So
come into my enclosure
And meet my
Melancholy blues
Queen
Circulo pela cidade do
estuário do Rio da Prata, curtindo a melancolia de suas ruas retas e largas, um
tanto desertas nas noites de verão. A urbe é plana e amiga dos pedestres, por
isso vou apreciá-la devagar enquanto caminho, detendo-me a cada cruzamento para
observar os gatos e a beleza das fachadas. Não vou permitir que me fuja entre
as retinas, quero-a assim, silenciosa e tranquila, com uma dimensão humana,
longe do trânsito ruidoso e devorador das horas de labuta.

Integro a ágil e
constante marcha portenha, à qual se somam, como agradável
surpresa, outros meios alternativos de transporte, como bicicletas, patins e
skates. É bom que as pessoas se permitam
andar pela cidade como se estivessem em um parque de diversões, com as devidas
precauções, é claro. Converter o deslocamento em exercício e entretenimento é
uma grande sacada que outros povos deveriam imitar. Ao se reduzir a velocidade,
aumenta-se o tempo na mesma proporção. A vida torna-se menos urgente e
competitiva, pode-se olhar ao redor, sentir prazer e descobrir outras pessoas
fazendo o mesmo.

Não está em nenhum
guia turístico percorrer a Calle Florida, da Plaza San Martin à Plaza de Mayo,
cruzando com os inevitáveis gatos e outros curiosos seres noturnos, alguns dos
quais com aspecto humano. Não há bandidos para te assaltar, pois os seres
noturnos querem é paz e sossego, caso contrário escolheriam o dia. Não encontro
outro melhor elogio a fazer à capital argentina. Os turistas, naturalmente, preferem
o local de dia, quando está apinhado de gente e cada centímetro quadrado de
espaço é disputado. Todo tipo de trabalhador circula por ali, dos engravatados
aos uniformizados, há uma enorme variedade de lojas, bandas de música de
variados ritmos e formatos, pregadores, policiais e os habituais espertalhões
que remam a favor da maré (humana).

Gostei tanto do
passeio noturno pelo centro que resolvi replicá-lo ao outro lado, entre a Plaza
Dorrego, no bairro de Santelmo e a Plaza de Mayo, só que de dia, porque não
tinha perdido o juízo. A distância é de aproximadamente dois quilômetros e
andar sozinho sempre tem seus riscos. Além disso, a experiência do tango na
praça é cativante e envia nossos corações de volta à melancolia, ora doce e
terna, ora dramática e arrebatadora. Artistas, crianças, pombos e vendedores
ambulantes se misturam. A dançarina, atlética e esvoaçante, salta com requintes
de sensualidade. O que um simples espetáculo de rua não pode fazer com nossa
imaginação! A imagem fica guardada para além das telas digitais, fica na
lembrança, como prelúdio a um devaneio. Ecos de um passado não muito distante
ainda ressoam pela longuíssima Calle Bolívar. Por toda parte se depara com o
saudosismo, ele se tornou um verdadeiro meio de vida para muitos, praticamente uma atração turística.

Para fazer o óbvio, vou
a Puerto Madero e dou de cara com a solidão de uma arquitetura distante, sem a dimensão
humana que se descobre em outros lugares. Através dos caminhos de concreto,
sente-se a melancolia do cartão postal que habita os gélidos recônditos sem
alma própria. Felizmente o verde está
logo ali, no Parque 3 de Febrero, tão bonito e bem cuidado que faria ruborizar
o Jardin du Luxembourg de Paris. El Rosedal, uma parte dedicada
exclusivamente às rosas, o lindíssimo coreto coberto com trepadeiras, o lago
com seus patos e cisnes e os recônditos discretos onde os namorados podem
trocar beijos e amassos.



Acima
da copa das árvores da Plaza San Martin, atrás do imenso Edifício Cavenah, os
aviões decolam no final da tarde como se fossem miragens. Na parte
intermediária da praça, fica o Memorial de las Malvinas, em homenagem aos
homens caídos durante a guerra de 1982. Entristeço-me por eles, sem deixar de me
fazer uma pergunta sobre a persistência desse luto nacional. Um convite para
seguir até a parte mais alta e tomar um vino con chorizo no
bar e bistrô Torcuato & Regina e aproveitar o resto da tarde na companhia
de San Martin em estátua, música ao vivo e transeuntes que cruzam em todas as
direções.


Assistir a uma
ópera imaginária no Teatro Colón e percorrer El Caminito no bairro de La Boca,
sentindo-se um hippie cosmopolita; almoçar bife de chorizo no Café Tortoni, com
o serviço mais simpático que já se viu, e posar ao lado de Gardel e outras
grandes cabeças; admirar as fotos penduradas nas paredes e se deixar levar pelo
saudosismo de um passado de glórias que o espírito local não cansa de
reanimar - pois neste passado próximo-distante está a identidade de um povo.
Ω
Copyright
Abrão Brito Lacerda
Se fosse prefeito de Buenos Aires, te contratava como embaixador turístico.
ResponderExcluirDeu até vontade de ir lá!
Valeu pela viagem, Abrão!
Salut, Zé,
ExcluirVocê, como sempre, muito gentil. Em nome do prefeito, fica o convite para que visite Buenos Aires.
Há algo de que não falei nesta postagem, mas que me surpreendeu e agradou: a hospitalidade local e a forma como nos olham. Taí uma idéia para um próximo texto.
Abraços