector Stock)


         Tenho uma amiga fiel que me acompanha há, pelo menos, trinta anos. Começou como um contato discreto, simples troca de telefone com o ortopedista, consulta, raio-x, sessões prematuras de fisioterapia. Depois evoluiu para um relacionamento duradouro no qual um não consegue viver sem o outro, sem travos de amor ou fraternidade juramentada, mas inevitável, como as fases da lua e a conta de luz. Como o corpo e a sombra, a atestar que enquanto estiver firme e ativo terei que carregá-la a tiracolo, onde quer que eu vá.
            Ite não é fiel, flerta com qualquer um, Ite é promíscua, dá em todos e todas, não respeita compromissos nem feriados, Ite é uma dor de cabeça e um buraco em minha vida. Só de saber que jamais me separarei dela dá-me convulsões nas patelas e tendões.
            Quando ela se insinuou pela primeira vez, pensei que seria o fim do mundo. Afinal, deixar de correr meus quilômetros avenida acima era como parar de respirar.
            Ite não fez caso de minha angústia, foi fria e calculista. Troquei a corrida pela natação e ela atacou os cotovelos e a coluna cervical - o que só veio a ocorrer vinte anos depois. Portanto, nossa primeira fase foi relativamente positiva, com altos e baixos, como acontece em qualquer relação. Ao invés de me separar, decidi comprar uma bicicleta.
            Por ciúmes, Ite tolerou mal minha paixão pela magrela. Não suportava ver-me contente e siligristido, por aí, pedalando na companhia do filho, livre como um passarinho. Eu tinha ganhado de volta os anos que sacrificara por causa de sua cobiça e maldade. Ela então me ameaçou com dores nas coxas e panturrilhas, mandou-me à clínica duas ou três vezes, até que me resignei com a caminhada dominical, último baluarte do meu orgulho de atleta amador, grito de resistência que estou disposto a levar até o último dia.
             Você quer que eu morra?
            Ite não quer que eu me vá tão jovem.
            Ela diz “jovem” com ar de deboche camuflado de comiseração, diz que não consegue viver sem mim.
            O que ela não sabe é que o ser é mais resistente do que a dor, sobretudo quando novos compromissos substituem a antiga farra de solteiro. Disse um sábio chinês que para esquecer a dor de barriga, basta dar uma martelada no dedo. Nunca tentei tal experiência (e nem recomendo), talvez porque os males que a Ite me causa, agudos porventura e bastante incômodo na maioria das vezes, não me impedem de escrever. Poderiam me impedir de trabalhar, agora que a Ite atacou-me os ombros e os trapézios, metacarpos e falanges, tornando o manuseio da caneta e o uso do quadro bastante penosos. Mas tenho malícia suficiente para fazer o trabalho na saliva e passar as tarefas de cópia e escrita para os alunos. E, para escrever, agora só uso o computador e a Ite não pode fazer nada para me impedir. Minha primeira grande vingança, estou cheio de esperança.
            Ela não esperava por isso, dava como certo que eu me tornaria um velhinho engrugido, de dedos recurvados pela artrose, feito a cauda de um escorpião.
            Para completar minha volta por cima, aprendi a tocar violão, e sobrevivo com galhardia às inflamações articulares que a Ite me causa toda vez que eu ensaio por muito tempo.
            O ombro tá doendo? Eu toco. O indicador e o mindinho gemem ao contato com as cordas? Violão. Punho e cotovelo parecem que vão se soltar do braço e sair passeando por aí? Eu paro.
            Mas não por muito tempo, não vou dar a Ite a ousadia de pensar que eu me rendo a suas ameaças. E isso vale como conselho.
            Se o desdém que sinto por sua incômoda companhia não a faz desistir de vez, que posso tentar, além de ser feliz? Um tutor de família diria que é caso para divórcio, que o desprezo é o sinal de alerta para que as convivências terminem pacificamente antes de se transformarem em guerra aberta.
            Com respeito a isso, a Ite que descanse em paz. Vou enterrá-la junto com meus ossos falíveis, mas não por agora, tampouco dentro de cinco ou dez anos. Um oráculo me falou que passarei dos oitenta e ainda farei a corrida de touros de Pamplona.
            Oráculo, você está maluco? Faça uma predição sobre os mares do sul e as comissárias da Qatar Airlines servindo champanhe e fondue. Não vá, porque o avião vai cair. Quem vai cair é você, se não parar de fazer previsões fajutas. Olha que já aguentei a Ite por trinta anos, não vou trocar de camisa para mandar um oráculo de araque catar coquinhos em Xangai.
            Oitenta anos é uma ofensa! Verei a luz da segunda metade do século XXI brilhar sobre o lindo planeta terra.
            Será minha vingança definitiva.

©
Abrão Brito Lacerda
09 07 19
           
           
           

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