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A LUZ E O ELEVADOR

(Foto: wordpress.com)
            Certos indivíduos são vítimas de perseguições infundadas, preconceitos mesquinhos, ilações maldosas. Algumas categorias também. Só porque você padeceu naquele voo para Nova Iorque, espremido como um limão entre dois lutadores de luta livre, não está autorizado a sair por aí dizendo que a obesidade deveria ser punida ao mesmo título que os crimes de lesa-majestade e a propaganda enganosa.
            Como é sabido, as companhias aéreas mantêm aquelas poltronas com espaços macróbios para a classe menos abastada por razões financeiras e também sociais. Julgam que os comedores de hambúrguer-batata frita, os membros da Vigilantes do Peso (aquele grupo que se reúne regularmente para conferir quanto cada um engordou no mês) e tamanhos extra large em geral devem sentir no estômago a inconveniência de serem cidadãos fora das medidas.
            Só o cronista não repousa em seu labor denodado para levar ao leitor o registro fiel dos fatos, sem deixar que uma palha escape aos seus sentidos. Se vê uma cena digna de nota, despe-a de seu invólucro enganoso e a disseca sob todos os ângulos, de ponta-cabeça, às avessas, assim assado. Para isso, caminha à-toa pelas ruas, dando-se ao luxo de rir e chorar com as agruras de seus semelhantes, quem sabe emprestando seu palpite à balbúrdia dominante, no intuito de que nada se resolva, enfim - nascemos para explicar?
            Estando eu outro dia plantando bananeira em uma fila de ônibus, o que vejo? Muitos ônibus, rosnando em direção ao ponto como tigres motorizados. E assim que chegavam, paravam e sugavam a multidão que os aguardava num passe de mágica. Nunca tinha visto tanta gente indo para o mesmo lugar! Talvez alguns tenham entrado porque estavam ali há tanto tempo a ponto de esquecer o destino. Quando o bruto parecia uma lata de sardinha cheia, o motorista botou a primeira, acelerou com uma baforada de óleo diesel e alguém bradou lá de trás: “O elevador emperrou!”.
O elevador é utilizado na porta do meio do veículo para transporte de passageiros para permitir o acesso de cadeirantes. É lei municipal, artigo 1122, alínea ABC, parágrafo 130. Se o elevador não funciona, o veículo não está em conformidade para circular, e isso dá multa.
Tentaram reanimar o elevador com bons modos. Verificaram  a parte elétrica, parecia tudo ok. Depois vieram os maus modos: deram chutes em sua carcaça de aço. Necas. A féria foi salva por um samaritano de ar prestativo e braços que tinham o diâmetro do meu abdômen: o bom homem se deteve em sua jornada rua acima, agarrou a cadeira com duas firmes tenazes, levantou-a juntamente com o cadeirante e a depositou sobre o passeio sob aplausos gerais.
No entanto, vejam vocês, três pontos adiante, outro cadeirante e o elevador ainda travado. Desta vez, era para subir. Não há nada para estragar na hora errada como elevadores de ônibus.  De novo os procedimentos de primeiros socorros, sem o resultado esperado. O motorista pôs-se a procurar ajuda para resgatar o portador de necessidades especiais, inspirado no exemplo anterior. Várias pessoas se apresentaram, mas não conseguiram mover o passageiro degraus acima, pois o homem pesava uns  120 quilos, sem contar a cadeira, reforçada por barras laterais e com um jogo de rodinhas a mais - a primeira cadeira de rodas truque que já vi! No total, um fardo de uns 150 quilos. Foi preciso chamar o corpo de bombeiros, que içou o desafortunado rolha de poço por intermédio de um caminhão-guindaste.
Como exigir que o trânsito ande?
Na minha cidade, às vezes falta vergonha, às vezes falta luz. E, por incrível que pareça, as duas coisas estão interligadas. Por isso, quando tem um blecaute, todos gritam: “Que falta de vergonha!” Em Brasília, é a mesma coisa.  
Então, a presidenta reuniu a PF (Portos & Fronteiras), o IEF (Instituto de Estudos sobre Fraudes) e o CPF (Comitê de Política Financeira) - e no que deu? Descobriram que tudo não passa de sabotagem da indústria de velas, que já gozou de dias gloriosos e atualmente anda pela hora da morte. Nos áureos tempos, o setor veleiro empregava mais do que o Senado Federal, hoje emprega menos do que o programa espacial brasileiro. Assim, um segmento inteiro da economia fica na dependência das obrigações cristãs do Dia de Finados, o que não é suficiente para desovar o estoque. Além disso, o aumento da expectativa de vida da população tornou irrisórias as vendas para velórios e necrotérios. Resultado: vela aqui, vela ali e vão regulamentar os cortes de luz através de lei federal, estipulando um blecaute geral do país a cada quinze dias.
E, o que é pior: ao subir para a sala de despachos do Planalto para sancionar a nova lei, a presidenta ficou presa no elevador, devido a um pico de luz. Por isso, aquela aparência de holograma que ela transmite ao discursar não é marketing, é pura verdade. A coitadinha ainda está presa entre o térreo e o primeiro andar, sem que ninguém tenha notado!
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Abrão Brito Lacerda 
20 10 13



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